Ian Lipkin, caçador de vírus de renome mundial, visita rotineiramente diversos países que passam por epidemias estranhas. De SARS na China a MERS na Arábia Saudita, seu laboratório descobriu ou descreveu mais de 500 vírus anteriormente misteriosos para os humanos.

Mas como é trabalhar na linha de frente de uma epidemia? Como você identifica um vírus que não pode nem mesmo ver? O Gizmodo entrou em contato com Lipkin para conhecer mais sobre a vida de um caçador de vírus.

Ouvir Lipkin falar sobre sua pesquisa é, basicamente, ouvir uma lista dos vírus mais conhecidos: HIV, vírus do Oeste do Nilo, SARS e assim por diante. Mas vamos começar com a MERS, ou Síndrome Respiratória do Oriente Médio.

Esta misteriosa doença, semelhante à pneumonia, eclodiu na Arábia Saudita em 2012 e, desde então, acabou com 79 vidas. Na semana passada, o laboratório de Lipkin na Universidade Columbia copublicou um estudo na mBio com mais uma prova de que dromedários estão envolvidos na disseminação da MERS.

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Ian Lipkin com a atriz Jennifer Ehle no set do filme Contágio, onde atuou como consultor científico. Foto por Claudette Barius/cortesia de Warner Brothers.

Camelos e voos noturnos: estudando MERS na Arábia Saudita

Lipkin trabalha nos EUA, mas é difícil levar um vírus perigoso e misterioso para lá; por isso, ele levou seu laboratório para a Arábia Saudita.

O cientista e seus colegas elaboraram um laboratório móvel que se encaixa exatamente em seis malas despachadas (duas para cada três membros da equipe). Eles só precisaram enviar um item separadamente: um robô utilizado para obter amostras de DNA e RNA. Chegando ao destino, eles montam tudo, “como qualquer laboratório de biologia, desde que você tenha água encanada e eletricidade”, disse Lipkin.

Com este novo laboratório móvel, a equipe de Lipkin pode se instalar rapidamente em qualquer lugar do mundo. Mas nem tudo foi perfeito na primeira vez: uma máquina quebrou, e a forma mais rápida de substituí-la era trazer de avião um pesquisador lá de Nova York. “Nós o encontramos no aeroporto JFK com uma peça de reposição. Ele comeu um bagel com salmão defumado e um cookie; em seguida, voou de volta a Riad”, diz Lipkin.

O estudo procurou por sequências do vírus MERS em dromedários (camelos de uma corcova) na Arábia Saudita. Eles descobriram que o vírus estava em todo lugar, até mesmo em amostras coletadas em 1992. As sequências genéticas encontradas em camelos também eram iguais às dos humanos infectados.

Pode haver outros animais envolvidos na transmissão da MERS, mas esta é uma prova muito convincente de que os dromedários – cujo leite e carne são consumidos no Oriente Médio – têm um papel nisso.

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Lipkin (centro) com a atriz Kate Winslet, de Contágio. Foto cedida por Candice Hoffman, CDC

Como identificar um vírus

No caso da MERS, a equipe de Lipkin estava caracterizando um vírus já identificado antes. Mas, às vezes, é necessário começar com a pergunta: que vírus causa essa doença?

Lipkin identificou um vírus – o Borna – pela primeira vez em 1990. A doença de Borna afeta principalmente o sistema neurológico de ovelhas e cavalos, causando comportamento anormal e levando à morte. Gatos e pássaros também podem se infectar, assim como humanos – há estudos ligando a presença do vírus a distúrbios psiquiátricos.

Para identificar o vírus, foram dois anos contínuos de trabalho até 2h da manhã, todos os dias, com ratos infectados. Lipkin sequenciou o DNA total e analisou minuciosamente os genes dos ratos, até ficar apenas com os genes do vírus Borna. Hoje em dia, esse processo levaria só algumas horas.

Isso é em parte graças a novas técnicas desenvolvidas por Lipkin e seus colegas, utilizando tecnologias avançadas para sequenciamento de DNA. Temos, por exemplo, o MassTag PCR: um sistema rápido para a identificação de vírus conhecidos. Eis como ele funciona, segundo o New York Times:

Os pesquisadores preparam um coquetel de material genético a partir de 20 ou mais tipos de vírus. Quando eles misturam o DNA de uma amostra neste coquetel, os segmentos virais se conectam a todo DNA correspondente. Lipkin e seus colegas podem então pescar esses segmentos correspondentes e analisá-los com um espectrômetro para determinar sua massa. A partir dessas pistas, os cientistas muitas vezes pode determinar com que tipo de vírus estão lidando.

Para vírus mais exóticos e desconhecidos, os cientistas podem usar uma tecnologia que imita o método de Lipkin para identificar o vírus Borna, através de sequenciamento e subtração – só que agora, tudo é automatizado.

Aos 61 anos, Lipkin passa mais tempo firmando colaborações internacionais do que trabalhando no campo. (Em 2003, ele ficou doente após levar à China 10.000 kits de teste para SARS, numa época em que ninguém queria viajar para o país.) Ele agora administra dezenas de projetos que abrangem o mundo dos vírus – de bandos de aves no Iraque a um estudo sobre autismo e infecção na Noruega.

Apesar dos desafios de trabalhar com uma tecnologia rudimentar há uns 25 anos, Lipkin diz que a descoberta do vírus Borna é um dos pontos altos de sua carreira. “Se um cientista tiver sorte, ele identifica apenas um novo vírus em toda a sua carreira”, disse o Dr. Anthony S. Fauci, diretor do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas, ao New York Times. Para Lipkin, obviamente se trata muito mais do que sorte.

Imagem inicial: cortesia da Universidade Columbia