Se você tem um animal de estimação, uma hora ou outra vai chegar ao ponto em que tem certeza absoluta de que seu companheiro entende cada palavra que sai da sua boca. Até a comunicação gestual do pet parece afinada, expressando mensagens sem sequer um latido ou miado.

A comunicação entre humanos e seus animais de estimação é fascinante, incluindo influência de tons, gestos e, é claro, as palavras que ele “aprende” ao longo dos anos que passa do seu lado. Será que essa comunicação tão clara seria tão transferível assim se seu cãozinho de repente se visse diante de algum visitante do exterior, por exemplo?

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O Giz Pergunta de hoje foi atrás de especialistas em comunicação animal para descobrir: o latido é universal? Como o local em que cresceu influencia a habilidade comunicacional de um animal de estimação? E quais são as coisas importantes de se saber sobre o que seu pet está tentando te dizer e como ele se comunica com outros animais? Já podemos adiantar que, sim, os cães conseguem entender uns aos outros, independentemente da localidade de onde provêm. Entretanto, há uma série de nuances interessantes na comunicação entre cães e na reação deles no contato com humanos.

Abaixo, as respostas detalhadas dos especialistas:

Marc Bekoff

Professor emérito de Ecologia e Biologia Evolucionária na Universidade do Colorado e autor de “A Vida Emocional dos Animais” e do recente “Canine Confidential: Why Dogs Do What They Do”

Alguns pássaros têm dialetos locais, mas eles parecem serem capazes de entender um ao outro. Alguns pássaros que compartilham o mesmo habitat geral evoluíram o que se chama de dialetos locais e que são diferentes entre membros da mesma espécie que vivem em outros lugares.

Eles parecem ser capazes de entender um ao outro, mas às vezes suas chamadas ou seus cantos são únicos para um local específico.

(Espécies diferentes) Podem se comunicar, sim. Exemplos são: cães e humanos, cães e coiotes, além de pássaros diversos.

Sobre influências ecológicas locais na comunicação dos animais, o tipo de paisagem pode afetar como sons e odores diferentes viajam, e quando há obstáculos, sinais visuais não viajam muito bem.

Os animais usam os mesmos movimentos e sons básicos, mas, às vezes, existem variações em animais que têm contato com os humanos. Quando cachorros, por exemplo, querem perguntar ou dizer algo aos seus donos, eles podem fazê-lo de diferentes maneiras que aprenderam com as pessoas com quem convivem. Eles podem lhes pedir para brincar ou implorar por comida usando sinais que são específicos em suas experiências com humanos específicos.

Eles podem responder a diferentes tons da mesma maneira que nós.

Stanley Coren

Pesquisador neuropsicológico, professor emérito do Departamento de Psicologia da Universidade da Colúmbia Britânica, autor do célebre livro “A Inteligência dos Cães”, traduzido em 26 idiomas, e “How Dogs Think

Para humanos, sons de linguagem são bem arbitrários. Não existem conjuntos de palavras que tenham um significado comum para todos os membros de nossa espécie. Muitos sons diferentes, em idiomas diferentes, podem significar a mesma coisa. Os sons associados com as palavras “perro”, “chien”, “hund” e “cão” significam a mesma coisa. Não existe, virtualmente, nada em comum entre os padrões de som que compõem suas palavras. Os sons que os animais usam para se comunicar uns com os outros, no entanto, têm muito mais uniformidade.

Esses sons são distintos em diferentes espécies, mas (exceto por certos “dialetos” regionais entre pássaros), dentro de qualquer tipo de animal, parece haver um tipo de linguagem universal ou bastante comum e parece haver um código sonoro universal usado por maioria dos animais. Ele é baseado em três dimensões: o tom do som, a duração do som e a frequência ou taxa de repetição dos sons.

Significado dos tons:
– sons graves (como o rosnar de um cão) normalmente indicam ameaças, raiva e a possibilidade de agressão. Esses sons são interpretados como: “Fica longe de mim”.
– sons agudos significam o oposto, pedindo permissão para se aproximar ou dizendo que é seguro se aproximar.

A questão é: por que os cães deveriam usar e entender essa lei do tom? A resposta começa com uma simples observação de que coisas grandes fazem sons graves. Obviamente, um cachorro não muda seu tamanho só de mudar o tom de seus sinais sonoros. Então, por que o destinatário desse sinal responderia a essas variações de tom, já que eles frequentemente não representam a realidade física?

Agora, é aqui que a evolução e o desenvolvimento da comunicação começam a exercer sua magia. Suponha que você seja um animal que está enviando sinais para aqueles ao seu redor.

Considerando que você sabe que outros animais estão prestando atenção ao tom dos seus sinais, agora você pode deliberadamente usar isso como um meio de comunicação. Se você quiser fazer com que outro animal se afaste, ou fique de fora de seu território, você pode enviar um sinal com tom mais grave, como um rosnado, sugerindo que você é maior e mais perigoso.

Por outro lado, você também poderia usar um sinal de tom agudo, como um ganido (grito de dor dos cães), para sugerir que você é pequeno e que, portanto, é seguro se aproximar de você. De forma semelhante, mesmo sendo grande, se você quiser sinalizar que não tem nenhuma má intenção ao se aproximar de outro animal, você poderia indicar que pretende agir como uma pequena criatura inofensiva ao choramingar ou ganir.

