Notícias de saúde falsas podem parecer uma epidemia hoje em dia, mas também estavam na ativa durante a Era Vitoriana, quando as doenças do corpo geralmente eram assunto de vida ou morte. Mas, diferentemente dos remédios questionáveis que você deve conhecer, vaporização vaginal para as suas cãibras ou uma banheira flutuadora para remover a ansiedade, algumas das ideias falsas sobre o bem-estar cultivadas na Inglaterra do século XIX podiam de fato ajudar a salvar vidas, chamando a atenção de todos para os problemas de saúde pública.

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Louis Pasteur, também conhecido como o “pai da microbiologia”, não provou que os germes existiam até o começo da década de 1860 com seus experimentos “carne em um vidro”; e não foi até 1879 que o médico alemão Robert Koch ligou bactérias específicas a doenças específicas. Quando essa base foi estabelecida, o conhecimento foi rapidamente se acumulando; então, até 1884, tifoide, tuberculose, cólera, disenteria, malária, tétano, pneumonia e outras doenças bacterianas comuns foram ligadas ao seu micróbio único.

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Cólera “Atropela os vitoriosos e os derrotados”. Robert Seymour, 1831 (Imagem: U.S. National Library of Medicine)

Antes disso, o conselho de saúde era uma mistura de besteiras (deixe uma tigela de água, pois ela limpa o ar do “ácido carbônico”) e o errado: o popular manual de saúde “Domestic Medicine” sugeria lavar o corpo para ter certeza de que os poros estavam desbloqueados: a pele suja impedia a transpiração, mandando toxinas profundamente dentro do corpo onde produziam doenças (nada disso é verdade, conforme qualquer um que já suou com a pele suja de terra pode confirmar, mas a falsa ideia da “desintoxicação” através do suor se manteve).

A ideia vitoriana sobre saúde mais espetacularmente errada era a crença de que os ataques aromáticos de uma cidade não eram apenas desagradáveis, mas perigosos. Cheiros poderiam matar através do miasma, que causava doenças. O autor Lee Jackson, que escreveu o nojentamente interessante livro Dirty Old London, definiu o miasma para mim como “um cheiro horrível, particularmente o cheiro de matéria em decomposição”.

A ideia vitoriana sobre saúde mais espetacularmente errada era a crença de que os ataques aromáticos de uma cidade não eram apenas desagradáveis, mas perigosos.

E onde estavam essas coisas apodrecendo? Em todos os lugares e, previsivelmente, pior nas cidades, especialmente na metrópole que mais crescia, Londres. O principal desses odores era o cheiro de ureia de homens mijando em todo lugar (não havia banheiros públicos, um fato que significava que as mulheres não ficavam longe de casa durante muito tempo, já que muito poucas mulheres se dignariam a urinar na rua). Outros detalhes lindos do perfil aromático da cidade vem dos “pigstyes”, pilhas de lixo caseiro aos lados das ruas que continham “cinzas, ossos, conchas de ostras… vegetais apodrecendo, peixes podres ou um gatinho morto em decomposição”, de acordo com o livro de Jackson.

Então também tinha as latrinas no quintal, cheias de excremento humano — sim, mesmo casas ricas tinham elas, que eram cuidadas por homens que vinham à noite retirar o dejeto com baldes e andavam pelas ruas da cidade com o estrume humano sob a cobertura da escuridão. Famílias mais pobres dividiam uma latrina muitas vezes transbordando, que poderia ser limpa ocasionalmente, dependendo do humor do senhorio. Não havia regulações na cidade sobre como essas latrinas eram construídas, mas seu considerável cheiro era o menor dos problemas: em Londres o “o subsolo estava ficando saturado de detrito humano, e começou a penetrar na terra e poluir as águas que alimentavam os poços”, escreve Ruth Goodman, historiadora autodidata que viveu como uma pessoa da Era Vitoriana ela mesma, contando a história no livro sucesso de vendas, How to Be a Victorian.

