O cérebro humano é ainda mais incrível do que pensávamos, sugere um novo estudo de Israel. Os médicos dizem ter encontrado pessoas que podem sentir cheiros tão bem quanto qualquer outra pessoa, apesar de não terem a área principal do cérebro responsável pelo olfato.

Segundo os pesquisadores, que publicaram seu trabalho na quarta-feira (6) na Neuron, a descoberta foi um completo acidente. Eles estavam analisando exames cerebrais de jovens voluntárias canhotas em busca de outro estudo relacionado a cheiros quando encontraram algo incomum. Uma das voluntárias parecia não ter o bulbo olfativo, uma estrutura minúscula perto da parte inferior frontal do cérebro.

“A história da neurociência está cheia de observações importantes que foram feitas inicialmente em apenas uma pessoa”

O bulbo olfativo capta informações dos nervos receptores na cavidade nasal. Esses receptores captam moléculas de odor, como as que flutuam das barracas de comida na rua. O bulbo filtra e retransmite esses sinais para outras áreas do cérebro, que traduzem as informações e nos fazem perceber conscientemente um cheiro específico (incluindo sua importância emocional para nós). Sem o intermediário do bulbo olfativa, há muito tempo se supõe que as pessoas simplesmente não podem sentir o cheiro do mundo ao seu redor.

Mas, de acordo com o relato da voluntária, ela não tinha nenhum problema com o olfato. E eles logo encontraram exames de outra mulher sem bulbo olfativo, mas que aparentemente tinham um sentido normal de cheiro. Intrigados, eles voltaram-se para os dados do Human Connectome Project, um empreendimento com sede nos EUA que coleciona e estuda as ressonâncias magnéticas de voluntários saudáveis ​​desde 2009. De mais de 1.100 pessoas no projeto, a equipe encontrou mais três pessoas sem bulbos – todas elas mulheres e uma canhota.

Finalmente, a equipe procurou as duas voluntárias, que concordaram em passar por testes do cérebro e da capacidade de cheirar. Em vários experimentos, essas mulheres foram comparadas a voluntárias saudáveis, bem como a uma mulher que nasceu sem bulbo olfativo e quase sem olfato, uma condição chamada anosmia congênita. Os testes confirmaram que os cérebros dessas duas mulheres pareciam completamente normais, assim como o olfato geral em comparação com as mulheres da mesma faixa etária.

Exames cerebrais das mulheres com um bulbo olfativo ausente, mas com um olfato normal (canto superior direito e inferior direito), comparadas com um controle saudável (canto superior esquerdo) e uma mulher com um bulbo olfativo ausente e sem sentido do olfato (canto inferior esquerdo). Imagem: Weiss e outros (Neuron)

Os autores são cuidadosos em apontar que seus dados não podem explicar definitivamente por que exatamente essas mulheres ainda têm a capacidade de sentir cheiros. É possível, por exemplo, que elas possuam bulbos olfativos minúsculos, mas funcionais, que são pequenos demais para serem vistos em exames cerebrais. Mas o cenário mais provável, de acordo com os pesquisadores, é que os casos são um exemplo extremo e recentemente descoberto da capacidade do cérebro de se recompor para se manter saudável – também conhecido como plasticidade cerebral.

Embora a plasticidade do cérebro possa ser observada ao longo de nossas vidas, ela é tipicamente mais potente em nossa juventude. E nessas mulheres, eles teorizam, seus cérebros conseguiram de alguma forma substituir os conjuntos esféricos encontrados no bulbo que conectam nossos narizes ao resto do cérebro, chamados glomérulos.

“A interpretação mais simples de nossas descobertas é que essas mulheres nasceram sem um bulbo olfativo, mas, graças à extrema plasticidade do cérebro em desenvolvimento, elas desenvolveram um mapa alternativo de glomérulos em algum outro lugar do cérebro, não no bulbo olfativo”, disse Noam Sobel, autor do estudo e pesquisador de cérebros do Instituto de Ciências Weizmann, em Israel, em comunicado divulgado peo Weizmann. “Embora essa plasticidade seja incrível, ela não está fora do reino do que vimos no desenvolvimento humano”.

Por mais incrível que seja essa descoberta, ainda existem muitos mistérios a desvendar. Nos dados da população, cerca de 0,6% das mulheres e 4,25% das canhotas pareciam ter essa característica única. Mas outros estudos preferencialmente maiores terão que confirmar se é realmente com essa frequência que isso ocorre, e também por que há uma aparente conexão entre ser mulher e canhota para essa adaptação.

Também é importante confirmar e entender melhor como essa religação acontece. Nas experiências com o olfato, as percepções de cheiro das duas mulheres estavam muito mais próximas uma da outra do que as percepções de qualquer outro par. Isso pode sugerir que a religação ocorra de uma maneira muito precisa. E se descobrirmos as especificidades desse processo, pode ser possível ajudar as pessoas nascidas sem bulbo olfativo a aprender a sentir cheiros. Mas, por enquanto, vale a pena se maravilhar com o quão benéfica essa descoberta acabou sendo.

“A história da neurociência é cheia de observações importantes que foram feitas inicialmente em apenas uma pessoa”, escreveram os autores, provavelmente fazendo referência aos estudos de caso de Phineas GageH.M. e outros. Suas duas pacientes, chamadas NAB1 e NAB2, poderiam muito bem ingressar nessa lista algum dia.