Os chefes de estado brasileiros recebem da Abin (Agência Brasileira de Inteligência) um TCS, Terminal de Comunicação Seguro. Trata-se de um celular criptografado pensado para comunicação de decisões do governo e evitar eventuais vazamentos e invasões. Esse aparelho permite a comunicação criptografada apenas com dispositivos similares e, por isso, não é possível instalar apps como WhatsApp e Twitter, dois dos mais preferidos do presidente Jair Bolsonaro.

De acordo com uma reportagem da Folha de S. Paulo, Bolsonaro trata de diversos assuntos por um celular convencional, onde troca mensagens pelo WhatsApp para agendar encontros – como fez com o governador de São Paulo, João Doria – e faz anúncios pelo Twitter.

Não é praxe que o presidente use mais os smartphones convencionais do que o TCS. Temer, por exemplo, preferia contatos telefônicos por voz e investia na privacidade: ele chegou a instalar um “misturador de voz” em seu gabinete, um aparelho que embaralha os sons e dificulta a clareza de eventuais gravações. Por outro lado, ele teve um áudio de WhatsApp vazado em 2016, que gerou uma crise no governo. Na gravação, ele falava do impeachment de Dilma como se já tivesse sido aprovado.

Sua esposa, Marcela Temer, chegou a ser chantageada depois que um telhadista hacker conseguiu se passar por ela no WhatsApp em um caso que lembra os esquemas de SIM Swap, embora o acusado negue que tenha clonado a linha da então primeira-dama. Na época, o criminoso alegou ter tido acesso a fotos pessoais de Marcela ao descobrir a senha de seu iCloud em uma base de dados comprada no centro comercial Santa Ifigênia.

Dilma, por sua vez, só usou o WhatsApp quando estava prestes a sofrer o impeachment.

O uso de um smartphone convencional e de aplicativos como WhatsApp é visto com reserva por integrantes do setor de inteligência do Palácio do Planalto. Eles alegam que, embora seja mais prático, o app não é seguro o suficiente para garantir o sigilo absoluto das informações.

Como Bolsonaro alterna entre o TCS e o smartphone comum, eles temem que o presidente se descuide e envie informações mais importantes pelo dispositivo não recomendado – o receio é colocar em risco a segurança do próprio presidente e prejudicar iniciativas do governo. Assessores de Bolsonaro afirmam que ele tem evitado compartilhar conteúdo sensível pelo WhatsApp.

“Ele utiliza para o envio de mensagens informais. Em relação aos assuntos que exigem reserva, ele opta pelos meios de comunicação da Presidência da República”, disse o porta-voz do governo, Otávio Santana do Rêgo Barros, à Folha.

O presidente ainda tem à sua disposição um e-mail funcional criptografado e um telefone fixo que também tem sistema de segurança.

A resistência ao celular criptografado lembra Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, que prefere usar o seu celular pessoal para tuítar e para realizar ligações, em vez de manter apenas o aparelho criptografado disponibilizado pela inteligência americana.

Enquanto isso, o WhatsApp continua sendo uma ferramenta importantíssima para Bolsonaro. Zuckerberg agradece por ter mais um usuário em seu poderoso ecossistema.