Para o bem ou para o mal, existe uma boa chance de sua atual vida ter algum tipo de relação com a automação. Se estiver procurando um parceiro no Tinder, está recorrendo aos algoritmos na caixa-preta do Match Group. Ou talvez esteja procurando recomendações em apps que mostram o bar ideal para um encontro. Se as coisas ficam mais sérias, talvez recorra a um outro algoritmo secreto para ajudar a planejar toda a festa de casamento.

E se você acabar casando pelos motivos errados, existem outras caixas-pretas nas quais pode incluir suas informações para resolver detalhes do divórcio. Conhecido como “amica“, o serviço foi lançado esta semana pelo governo da Austrália como uma maneira de permitir que os envolvidos “façam acordos parentais” e “dividam seu dinheiro e propriedade” sem precisar contratar um advogado para fazer o trabalho pesado.

O procurador-geral da Austrália, Christian Porter, disse que o governo federal está “empenhado em melhorar o sistema legal familiar para torná-lo mais rápido, simples, barato e muito menos estressante para casais que estão se separando e para os seus filhos.”

Essa novidade vem em boa hora. De acordo com uma pesquisa local feita neste mês, cada vez mais casais australianos estão reconsiderando seus pares românticos. E mesmo um pequeno aumento no número de divórcios pode causar um efeito dominó: o sistema de varas familiares da Austrália é notoriamente sobrecarregado e o lockdown no país fez com que as coisas ficassem ainda piores.

De acordo com Porter, o algoritmo amica deve não só facilitar os divórcios, mas também aliviar a pressão sobre esses tribunais.

O projeto custou caro, com as autoridades locais supostamente injetando cerca de AU$ 3 milhões (cerca de R$ 11,2 milhões). Mesmo assim, o próprio site do amica não descreve com detalhes como funciona a divisão de bens e outras mágicas:

amica usa inteligência artificial para fazer sugestões sobre como dividir seu dinheiro e seus bens com base nas informações que você inclui. A inteligência artificial considera os princípios legais e os aplica às suas circunstâncias.

Se você e seu parceiro concordarem com a divisão sugerida pelo amica, vocês têm a flexibilidade de combinar entre si como gostariam de colocar a divisão em vigor. Por exemplo, vocês vão vender a casa? Um de vocês vai comprar a outra parte?

Em outras palavras, comparando seu caso com os tipos de resoluções obtidas em casos similares por casais que romperam laços no passado, o sistema de inteligência artificial deve ser capaz de sugerir como você poderia querer, digamos, dividir a pensão para as crianças.

Por mais que tentem, os engenheiros ainda não descobriram um algoritmo que possa distinguir com precisão o quão confusas e voláteis as emoções de uma pessoa podem ser – um problema que, como era de se esperar, pode surgir no caso de um divórcio confuso, volátil ou violento. Por isso que, pelo menos de acordo com o comunicado à imprensa divulgado pelas autoridades australianas, o amica é um serviço destinado aos casais “cujo relacionamento é relativamente amigável” – exatamente como seu nome sugere.

Porém, o site do amica tem detalhes muito escassos, o que significa que “amigável” demanda uma interpretação. E se um dos lados do casal estiver chateado com os acordos, mas com muito medo do confronto para falar o que pensa? E se ambos concordarem em tudo, exceto quem deve ficar com o cachorro? E se ambos forem cordiais em pessoa, mas se transformarem em monstros absolutamente desprovidos de simpatia quando estão atrás de uma tela? Há tantos fatores que entram em qualquer relacionamento – ou o fim de qualquer relacionamento – que pode ser virtualmente impossível para um sistema de inteligência artificial prever o que pode ser melhor para cada casal.

Para casais australianos que queiram tentar, o recurso é 100% gratuito –pelo menos por enquanto. A partir de janeiro de 2021, os casais terão que pagar uma “uma taxa nominal” entre AU$ 165 (cerca de R$ 615) e AU$ 440 (cerca de R$ 1.640). Pode ser mais barato que a média de um advogado, mas considerando que a inteligência artificial em todas as indústrias inevitavelmente acaba falhando em algum momento, pode compensar mais adotar os métodos tradicionais.