Como destruir a Internet

Lembra quando o Anonymous ameaçou destruir a internet inteira? Nós rimos, e no final das contas era tudo só excesso de arrogância dos hackers. Mas isso nos fez pensar – alguém realmente poderia destruir a internet? Nós fizemos uma pesquisa, e adivinha só: Com bastante esforço, a coisa toda poderia ser destruída. Fisicamente. Completamente. Eis […]

Lembra quando o Anonymous ameaçou destruir a internet inteira? Nós rimos, e no final das contas era tudo só excesso de arrogância dos hackers. Mas isso nos fez pensar – alguém realmente poderia destruir a internet?

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Nós fizemos uma pesquisa, e adivinha só: Com bastante esforço, a coisa toda poderia ser destruída. Fisicamente. Completamente. Eis aqui como matar a internet.

Antes de destruirmos a melhor e mais vasta máquina da humanidade, vamos esclarecer uma coisa: não faça isso. Destruir o núcleo da infraestrutura da internet poderia ser o maior ato de terrorismo global na história e/ou uma declaração de guerra contra todas as nações soberanas que existem – sem falar nos perigos que você e outras pessoas iriam correr. Isso é apenas para refletir.

Então se prepare para uma jornada ao redor do mundo. Vamos descobrir como isso poderia ser feito. Saber exatamente o que precisaria ser feito, que fio cortar – porque a Internet sob ataque é uma ideia recorrente. O que a verdadeira derrota significaria? Como seria a ruína da internet? Onde isso iria acontecer? Partes do núcleo da internet já foram (digitalmente) atacadas antes – e não há motivos para acreditar que isso não vai acontecer de novo.

O primeiro passo nessa jornada é mental. Nós precisamos começar a parar de tratar a internet como se ela fosse um fantasma. Ela é feita de mais metal, plástico e fibras do que você pode imaginar – e está espalhada ao redor do mundo inteiro, uma máquina monstruosa que abraça o globo inteiro. Então nós procuramos as bases físicas da web, por terra e mar, para identificar exatamente o que você precisaria eliminar. Hipoteticamente. Acontece que a ameaça do Anonymous não é tão absurda – só a maneira que eles falaram sobre como fazer isso.  Você não pode destruir um sinal enquanto estiver usando-o; a destruição da internet requer violência analógica, não um ataque DDoS pesado.

Nós sempre pensamos em ameaças contra a internet como uma ciberguerra ou alguma outra abstração virtual sem sentido. Mas isso normalmente é bobagem. A enorme verdade invisível sobre a internet é que ela é extremamente forte. Não há um interruptor principal, nem botão de autodestruição, ou fio para ser cortado e gerar facilmente um blackout. A internet, por um misto de sorte caótica e planejamento brilhante, é redundante ao ponto de ser quase invencível. Como uma hidra de fibra óptica, você pode cortar grandes extensões dela, e ela irá se manter. Ela é esperta e quase autossustentável, capaz de reparar e redirecionar seus caminhos de um continente para outro, fazendo desvios enquanto passa. Isso acontece de tempos em tempos. Alan Mauldin, um especialista em análise de infraestrutura da internet da TeleGeography, cita alguns exemplos recentes:

Em fevereiro, dois dos três cabos servindo a África Oriental foram cortados no mar vermelho. Isso dificultou a conectividade para alguns clientes em alguns países da África Oriental, porém muitos foram espertos o suficiente para ter conexão em vários cabos em ambas as costas. Tem havido muitos casos de vários cabos danificados no Mediterrâneo, Mar Vermelho, e no Mar do sul da China nos últimos 5 ou 6 anos. O Tsunami que atingiu o Japão no ano passado danificou muitos cabos – ainda assim, a conectividade da internet do Japão foi pouco afetada devido a várias opções de restauração.

A internet: à prova de tsunamis.

