por Bruno Izidro

Para muita gente, Street Fighter pode ser aquele jogo nostálgico para soltar uns hadoukens e tirar um contra com amigos, mas vamos lembrar que ele também é um jogo competitivo e, como tal, possui uma cena com jogadores profissionais e competições, mesmo que não seja nada tão grandioso e com premiações milionárias como League of Legends ou Counter-Strike. Pra falar a verdade, a comunidade de jogos de luta é um pouco avessa ao rótulo de eSports. Afinal, eles estão aí em busca do mais forte muito antes disso tudo virar moda.

O geofísico que, nas horas vagas, é um dos melhores jogadores de Street Fighter V no Brasil
Um cara bateu o recorde mundial de Street Fighter V ao vencer 260 oponentes em sequência

Mesmo que campeonatos de Street Fighter não estejam tão em evidência como outros, pouco a pouco eles vêm chamando mais a atenção e estão crescendo, principalmente após o lançamento de Street Fighter V esse ano. Tudo bem que o jogo sofreu com diversos problemas nos modos online e off-line, mas ele deu um novo gás ao cenário competitivo, que já estava sentindo o desgaste dos oito anos de Street Fighter IV.

Há algum tempo que a Capcom também investe para deixar a cena competitiva mais estruturada e atraente para quem compete com o circuito oficial do jogo, a Capcom Pro Tour, com um ranking global dos melhores jogadores que participam dos vários torneios durante o ano, além de realizar o mundial Capcom Cup.

Com isso, a cena competitiva vive uma ascensão em todo o mundo. As regiões com os principais e mais famosos jogadores ainda são EUA e a Ásia, mas o Brasil atualmente é considerado uma nova potência em evolução no cenário.

Uma prova disso é que, na última semana, foi realizada em São Paulo as finais da regional latino-americana da Capcom Pro Tour 2016 (CPT Latam) e que dava uma vaga direta para a Capcom Cup. Dos 16 jogadores que participaram, sete eram brasileiros, incluindo os três que são considerados os melhores de Street Fighter no país: Keoma Pacheco, Diego “Dark” Lins e Thomas “Brolynho” Proença (sobre o qual já falamos por aqui).

Keoma_Dark_Brolynho

Lá, conversamos com eles e com representantes da Capcom para entender esse crescimento da cena brasileira – algo que foi resultado de vários fatores.

Novo jogo, novas estratégias

A CPT Latam não foi vencida por nenhum brasileiro e o campeão acabou sendo o jogador Ray “Dr Ray” Rosario, da República Dominicana. Mesmo assim, o gerente de comunidade da Capcom no Brasil, Dennys Michelassi, o “Trancas”, (é bom ir se acostumando, porque todos se conhecem pelos apelidos) fala que a própria realização do torneio no país mostra o valor e a importância que o cenário competitivo daqui está ganhando.

“Esse ano o nosso trabalho foi reforçado junto com os organizadores de torneios e a própria Pro Tour é uma ferramenta pra gente poder abraçar as iniciativas de comunidade por aqui”.

Esse abraçar de iniciativas comentado por Trancas tem a ver com algumas mudanças da Capcom Pro Tour em 2016, que aproveitou a chegada de um novo game, com novas formas de jogar e novos bonecos, para dar mais visibilidade e oportunidades aos jogadores das cenas em ascensão.

Torneio

Assim, aqui no Brasil, quatro torneios fizeram parte do circuito oficial de Street Fighter V: a Cacomp, realizado durante a Jam Nerd Festival, em Brasília; o campeonato realizado no SANA, evento de anime e games de Fortaleza; O Fight in Rio, na capital carioca, e o Treta Championship, o mais famoso e principal torneio de jogos de luta do país, realizado em Curitiba.

Esses torneios foram organizados de forma independente, mas a produtora deu apoio e considerou eles válidos para a pontuação do ranking da Pro Tour, além do campeão de cada um ter ganhado uma vaga na final regional da CPT Latam, essa sim, organizada pela Capcom. Isso não só deu mais importância para campeonatos nacionais como fez com que jogadores de fora viessem ao Brasil para competir.

Os jogadores daqui também admitem que a Capcom vem ajudando bastante a desenvolver o cenário local. Keoma é um deles. “O Brasil foi reconhecido, através da Capcom Pro Tour, como uma nova potência no cenário competitivo e os jogadores estão mais empenhados em competir”, fala o jogador.

Quem também concorda é Dark, campeão do Treta desse ano. “Houve muitos campeonatos grandes aqui no Brasil por causa da Capcom Pro Tour, ano passado só teve aquele que o Keoma ganhou [Na Brasil Game Show 2015] pra ir pra Capcom Cup”, declara.

