por Bruno Izidro

Talvez a maioria de vocês não reconheça os dois acima, mas com certeza já ouviram muito as vozes de Charles Emmanuel e Sergio Stern. O primeiro é nada menos que a voz de Ben 10, do desenho homônimo, e Stern é conhecido por dublar personagens marcantes como o Sensui, de Yuyu Hakusho, e atualmente o Mordecai, de Apenas Um Show.

Os dois dubladores foram atrações no Sana, evento de cultura pop que aconteceu no último fim de semana, em Fortaleza, e aproveitamos para falar com eles sobre dublagem em games. Afinal, mesmo sendo mais conhecidos por desenhos animados, ambos já trabalharam também com jogos. Stern já trabalhou em Halo e, mais recentemente, em Sunset Overdrive. Já Charles foi o personagem Veigas, no agora extinto Grand Chase, e O Príncipe Negro, em World of Warcraft.

O assunto, claro, acabou caindo na polêmica da participação de Pitty e Roger Moreira em Mortal Kombat X e Battlefield Hardline, respectivamente. “Eu ouvi a dublagem do Roger, mas foi por pouco tempo porque eu não aguentei ver até o final, confesso. O da Pitty eu ouvi tudo, mas também não ficou bom”, fala Charles.

Tanto ele quanto Stern compartilham da ideia de que pessoas que não são profissionais não deveriam fazer esse tipo de trabalho, mas falam que não é justo colocar culpa pela qualidade ruim nos famosos. “É a voz da Pitty, é a voz do Roger, então o bombardeio [de críticas] cai em cima deles, não do seu ‘zezinho das couves’ que teve essa ideia ‘ideia brilhante’”, critica Stern.

Quem seria o seu “zezinho das couves”? Charles tem uma resposta mais direta: “Essa é ideia dos clientes [clientes dos estúdios de dublagem] e o cliente do jogo, do Mortal Kombat, resolveu que a Pitty que tinha que dublar a personagem, achou que ia ficar legal”. Mortal Kombat X e Battlefield Hardline tiveram a localização feita a pedido da Warner Bros. Games, a distribuidora dos dois jogos no país.

Um caso particular, no entanto, são os jogos de futebol. Há alguns anos Fifa contem as narrações de Tiago Leifert e Caio Ribeiro e Pro Evolution Soccer conta com locutor Silvio Luiz. Os dubladores falam que aí é algo diferente. “Se eu fosse escalado para fazer [a dublagem de um jogo de futebol] eu não iria fazer tão bem quanto eles, que já estão acostumados a fazer aquilo no dia a dia”, fala Charles. “Nesse caso é perfeito chamar eles”.

Sob melhor direção

Se as empresas atrapalham ao impor a escolha de famosos, o trabalho de direção (ou, no caso, a falta dela) na dublagem também não ajuda. Os dubladores falam que esse é um aspecto importante para melhorar as dublagem de games por aqui e Charles, inclusive, exemplifica como uma direção bem feita impacta no resultado, como quando ele trabalhou em World of Warcraft.

“O Gustavo Nader, que foi o diretor de dublagem, sabia toda a história e tudo sobre jogo pra me contar. As vezes ele falava: ‘olha, nessa fala, você pode não ter percebido, mas ele (o personagem) está um pouquinho mais sentido, por causa da rixa da família e tal, então coloca mais um pouco de peso nessa fala’. Então ele sabia explicar tudo”, fala a voz do Ben 10. Não à toa o trabalho de localização dos jogos da Blizzard é um dos mais elogiados e o próprio Charles fala que Diablo III (do qual ele não participou) é o melhor trabalho de dublagem em games que viu até agora.

Já Sergio Stern não é muito ligado no mundo dos games e diz que o que conseguiu ver melhor o resultado e que gostou foi Sunset Overdrive, do qual participou. “Minha sobrinha comprou e jogou pra me mostrar. Óbvio que não fiquei ouvindo só o meu personagem [o vendedor de armas], fiquei curioso para ver o resultado como um todo e achei muito bem feito”.

personagem_dublador_sergio

Mesmo com dublagens ruins e polêmicas com famosos, os dubladores são positivos e veem que algo de bom pode vir daí. “O interessante dessa história é que se o resultado foi ruim, as pessoas que consomem esse produto ficaram enfurecidas e demonstraram isso claramente”, fala Sergio Stern. “De repente isso serve para melhorar daqui pra frente”, completa.

A melhora pode até vir pela voz dos dois, principalmente de Charles Emmanuel, que é jogador de League of Legends e não esconde o desejo de participar da dublagem de um dos campeões do jogo da Riot. “Um que falam muito que ficaria legal com a minha voz é o Ezreal e outro que eu gostaria de ter feito é o Ekko, que é um dos personagens recentes do LoL”, fala. Não deve demorar muito para ouvirmos uma voz familiar como um dos campeões de Summoner’s Rift.

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Bruno Izidro viajou para o SANA a convite da organização do evento.