Mas apesar de toda a sua durabilidade, a Internet não é imortal. Ela é forte porque foi feita para ser forte. E como ela foi construída da mesma maneira você construiria um monumento ou um banco no parque, ela pode ser destruída. Assim como qualquer outra coisa física no planeta. Nós pensamos nela como uma nuvem de cristal, uma inexorável força do cosmos que funciona sozinha e é tão suscetível à destruição quanto a gravidade. Mas vamos esclarecer uma coisa: Com algum esforço, você poderia destruir a internet como destruiria uma árvore se serrasse seu tronco de um lado a outro. A besta de mil cabeças pode ser decapitada completamente, não apenas atrapalhando ou interrompendo, mas derrotando-a. Você só precisa saber onde começar a cortar.

Corte os cabos

Esqueça conexões sem fio. A internet existe devido a centenas de milhares de quilômetros de cabos grossos e antiquados. Algumas centenas de linhas submarinas intercontinentais, atravessando o mundo, são as responsáveis para que os seus tweets apareçam em um monitor no Paquistão. Como mencionamos, os cabos são ligados para dar suporte uns para os outros – quando um falha, outro compensa o problema. Mas ei – e se a gente cortasse todos?

A internet é a rede das redes. O laptop na sua casa, o desktop no seu trabalho, uma fazenda de servidores em Moscou – Eles todos estão ligados por estas conexões de cabo. Elimine as conexões e as redes não poderão se comunicar através dos oceanos. A internet estaria instantaneamente prejudicada.

Eis aqui todos os cabos do mundo.

Cabos

Não acredite apenas na TeleGeography – eles estão agregando dados que são entregues voluntariamente. Sinta-se livre para questionar o FCC (Comissão Federal de Comunicação dos Estados Unidos), que obriga uma licença (disponível para o público) de cada cabo que chega ao território americano. Estes servidores, como muitas das entranhas vulneráveis da internet, são um “segredo aberto”, explica Andrew Blum, autor de Tubes: Uma jornada para o Centro da Internet. Eis aqui a última lista deles:

Lista de cabos

Os cabos, como qualquer coisa submersa, saem direto da água, muitas vezes ficando em uma praia como essa.

Eles algumas vezes estão disfarçados ou parcialmente enterrados. Mas outras eles estão apenas jogados na areia como uma prancha abandonada. “Eles supostamente eram para estar enterrados”, explica Blum. “Mas o oceano muitas vezes dá seu jeito”. Para as ocasiões onde o cabo ainda permanece abaixo da praia, você pode usar um rastreador industrial de linhas como este para achar o ponto certo. Cave e faça o trabalho.

Nós perguntamos para os malucos da Best Made, fabricantes de excelentes machados, o que eles recomendariam para cortar os cabos da internet e quanto esforço seria necessário. Naturalmente, eles recomendaram usar um machado:

Olhando para a composição do cabo e seu diâmetro, eu diria que precisaria de uma meia dúzia de golpes, talvez menos, considerando que eles fossem dados no lugar certo e que o cabo estivesse preso em uma superfície firme. A parte mais difícil do cabo provavelmente seria o revestimento de policarbonato, todo o resto iria sucumbir bem fácil ao machado.

Apesar da localização exata de muitos cabos e dos lugares onde eles entram na terra serem mantidos em segredo por corporações privadas, muitos não são – na verdade, eles são encontrados em praias populares e cidades movimentadas.

Eis aqui dois pontos de cabo que, de acordo com a TeleGeography, seriam os mais devastadores caso destruídos. Atingir um cabo como este só resultaria em lentidão e contratempos, não em aniquilação total. Sites pelo mundo ficariam imediatamente inacessíveis – e muitos outros ficariam lentos a ponto de ser inutilizáveis. A internet ainda funcionaria – caoticamente e muito lenta – mas isto é um bom começo.

Vamos tomar como exemplo o cabo que passa pela Mastic Beach, na mega zona residencial de Brookhaven em Long Island. Suas coordenadas estão online para o mundo ver.

Assim como os cabos na praia de Manahawkin, Nova Jersey.

E em Tuckerton, Nova Jersey.

Lugares como esses ligam o litoral leste da América do Norte com a Europa Ocidental, e servem como os pontos de infraestrutura mais densos e cruciais do mundo. Tire esses do caminho e você causou um dado grave às entranhas da internet. As finanças Globais agora acabaram, levando a um colapso financeiro mundial instantâneo – foi mal. O Skype estará quebrado, assim como qualquer outro meio de comunicação entre continentes através da internet. Você não pode mandar e-mails para seus amigos no exterior. Você não pode encomendar coisas de um site da Inglaterra. Os tweets do Oriente Médio estarão presos lá.