Significado da duração dos sons:
Geralmente falando, quanto mais longo o som, maior é a probabilidade de que o cachorro esteja tomando uma decisão consciente sobre a natureza do sinal e de seus comportamentos seguintes. Portanto, o rosnado ameaçador de um cão dominante que tem toda a intenção de se impor e não recuar será tanto grave quanto de longa duração e continuado. Se o rosnado acontecer em picos mais curtos e durar apenas brevemente, ele indica que existe um elemento de medo presente e que o cão está preocupado se consegue lidar com um ataque com sucesso.

Significado da frequência:
Sons que se repetem com frequência, a uma rápida taxa, indicam um grau de animação e urgência. Sons espaçados ou não repetidos normalmente indicam um nível menor de animação. Um cachorro dando um ou dois latidos ocasionais em direção à janela está apenas mostrando um leve interesse em algo. Um cachorro latindo em diversos picos e repetindo os latidos várias vezes em um minuto está sinalizando que sente que a situação é importante e talvez até uma crise potencial.

O latido é um som de alarme. Não existe ameaça ou agressão sinalizada pelo cão, a menos que o latido seja grave e misturado com rosnados.

De modo geral, latidos em sequência contínua mas com tom grave e mais devagar sugerem que o cão está sentindo um problema iminente. Pode significar algo como: “o intruso está muito próximo”.

Um ou dois latidos curtos e em tom agudo são típicos de saudação. Já uma sequência longa de latidos únicos com pausas é um sinal de que o cachorro está pedindo companhia. Já um latido “gaguejado”, que soa parecido com “rrr-au”, feito quando ele está com as patas da frente no chão e as traseiras em pé quer dizer que ele quer brincar.

Esses padrões de latidos são usados por todos os cães, independentemente de seu local ou da linguagem falada pelos humanos com quem eles vivem.

Em suma, quando se trata de humanos, os cães respondem, na maior parte das vezes, à linguagem em que eles foram treinados. No entanto, eles reagem ao tom emocional da linguagem falada humana e a sons que o falante está fazendo, usando as mesmas três dimensões (tom, duração e frequência) que usam na interpretação de sons de outros animais. Isto é uma linguagem universal.

Helena Truksa

Bióloga Especialista em Comportamento e Bem-estar, fundadora da Ethos Animal.

A comunicação intraespecífica (entre animais da mesma espécie) normalmente é bastante conservada evolutivamente, permitindo que animais da mesma espécie consigam se comunicar eficientemente, ajudando na manutenção da espécie em todo o mundo. Isso assegura que os animais consigam se reproduzir e deixar descendentes, mantendo o sucesso reprodutivo da espécie em geral.

A comunicação interespecífica (entre animais de diferentes espécies) também ocorre, especialmente nas relações presa-predador. Por exemplo, algumas espécies desenvolveram, ao longo da evolução, sistemas eficientes de camuflagem que “escondem” o animal de seus predadores, reduzindo a taxa de predação e aumentando suas chances de reproduzir e deixar descendentes. Um exemplo disso são os “bichos-folha” que se assemelham bastante a plantas. A camuflagem (mimetismo) pode ser empregada também por predadores, como por exemplo peixes-pedra, que se confundem com o substrato e atacam a presa numa emboscada, quando ela passa em seu raio de alcance.

Comunicação química também é frequentemente utilizada entre espécies distintas. A mais comum é o odor: gambás expelem um jato de odor fétido que afasta possíveis predadores, permitindo sua fuga. O odor pode ser utilizado dentro da mesma espécie também. Exemplo disso é a marcação territorial que diversas espécies efetuam, como felinos (entre eles o gato doméstico), caninos (cães domésticos inclusive) entre outros animais. Frequentemente, a urina carregada de feromônios é utilizada na demarcação de território.

No campo da comunicação interespecífica, não podemos nos esquecer daquela observada nas relações entre humanos e animais de estimação. Em especial, cães e gatos.

Cães e animais de estimação

Os cães desenvolveram, ao longo da evolução, a capacidade de ler e interpretar muitas expressões corporais e faciais humanas, facilitando muito sua comunicação conosco. Eles também se tornaram hábeis na associação de sons que emitimos na forma de palavras a comportamentos e consequências diversas. E conseguem até mesmo entender, ainda que de forma não tão complexa, palavras de acordo com o contexto e de forma referencial, tal qual crianças pequenas de aproximadamente 2 a 3 anos de idade o fazem.

A troca de olhares entre cães e humanos vem sendo estudada mais aproximadamente nos últimos anos, por pesquisadores da área de cognição canina, com conclusões impressionantes. Por exemplo, cães são capazes de acompanhar o olhar de uma pessoa que lhes aponta algo (apenas olhando) em determinada direção. Assim como são capazes de entender que um braço com um dedo estendido aponta algo. Eles traçam mentalmente uma linha reta imaginária que liga a ponta do dedo até o objeto que está sendo apontado. Isso denota grande capacidade cognitiva e complexidade de raciocínio não observada, neste sentido, na maioria dos animais.

Quanto mais antigo o histórico de relacionamento entre determinada espécie animal e humanos, mais provável é a ocorrência de mecanismos eficientes de comunicação. Através da domesticação, obtemos indivíduos cada vez mais dóceis e mais aptos a se comunicar e nos “entender “.

No caso de comunicação verbal, animais de estimação há muito tempo com seus donos teriam dificuldade de entender humanos de idioma diferente daqueles que sempre cuidaram deles. Mas possivelmente não haveria problemas na compreensão de expressão corporal e expressões faciais humanas, que são basicamente iguais em todo o mundo, independentemente de idioma ou cultura. A entonação vocal na fala humana carrega indícios do estado emocional da pessoa, facilitando a compreensão do que se diz pelo animal.