Stephen Elop, que está há pouco tempo ocupando o cargo de CEO da Nokia, mandou um memorando interno de 1.300 palavras para os funcionários que reconhece, de maneira incrivelmente dura e sincera, a óbvia realidade. Há frases como: “O primeiro iPhone foi lançado em 2007, e nós ainda não temos um produto que tem uma experiência que chegue perto dele. O Android apareceu na cena um pouco mais de 2 anos atrás, e esta semana eles pegaram a nossa posição de liderança em volume de smartphones vendidos. Inacreditável”. O memorando, revelado ontem à noite pelo Engadget e confirmado por outros sites e “fontes bastante confiáveis”, parece real.

O memorando começa com uma analogia interessante: a historinha de um trabalhador de uma plataforma de petróleo no Atlântico Norte (ali perto da Finlândia) que ouve uma explosão, vê tudo pegando fogo e tem de tomar uma decisão: ou fica parado e provavelmente morre ou pula nas águas congelantes. Elop conta o desfecho:

“Ele decidiu pular. Foi inesperado. Em circunstâncias normais, o homem nunca consideraria a hipótese de mergulhar em águas geladas. Mas este não era um momento qualquer – a sua plataforma estava pegando fogo. O homem sobreviveu à queda e às águas. Depois de ser resgatado, ele assinalou que a ‘plataforma pegando fogo’ causou uma mudança radical em seu comportamento. Nós também estamos em uma plataforma em chamas, e temos que decidir como que vamos mudar nosso comportamento.”

Não sabemos se a analogia é focada em plataformas mais reais, como sistemas operacionais de celulares. Mas o executivo, como vocês devem saber, vem da Microsoft e já deu várias pistas em algumas entrevistas que está sedento por mudanças, mesmo que pareça que ele está se jogando em um mar congelado. Porque elas são necessárias. De dumbphones baratos e ultra-resistentes a maravilhas geek como o N95 (na época que foi lançado não havia concorrentes que chegassem perto), a empresa finlandesa liderou a inovação no mundo dos celulares com folga quando o foco era em hardware, não no pacote software, aplicativos e experiência do usuário, como hoje. O Symbian não parece ter evoluído o suficiente, o versátil (e apenas para geeks) Maemo morreu e o tão prometido Meego ainda não ganhou sequer um aparelho, apesar de ter sido anunciado há um ano.

A consequência desta lentidão em acompanhar os rivais é clara: em smartphones, que logo dominarão o mercado a exemplo do que acontece nos EUA, eles perderam a liderança para o Android no mundo. Em dumbphones, os aparelhos baratinhos com margem de lucro pequena, a empresa sofre a concorrência cada vez maior de produtos chineses em mercados que dominava absoluta, como a Índia e o sudeste asiático. Não falta inovação apenas para dar um ambiente melhor para os desenvolvedores. Falta para fazer com que o processo de fabricação do celular da lanterninha seja mais barato – e de preferência inclua espaço para outro chip.

Na sexta-feira Elop anunciará medidas para chacoalhar a empresa. Acionistas estão pedindo a cabeça de vários executivos. Há fortes rumores que a Nokia poderia adotar o Windows Phone 7. Não sabemos qual será o caminho a ser tomado, mas há a certeza que uma alteração no curso é necessária, que a Nokia tem condições de fazê-la e que finalmente há alguém no comando que tem consciência disso. Pelo menos os fãs cegos da Nokia, que adoram dizer que exageramos todas as críticas aqui no Giz, têm uma nova pessoa para chamar de “idiota que só fala bobagens”: o próprio chefe da empresa querida. Se este memorando é verdade – e tudo leva a crer que é – ele não falou nada de diferente do que estamos dizendo aqui nos últimos dois anos. Vamos aguardar mais confirmações e o discurso de sexta-feira. [Engadget]