Os outros ataques mais devastadores seriam executados na seguinte ordem, usando a lista de cidades e praias abaixo:

Singapura
Egito (Tanto no Mediterrâneo quanto no Mar Vermelho)
Sudoeste do Reino Unido
Tóquio
Hong Kong
Sul da Flórida
Marselha
Sicília
Mumbai
Chennai

A internet não seria mais global – todo continente e ilha seria, bem, uma ilha. A melhor e mais básica parte da Internet é pegar dados de qualquer lugar do planeta em um segundo. Isso acabou.

Destrua os servidores raiz

O “Google.com” é apenas para facilitar. Digitar o nome do domínio na verdade se traduz em um identificador numérico obscuro, o endereço de IP: 74.135.228.37. E não tem como você vai lembrar-se de 74.125.228.37, junto com dezenas ou centenas de outros números similares para cada site que você visita todo dia. Isso é uma maneira de fazer com que redes de máquinas possam ser usadas por humanos fracos e mortais como nós.

Compare: “Ei, você deveria conhecer o Twitter.com!”
Com: “Ei, você deveria conhecer o 199.59.148.10!”
Acho que dá para entender o ponto.

Existem 13 servidores, indicados por uma única letra, com algumas centenas de backups, que são responsáveis por decodificar __________.com (ou .net, .org, etc) e transformar no endereço IP correspondente. Desative essas máquinas e o alfabeto não será mais parte da internet; se você quiser navegar pelo que restou dela, melhor que tenha um papel e uma caneta ou uma memória extremamente boa.

Mas como encontrar e destruir estes servidores? Assim como os cabos que os alimentam (ou alimentavam), os servidores também são um segredo aberto. Para que eles tenham alguma utilidade, eles têm que ser absolutamente transparentes – a web é inútil a menos que seja um lugar livre, uma orgia de interopabilidade. E a melhor maneira de se assegurar que todo mundo vai poder participar é tornar os detalhes dos servidores de raiz – e suas localizações – públicas. Isso só precisa de um mínimo de esforço.

Digamos que nós quiséssemos destruir os servidores “K”, operados por uma empresa chamada RIPE NCC. Vá para o website da empresa, e a partir daí é simples como pesquisar no Google Maps. Olha só, tem um server em Miami. Clique nele, – ele está localizado no complexo de dados do Ponto de Acesso de Rede das Américas (NAP of the Americas), o que uma simples busca no Google irá indicar que está localizado na 9th Street NE, 50, em Miami, Flórida. Você ou seu comparsa em Miami pode ir de ônibus para lá. Mas se você está indo destruir o lugar, prepare-se para a segurança – estes lugares são guardados como bunkers nazistas para garantir que ninguém entra a menos que tenha um ótimo motivo.

Os servidores M, operados pelo WIDE Project, ficam em Seul. O próprio site deles vai mostrar o caminho e aqui está uma imagem do Google Street View para facilitar.

A segurança tende a ser 24 horas, mas nem sempre é o caso – e é principalmente para evitar que estranhos entrem e apertem o botão errado. Destruir o prédio que abriga estes servidores seria o mesmo que destruir qualquer outro prédio que não contenha pedaços vitais do cérebro da internet.

Repita esse processo para qualquer outro servidor – você pode encontrar a lista aqui.

Destrua as centrais de dados

O que conseguimos fazer até agora? Com todos os cabos cortados, a internet está presa, dividida em um monte de fragmentos pequenos que não conseguem se comunicar uns com os outros. As mensagens não podem mais ser enviadas para o mundo inteiro. Diabos, o Japão está completamente isolado. Depois de demolir os servidores raiz, os endereços da web estão reduzidos a números código incompreensíveis. A destruição da internet está pronta para seu golpe de misericórdia: Explodir as caixas que unem o que sobrou.

