Ciência

Cipós da ayahuasca: pesquisadoras brasileiras ampliam conhecimento da bebida milenar em estudo inédito

Pesquisadoras brasileiras estão conduzindo uma pesquisa abrangente que busca ampliar o conhecimento sobre a planta milenar usada no preparo da ayahuasca. Saiba mais
Imagem: Terpsichore/Wikimedia Commons/Reprodução

Em um esforço conjunto para descobrir mais sobre a ayahuasca, uma equipe liderada pelas pesquisadoras da Universidade de Brasília (UnB) Regina Célia Oliveira, doutora em Biologia Vegetal, e Julia Sonsin, doutora em Ciência Florestal, está conduzindo uma pesquisa abrangente que busca ampliar o conhecimento sobre a planta milenar.

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O foco principal da pesquisa é a revisão da classificação do cipó da Ayahuasca, conhecido como Banisteriopsis caapi. Em entrevista ao Giz Brasil, Regina Célia Oliveira destaca a importância desta iniciativa: “Por muito tempo, os botânicos consideravam o cipó da ayahuasca uma única espécie, enquanto as comunidades tradicionais reconhecem muitas variedades distintas. Essa distinção é crucial, e a taxonomia do cipó precisa ser revisitada.”

Júlia Sonsin acrescenta: “Estamos combinando o conhecimento tradicional com a ciência formal para obter uma visão abrangente. Conduzimos trabalhos de campo em comunidades ayahuasqueiras, coletando as amostras das plantas utilizadas. Essa abordagem multidisciplinar é fundamental para entendermos a diversidade desses cipós.”

Ayahuasca, também conhecida daime, é uma bebida enteógena produzida a partir da combinação da videira Banisteriopsis caapi com várias plantas, em particular a Psychotria viridis e a Diplopterys cabrerana.

A produção e o consumo da bebida são difundidos no mundo todo, em especial nos países ocidentais. A ayahuasca é, frequentemente, associada a rituais de diferentes grupos sociais e religiões, além de fazer parte da medicina tradicional dos povos da Amazônia.

Entenda a pesquisa

Para a pesquisa, foram considerados dois grupos, um grupo com cipós com nós inflados e não inflados (Imagens abaixo). As pesquisadoras reforçam que a distinção, que pode parecer óbvia para alguns mas não foi notada por muitos botânicos em seus herbários.

Imagens mostram a diferença dos cipós. A primeira foto mostra o Cipó Caupuri com nós inflados, já a segunda registra o Tucunacá, caracterizado pelo caule com lobos assimétricos, com estrutura que se assemelha a tranças. Imagens: Regina Célia de Oliveira/Reprodução.

O principal motivo é que as amostras de herbário geralmente são obtidas somente a partir do ápice dos ramos. Ao discutir os critérios de distinção, Júlia destaca: “As características como a cor das folhas, o arranjo das glândulas, a coloração da contra casca e a presença de nós inflados são fundamentais na identificação dos tipos de cipós. Essas nuances são reconhecidas pelas comunidades como elementos cruciais na produção de diferentes receitas de Ayahuasca, resultando inclusive em efeitos distintos.”

A pesquisa também aborda a importância de preservar a diversidade dos tipos de cipós para garantir o recurso genético vital para a ayahuasca.

A conservação é essencial para manter a vitalidade dessas espécies. Os cipós precisam trocar genes entre indivíduos geneticamente diferentes da mesma espécie para evitar a degeneração ou até mesmo a extinção.

Regina Célia Oliveira, pesquisadora

Questionadas sobre o diálogo com as comunidades tradicionais, Júlia Sonsin enfatiza: “Entramos em contato com pessoas em diferentes comunidades ayahuasqueiras. É vital entender e preservar não apenas as plantas, mas também os conhecimentos e práticas dessas comunidades. A colaboração é fundamental.”

Próximos passos na pesquisa da ayahuasca

Quanto aos próximos passos, Regina argumenta: “A pesquisa está em andamento, e temos outros pesquisadores e alunos trabalhando na temática. Ainda há muito a ser estudado. A urgência em revisar a classificação do cipó da ayahuasca é evidente, e estamos comprometidos em contribuir para esse entendimento.”

Diante da expansão global do consumo de ayahuasca, as pesquisadoras esperam que os estudos brasileiros amplifiquem os conhecimentos acadêmicos sobre a planta milenar. A busca pela preservação das espécies, do conhecimento, e das tradições está no cerne dessa jornada científica.

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Gabriel Andrade

Gabriel Andrade

Jornalista que cobre ciência, economia e tudo mais. Já passou por veículos como Poder360, Carta Capital e Yahoo.

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