“Keomem”

A cena competitiva local não estaria em evolução se os jogadores daqui não estivessem também em bom nível e já há algum tempo eles vêm chamando a atenção lá fora. Em especial, Keoma é apontado por todos como o responsável em dar mais visibilidade para o cenário brasileiro após a participação dele na Capcom Cup 2015, ficando no top 8 e vencendo nomes famosos como GamerBee e SnakeEyez.

“Não há nenhuma dúvida de que o Keoma contribui de uma forma histórica pra gente, sim”, fala Brolynho, que vai participar da Capcom Cup esse ano. “Agora as pessoas olham pra cá e veem que tem outros jogadores de bom nível também”.

Um exemplo disso é o americano Kenneth “K-Brad” Bradley, que estava participando da CPT Latam por ter vencido um torneio na Colômbia. Ele fala que foi ao ver Keoma jogando que começou a prestar a atenção na cena brasileira.

Depois de jogar contra outros jogadores brasileiros durante o ano, K-Brad diz que eles não devem em quase nada aos jogadores dos EUA ou da Ásia. “Mas eles precisam se adaptar mais em defesa, porque as vezes jogar na defensiva nesse jogo é a melhor forma. Se conseguirem fazer isso, eles vão estar em pé de igualdade com o resto do mundo”, comenta.

Kbrad

Mas o que o próprio Keoma tem a dizer sobre a contribuição dele para o cenário daqui? “Acho que todo jogador de ponta tem como dever estimular a comunidade e o meu desempenho na Capcom Cup acabou contribuindo e impulsionando isso aqui”, responde o brasileiro.

Porém, não foi só isso que fez os brasileiros serem notados lá fora. A vitória de Brolynho em cima do Infiltration (que falamos aqui) contribuiu ainda mais para dar visibilidade para o cenário no Brasil. Por isso quando Dark foi participar de um campeonato no Chile, Hajime “Tokido” Taniguchi, um dos “cinco deuses” dos jogos de luta do Japão, já conhecia o brasileiro.

“O cara me elogiou bastante, falou que o meu Alex é um dos melhores que ele já viu”, comentou Dark. “Acredito que agora a galera tá respeitando a gente e vendo com outros olhos”.

Não dá pra ganhar de perfect ainda

A cena competitiva no Brasil está em um dos seus melhores momentos, isso é fato, mas ainda há muito o que evoluir, principalmente porque ela está muito concentrada nas regiões sudeste e sul. No Nordeste, mesmo com jogadores tão bons quanto, o cenário é bem diferente.

Ericke Maciel (que não tem apelido) era o representante da região por ter vencido o torneio do SANA, em Fortaleza, que também é sua cidade natal. Ele fala que o cenário competitivo por lá é bem inconstante. “No começo do ano tinha mais gente competindo, jogadores bons participando dos torneios, mas depois do SANA estagnou”, fala o jogador. “Alguns desanimaram com o jogo e outros foram pro KoF 14”.

Ericke também é um bom exemplo das dificuldades em tentar melhorar competitivamente, mas ter empecilhos geográficos. Como ele não possui patrocínio, tem que bancar todas as viagens e despesas do próprio bolso. “Pro Treta [em Curitiba] era R$ 1.400 a passagem e ainda tem que pagar hotel, alimentação, inscrição do campeonato. É complicado. Não compensa”, fala o jogador. “Eu fiquei dois torneios grandes sem participar, aí fica estagnado, porque em cada um deles as pessoas vão evoluindo mais”.

Com a Capcom pagando as despesas para ele participar do CPT Latam, Ericke pode finalmente participar de uma competição de alto nível. “Eu tava desanimado, por causa da cena do nordeste”, revela. “Mas quando eu vim pra cá, joguei com o Brolynho, com o Keoma, aprendi bastante com eles”.

Ericke

Esse é o tipo de evolução que a Capcom também espera oferecer para o cenário brasileiro no próximo ano, quando a segunda temporada de Street Fighter V começar. Trancas até diz que a cena brasileira ainda não está no seu melhor momento. “Digo isso com confiança, não porque tem algo ruim ou de errado, mas porque ainda tem bastante a melhorar, tanto de infraestrutura quanto de número de torneios”, fala o gerente de comunidades.

O objetivo é que, para o 2017, dois ou até mais brasileiros possam participar da Capcom Cup. Assim, o Brasil está aos poucos deixando de ser só o país do Blanka para virar o país de Keoma, Brolynho, Dark, Ericke e tanto outros bons jogadores de Street Fighter.