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Vinaigrettes como este (1701-1800) seguravam ítens de cheiro forte como uma esponja embebida em vinagre para cheirar em áreas fedidas da cidade para “prevenir” a doença (Imagem: Science Museum, London, Wellcome Images)

E se você acha que não pode ficar pior do que esgoto, que tal corpos mortos em putrefação? Nas cidades, cemitérios não eram nada além de campos de decomposição, onde os corpos podiam ser enterrados temporariamente, dependendo da demanda. Em cemitérios pequenos, a maioria no meio dos bairros, recém-mortos eram enterrados em cima de mortos mais velhos — às vezes, os ossos velhos eram removidos e guardados em ossários ou sepulturas para dar mais espaço. Spa Fields, um campo de enterro popular era “absolutamente saturado de mortos”, na década de 1830. “Os pequenos jardins das igrejas de Londres eram tão ridiculamente cheios que corpos em decomposição estavam perto do topo do solo; ‘gases de cemitério’ eram um aroma familiar. Na verdade, gases de corpos são relativamente inofensivos”, Jackson escreve em um email, mas o cheiro da morte era aterrorizador para muitos, de qualquer forma.

Considerando os horrores que você cheiraria em seus passeios diários por Londres, é compreensível que os vitorianos, cercados de doenças sem cura como tifoide, cólera e tuberculose, aceitariam as curas dos charlatães. Uma limpeza com a construção de esgotos, cemitérios (uma ideia tida pelos franceses de mover os corpos para o interior mais verde e pacífico para o descanso final, logo adotada pelos ingleses), banheiros públicos, lavanderias e água encanada ao invés de poços cavados ao lado de latrinas, todos reduziam o miasma. E, com o cheiro, as doenças se afastaram, dando às autoridades da Era Vitoriana a prova do que precisavam para continuar construindo o equipamento público, que eles continuaram fazendo lentamente e pelo que são lembrados como os inventores da “ciência do saneamento”.

“De acordo com a velha teoria, o mesmo miasma maléfico poderia se expressar em um indivíduo como doença nos pulmões e em outro como um mal no estômago, dependendo de sua constituição e circunstâncias.”

Todo esse saneamento inteligente foi baseado na ciência errada do miasma. As crenças de saúde de figuras influentes como Edwin Chadwick, que defendeu a ‘causa sanitária’ na década de 1840 e incessantemente defendia que ‘todo cheiro é doença’, o que levou a reais melhoras na saúde pública para os sortudos vitorianos.

“Era uma ideia atraente, não apenas por que as zonas pobres, onde as epidemias corriam soltas, fediam. A construção de um sistema unificado de esgoto em 1850 e 1870 certamente salvou Londres de mais epidemias de cólera e tifoide. Foi tudo feito baseado no ‘miasma’, mas, de qualquer forma, as consequências foram muito positivas”, disse Jackson.

A crença no miasma foi problemática em outros casos, no entanto. Por exemplo, não era apenas crença comum de que o miasma causasse doenças, mas que o tipo de doenças que eram produzidas tinha a ver com a sensibilidade moral e os maus hábitos de uma pessoa. Não seria bem a Era Vitoriana se não tivéssemos um pouco de culpabilização da vítima, não é mesmo?

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(Imagem: Robert Seymour Robert, 1798-1836 via The National Library of Medicine)

“De acordo com a velha teoria, o mesmo miasma maléfico poderia se expressar em um indivíduo como doença nos pulmões e em outro como um mal no estômago, dependendo de sua constituição e circunstâncias”, escreve Goodman. A ideia de que, de alguma forma, uma doença surge da nossa mente ou pode ser curada pensando positivamente persiste até hoje, apesar de ter sido provada errada.

De fato, uma impressionante semelhança entre a Era Vitoriana e os tempos modernos é que ideias incorretas sobre a saúde não morrem facilmente. “Mesmo quando descobrimos a verdade sobre os vetores de doenças, a verdade é que não houve uma ‘marcha do progresso’ linear durante a Era Vitoriana, e, mesmo depois, grandes descobertas e avanços científicos, como a descoberta por John Snow de que a cólera nascia na água, tiveram pouco impacto prático. Esgotos, em particular, foram feitos por causa do medo do ‘miasma’, não por causa da descoberta de John Snow”, disse Jackson.

Hoje, a ciência falsa geralmente significa algum tratamento ineficaz ou, pior, causa a morte. Mas, pelo menos no caso da Era Vitoriana, ela salvou vidas e abriu uma nova era de vida sanitária da qual a maioria de nós faz parte hoje em dia.

Geóloga em sua primeira carreira, Starre agora é uma escritora freelance de ciência, mas ela ainda coleta pedras onde quer que vá.