Quando vemos cavaleiros medievais em suas armaduras geralmente nos lembramos daquelas batalhas lentas, desajeitadas e esquisitas.

Um time de pesquisadores liderado por Daniel Jaquet, da Universidade de Genebra, quer por fim nesse mito. Eles estão realizando uma pesquisa que analisa as possibilidades de movimentos e a quantidade de energia gasta ao lutar usando uma armadura medieval. As conclusões foram publicadas no estudo “Historical Methods: A Journal of Quantitative and Interdisciplinary History”.

Estudiosos já sabiam que as armaduras não limitavam tanto a mobilidade quanto se pensava. Existe, inclusive, um filme de 1924 do Museu Metropolitano de Nova York que aborda o mito. Porém, até há pouco tempo, haviam poucos dados para sustentar essa tese.

Há cinco anos, Jaquet e sua equipe fizeram um vídeo destacando algumas das conclusões preliminares da pesquisa:

Agora, os pesquisadores suíços recriaram a rotina de treinos do famoso cavaleiro francês, Jean le Maingre, também conhecido como Boucicaut. Ele alcançou diversas vitórias militares até ser capturado pelos ingleses na Batalha de Azincourt em 1415. Existia, inclusive, um registro por escrito de seu treinamento, que era bem pesado: ele montava em cavalos, corria, dava machadadas e marteladas, subia escadas apenas com as mãos e escalava muros — tudo isso usando armadura.

Os pesquisadores fizeram uma cobaia realizar uma versão moderna dos treinos do Boucicaut utilizando uma réplica da armadura da época. O cavaleiro moderno precisou pular sobre um cavalo com alças, correr pela cidade (para o deleite dos moradores), cortar madeira, subir escadas usando apenas a mão e escalar. No vídeo abaixo, a cobaia também dá cambalhotas, estrelinhas e até dança:

Essa é uma prova visual bem convincente de que os cavaleiros medievais tinham bastante mobilidade em suas armaduras. Mas isso não significa que não tinham limitações. E existe uma razão pro treino de Boucicaut ser tão pesado: o peso extra da armadura exige muito mais esforço físico.

Enquanto os suíços conduziam seus experimentos, pesquisadores britânicos liderados por Graham Askew, da Universidade de Leeds, também estudavam as armaduras. Em 2011, eles publicaram um estudo a respeito do gasto energético de cavaleiros em ação.

A equipe de Leeds recrutou interpretes de lutas do Royal Armouries Museum e os vestiram com réplicas de armaduras usadas no século XV pelo xerife de Londres, William Martyn. As cobaias fizeram exercícios em esteiras, usando aparelhos para medir a quantidade de oxigênio consumida. A partir disso, os cientistas puderam calcular a energia gasta.

interprete

(Esquerda) Interprete na esteira. Imagem: Graham Askew. (Direita) Efígie de William Martyn (aproximadamente 1470-1480), cujo a armadura serviu de modelo para a réplica no estudo de 2011. Imagem: Joy White.

Os resultados: os voluntários usaram 1.9 vez mais energia enquanto corriam e 2.3 vezes mais energia enquanto caminhavam. “Isso é meio que afirmar o óbvio”, disse Thom Richardson, da Royal Armouries, ao Popular Mechanics. “É difícil andar por aí usando uma armadura, mas é interessante obter alguns dados concretos.”

A distribuição do peso da armadura era a maior responsável pelo gasto de energia — especialmente nos braços, pés e pernas. Só as pernas carregavam entre 6 e 8 quilos a mais, fazendo com que os músculos tivessem que trabalhar muito para superar a inércia. Outras evidências apontam que os pequenos cortes na máscara e o peitoral apertado restringiam ainda mais o fluxo de oxigênio.

O novo estudo da equipe da Suíça reforça essas conclusões. Jaquet e sua equipe afirmam que essa pesquisa é apenas a validação de um conceito, já que utilizaram apenas uma cobaia e uma réplica de armadura. Eles gostariam de repetir o experimento com mais cobaias e com diferentes tipos de armaduras, para obter uma base de dados maior. Outra questão são as roupas que os cavaleiros usavam debaixo da armadura, que poderiam limitar os movimentos — talvez mais do que a própria armadura.

Isso significa que em breve poderemos ter mais vídeos engraçados com cavaleiros modernos demonstrando suas habilidades.

[Historical Methods: A Journal of Quantitative and Interdisciplinary History, via Medievalists.net]