Centrais de dados são prédios comuns cheios com servidores que hospedam os sites que nós navegamos, os e-mails que lemos, e o monte de fotos em baixa resolução do Facebook que você acumulou durante a faculdade. Eles são enormes estruturas, muitas vezes sem janelas, que não foram projetados para pessoas. Eles são casas para computadores, não humanos – eles normalmente são escuros a maior parte do tempo – para mantê-los resfriados e porque computadores não se importam de trabalhar com luzes desligadas. Mas eles são vitais para as pessoas que querem passear pela web, permitindo que o seu provedor se conecte com o resto da internet. Alguns desses centros em particular são mega-hubs, “trocas na internet pública”, bazares abertos com provedoras de todos os cantos do mundo convergindo em um andar de um edifício. Todas as linhas se ligando a um único ponto. Lembra daquele machadão? Isso aí.

O prédio no número 60 na Hudson Street em Nova Iorque, que pertence a uma empresa chamada TELX, é um destino global – é o que a Times Squase é para os turistas, uma Babilônia da internet:

No 9º andar da Hudson número 60, um prédio de 1400 metros quadrados conhecido como Meet-Me-Room é o ponto de convergência de múltiplas camadas de cabos de fibra óptica locais, nacionais e globais. Isso é onde cada servidor, armazenamento e equipamento de rede das operadoras ficam, assim como terminações ópticas, coaxiais ou de cobre permitem à operadora “unidades de colocação” para conectar-se à outras redes através de uma série de painéis de conexão. Este centro físico da internet, essencialmente um switch Ethernet gigante, é alimentado por uma usina de 10.000 Amp DC.

Destrua este andar, ou até mesmo o próprio prédio, e a conexão da região inteira irá começar a rastejar – o desempenho da internet no mundo inteiro levaria um golpe. Não apenas isso – websites seriam apagados. As empresas utilizam estes centros para terceirizar o armazenamento, o que significa que cada foto ou música que você já fez upload, por exemplo, poderia desaparecer uma vez que você começasse a destruir as fileiras de servidores. Se a sua provedora se conectasse em um desses entroncamentos, você poderia perder seu acesso à internet em casa – porque ela foi danificada na fonte.

Existem centros como este em Nova Iorque espalhados pelo planeta, e acabar com o maquinário dentro de cada um iria prejudicar seriamente a web e se espalhar em todas as direções.

Eis aqui a lista de alvos das super centrais de dados da Terra – o último golpe que você precisará desferir para romper o de sobrou da espinha dorsal da internet:

111 8th Avenue, Nova Iorque


1 Wilshire, Los Angeles


Telehouse, Londres


Telehouse, Paris


Global Switch, Londres


Global Switch, Paris


NAP of the Americas, Miami

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Equinix, Palo Alto

Com tudo isso destruído, a internet está com um pé na cova. Se você quiser garantir o enterro, o resto das centrais de dados menos importantes do planeta podem ser encontradas e mandadas para o inferno.

Eis aqui a lista.

Agora os dados estão completamente congelados. Ninguém pode ir para lugar nenhum, porque todas as ligações foram arruinadas. Tudo que restou da internet é a intranet do seu escritório ou o compartilhamento de arquivos da sua faculdade. Pedacinhos minúsculos. Existem redes, mas nenhuma delas está interligada.

E parabéns, agora você seria oficialmente o maior filho da puta do mundo.

Mas lembre-se, para fazer isso você teria que executar o ato de destruição mais complexo e devastador na história da humanidade. Se não completasse todos os passos, a internet ainda sobreviveria.

E é isso que torna a internet tão impossivelmente forte. Ninguém seria capaz de efetuar milhares de ataques ao redor do planeta de uma vez só, uma ação coordenada de destruição. A menos que você tivesse uma equipe de dezenas de milhares de pessoas para atacar ao mesmo tempo em todo lugar, os reparos seriam mais rápidos que a destruição – isto não é um trabalho para um lobo solitário. A menos que fosse um apocalipse termonuclear – que levaria a problemas bem maiores que o Facebook fora do ar – nós não conseguiríamos danificar tantas coisas que estão tão espalhadas. Nós construímos isso muito bem.


A ilustração do topo foi feita por Scott White, um ilustrador que mora em Herndon, Virginia. Você pode ver os trabalhos dele aqui e segui-lo no TumblrFacebook e Twitter.

Foto dos cabos por CBTO

Foto dos servidores por Clay Irving

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