Está cada vez mais difícil de se esperar alguma privacidade quando se está navegando na internet. Por isso, uma organização sem fins lucrativos do Reino Unido está trabalhando para desenvolver o poder da rede anônima Tor no coração do seu smartphone.

A Brass Horn Communications está experimentando diversas maneiras de melhorar a usabilidade do Tor para moradores do Reino Unido e uma deles envolve um cartão SIM (chip de telefone).

• 7 coisas que você precisa saber sobre o Tor
• A dark web está desaparecendo

Antes, uma rápida explicação sobre a rede: o pacote do Tor Browser para PCs pode ajudar a bloquear o seu endereço IP de bisbilhoteiros e companhias de coletas de dados. Não é uma solução para bloquear qualquer tipo de rastreio e pessoas que utilizam a rede para atividades altamente ilegais ainda podem ser pegas, mas o sistema basicamente envia os seus dados por diversos nós da rede para anonimizar a atividade dos usuários – e isso já basta para a maioria das pessoas.

A rede pode ajudar usuários a navegar na web em países com firewalls restritivos e fazer com que tenhamos mais privacidade no geral. O problema é que trata-se de um aplicativo suscetível ao erro dos usuários, especialmente em celulares. A Brass Horn espera mudar isso.

O fundador da companhia, Gareth Llewelyn, disse ao Motherboard que sua organização tem como objetivo “mandar um dedo do meio para a filtragem de dados móveis e vigilância em massa”. Llewelyn tem se irritado com o esforço implacável do governo do Reino Unido para aprovar uma legislação que permita a vigilância e enfraqueça a criptografia. Junto de seus esforços para desenvolver mais nós do Tor no Reino Unido para aumentar a velocidade limitada da rede, Llewelyn está testando um cartão SIM que automaticamente manda os seus dados de navegação via Tor e evita que as pessoas naveguem acidentalmente sem proteção.

Atualmente, a opção primária para os usuários dos smartphones que querem usar o Tor Browser ainda está em versão alpha. Além disso, é preciso usar um outro software, chamado Orbot, para filtrar a sua atividade em apps dentro da rede. Apenas aplicativos que possuem funcionalidade de proxy, como o Twitter, são compatíveis. Além disso, a opção está disponível apenas para usuários do Android.

Para usar o cartão SIM da Brass Horn ainda é preciso ter o Orbot instalado. A ideia é que você não consiga acessar a internet se não estiver dentro da rede Tor. É preciso fazer algumas poucas configurações, que são ensinadas pela própria companhia, e a partir daí eles garantem proteção por meio das diversas camadas do Tor.

Em um e-mail ao Gizmodo, Llewellyn disse que ele não recomenda usar o chip em aparelhos com slots para dois chips. Segundo ele, o objetivo do projeto é que o usuário “não consiga enviar acidentalmente alguns pacotes pela a Clearnet (a internet não criptografada). Queremos proteger a privacidade das pessoas, anonimizar e/ou proteger. Se alguém usa um celular com dois chips, o sistema deixaria de ser à prova de falhas e isso não seria recomendável”.

É claro que se uma pessoa quiser muito usar dois SIMs, ainda é possível fazer a coisa funcionar.

Não há proteção enquanto você está no Wi-Fi também. Mas no geral, o projeto oferece um caminho para jornalistas, ativistas e usuários extremamente cuidadosos para que se sintam sempre protegidos.

O chip age como um provedor e a Brass Horn basicamente funciona como uma operadora de rede móvel virtual (MVNO, na sigla em inglês), que se vale de outras redes. O site do serviço Oniong3G destaca o fato de ser a “operadora mobile mais segura” por fazer a ponte entre “endereços de IP privados a endpoints remotos que, se por um acaso ‘vazarem’, não identificarão você ou a Brass Horn Communications como sua operadora”. O plano custa £2,00 (R$ 9,50 na cotação atual) por mês e £0,025 (R$ 0,12) por megabyte usado na rede.

Um porta-voz do Tor Project disse ao Gizmodo que eles não estão envolvidos com o projeto e que proteger dados móveis pode ser algo difícil. “Isso parece ser uma maneira interessante e criativa para lidar com a privacidade, mas ainda exige que se tenha muita confiança de que sua operadora irá assegurar que nenhum vazamento aconteça”, disse.

É possível obter informações sobre a versão beta desse chip neste link. A Brass Horn espera que o seu cartão SIM esteja disponível para o público geral no Reino Unido no ano que vem. É uma boa ideia esperar até que haja alguma pesquisa independente sobre o serviço. Ainda assim, trata-se de uma ideia interessante que pode abrir caminho para um modelo de atuação similar em outros países.

[Motherboard]

Imagem do topo: Wikimedia