A clássica não-desculpa funciona mais ou menos assim: “Desculpa que você ficou chateado”. É uma maneira ardilosa de expressar arrependimento sobre como as ações horrorosas de alguém fizeram outra pessoa se sentir, ao invés das ações horrorosas em si. Mas o CEO do Unroll.Me, cuja empresa-mãe revelou essa semana ter vendido os dados anonimizados dos clientes para o Uber, inventou um nível completamente mais terrível e sociopata de não-desculpa. Ele não está arrependido que você esteja chateado por seus dados terem sido vendidos. Ele está arrependido de ter sido pego.

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Em um post no blog da companhia no domingo (23), o co-fundador Jojo Hedaya disse que era “desolador” que “alguns dos nossos usuários estavam chateados ao descobrir como nós monetizamos o nosso serviço grátis”. A revelação foi um pequeno detalhe em um grande perfil do New York Times sobre o CEO do Uber, Travis Kalanick; o repórter Mike Isaac revelou que a Slice Intelligence, que é dona do Unroll.Me, “coletou os recibos de Lyft de seus clientes de suas caixas de entrada e vendeu os dados anonimizados para o Uber”, que os usou como “um caminho para ajudar os negócios do Lyft”.

O Unroll.Me é um serviço grátis que permite a seus usuários cancelar a inscrição de todas as listas de email não desejadas de uma vez só, o que só é possível permitindo o acesso da companhia a todos os seus e-mails. É um clássico exemplo do dilema do usuário de internet moderno: devemos trocar nossos dados pessoais pela conveniência de, por exemplo cancelar a assinatura de todos os emails inúteis que caem na nossa caixa de entrada, ou fazer anotações, ou usar basicamente qualquer um dos maiores sites na internet?

Se o exagerado uso do termo “desolado” acima não fosse o bastante, Hedaya foi além no ato de ser, digamos, um babaca:

“É claro que nós temos um Contrato de Termos de Serviço e uma Política de Privacidade em inglês, claro que os nossos usuários concordaram que leram e entenderam antes de usarem o serviço, mas a realidade é que a maioria de nós, eu incluso, não tem tempo para ler esses termos direito.”

A política de privacidade da companhia de fato diz aos seus usuários que vende seus dados, enquanto se compromete a remover informações pessoais de emails que eles vendem. Chamar essa política de “inglês simples” pode ser um tanto generoso (as ênfases são nossas):

Nós podemos coletar, transferir, vender e revelar informações não pessoais para qualquer propósito. Por exemplo, quando você usa nossos serviços, nós podemos coletar dados das e sobre as “mensagens de correio eletrônico comerciais” e “mensagens de transações ou relacionamento” (nos termos definidos no CAN-SPAM Act (15 U.S.C. 7702 et. seq.) que são enviadas para suas contas de email. Nós coletamos tais mensagens de transações comerciais para que possamos entender melhor o comportamento dos remetentes de tais mensagens e melhor entender o comportamento do nosso cliente e melhorar nossos produtos, serviços e propagandas. Nós podemos revelar, distribuir, transferir e vender tais mensagens e os dados que coletamos de e em conexão com tais mensagens; dado, no entanto, que se nós revelarmos tais mensagens ou dados, todas as informações pessoais contidas nessas mensagens sejam removidas antes de tal distribuição.

Nós podemos coletar e usar mensagens de transações comerciais e dados associados para construir uma pesquisa de mercado anônima de produtos e serviços para nossos confiáveis parceiros de negócios. Se nós combinarmos informações não pessoais com informações pessoais, a informação combinada será tratada como informação pessoal enquanto estiver combinada.

Ainda assim, Hedaya promete “mensagens mais claras no nosso site, no nosso aplicativo, e nos nossos FAQs” no futuro. Os comentários no post, enquanto isso, parecem indicar que a maioria das pessoas não foi convencida:

“Você deve estar brincando! Você pegou meus dados e vendeu para o Uber e sabe-se lá quem mais… você pode pegar a sua “desculpa” e enfiar ela… São pessoas como você Jojo que fazem a humanidade parecer cada vez pior.”

“Já desinstalei. Você não pode roubar meus dados privados. F***** você e o seu produto de merda. Espero que o seu negócio fracasse horrivelmente.”

“Eu recomendei esse aplicativo para centenas de pessoas. O tempo todo eu pensei que estava ajudando, mas agora não sinto nada além de culpa. Eu me sinto tão traído.”

Pelo menos um defensor da crescente máquina de exploração de dados, no entanto, estava do lado de Hedaya:

“Eu não uso o seu serviço, mas eu não vejo nenhum problema com isso, eu fico muito frustrado com a revolta das pessoas nisso tudo. Pessoal, a maioria dos serviços online gratuitos que você usa está vendendo seus dados ou vendendo o acesso aos seus hábitos. Até mesmo o Disqus, o mecanismo usado neste formulário de comentários, está mandando seus hábitos de navegação para muitas redes diferentes.

É muito ingênuo e arrogante ficar com raiva disso. O Unroll.me não fez nada errado e essa prática não ameaça você se você é um usuário (enquanto eles não forem hackeados, mas você deveria ter percebido isso há muito tempo).”

Viu? Está tudo bem. Todo mundo está vendendo cada aspecto da sua existência online, então cada vez que isso acontece individualmente, tudo bem; agir como se você estivesse magoado porque descobriram que você está fazendo isso é ainda melhor. É assim que você parece uma pessoa esperta.

O Gizmodo tentou entrar em contato com Hedaya para perguntar como seus dados são anonimizados e se eles consideram mudar para o consentimento voluntário; nós vamos avisar se obtivermos resposta. Enquanto isso, a vice-presidente de marketing da Slice Intelligence, Jaimee Minney, nos enviou o seguinte comunicado:

 

“Nós não revelamos nenhum dos nossos clientes nem como eles usam nossos dados. O que eu posso dizer é que todos os nossos dados são limpos de informações pessoais antes dos clientes os verem. A forma como a nossa tecnologia funciona é que ela identifica o que é um recibo eletrônico, então identifica os dados de compra a partir desses recibos. Esses são os dados que os nossos clientes recebem. No setor dos transportes, nós medimos coisas como receita, tarifa, frequência, e detalhes sobre onde o transporte ocorreu.”