BuscaPé, líder na comparação de preços no Brasil com 31% das visitas a sites do gênero, está se estranhando com o Google por causa da chegada do novo concorrente Google Shopping ao país. A briga foi parar no Ministério da Justiça devido a práticas no Google (buscador) que, de acordo com o Buscapé, estariam favorecendo o recém-lançado serviço da mesma empresa em detrimento do BuscaPé e, de carona, todos os outros do gênero já estabelecidos no Brasil. Pode o Google fazer o que quiser no seu quintal ou o BuscaPé tem razão em reclamar?

A alegação do BuscaPé encontra respaldo na conjunção de dois fatores desencadeada pela dominação do buscador do Google no país. Se lá fora o Yahoo! tem uma parcela “legada” dos bons tempos no market share e o Bing continua crescendo, aqui ninguém é páreo para o Google, que é usado, segundo o StatCounter, por 99% dos brasileiros conectados. Sendo a porta de entrada para muita gente — inclusive uma galera que digita “www.site.com.br” no buscador para acessar sites —, quaisquer alterações, comportamento ou interferências visando promover ou ocultar um produto ou serviço baseado na web tem grande impacto.

Para o BuscaPé, é o que está ocorrendo nesse caso. O Google vem usando o poder do buscador que tem para favorecer o seu serviço através de duas práticas: inserir fotos apenas nos produtos da sua loja e posicionar artificialmente e em locais privilegiados links e chamadas para o Shopping. Aos olhos dos usuários, ainda que inconscientemente, essas duas mexidas são suficientes para destacar em muito o serviço do Google e deixar para escanteio BuscaPé e todo os demais. Através de uma Nota de Esclarecimento, a empresa diz que processos semelhantes estão acontecendo em vários países, e expôs seus motivos:

A prática impacta de forma discriminatória todo o mercado de comparadores de preços e afeta, especialmente, aos usuários de Internet, que são os consumidores finais. O resultado apresentado pelo Google Busca pode induzir o consumidor a uma compra equivocada, já que pela indução de clicar no primeiro resultado natural, ele pode deixar de ter o menor preço e acesso a informações importantes sobre o produto ou loja.

A representação foi enviada ontem à Secretaria de Direito Econômico, do Ministério da Justiça. Se considerada válida, ela poderá beneficiar outros serviços do segmento, como UOL Shopping, Zura! e BondFaro (esse, do mesmo grupo do BuscaPé). Nós procuramos o Google que respondeu simplesmente: “O Google não foi notificado e não tem conhecimento de qualquer processo nesse sentido”. Enquanto a cartinha da justiça não chega à gigante de pesquisas, vale lembrar que o Brasil possui uma lei antitruste, a 8.884/94, e que a prática do Google pode sim ser configurada como irregular:

Art. 20. Constituem infração da ordem econômica, independentemente de culpa, os atos sob qualquer forma manifestados, que tenham por objeto ou possam produzir os seguintes efeitos, ainda que não sejam alcançados:

(…)

IV – exercer de forma abusiva posição dominante.

Só torço para que, além do time de advogados, os de desenvolvimento e marketing do BuscaPé também estejam alertas e trabalhando muito para torná-lo melhor que qualquer outro. Não que seja o caso (não cabe a mim julgar), mas ao mesmo tempo em que práticas abusivas devem ser combatidas, recostar-se nelas para manter uma posição é muito pouco; afinal, você prefere que seu time leve o caneco dentro do campo, jogando bonito e goleando os adversários, ou no tapetão? [Estadão]