Em 2011, qualquer pessoa poderia comprar drogas e recebê-las no conforto da própria casa graças à criação do Silk Road, o mercado negro online acobertado pela deep web. A maioria dos produtos oferecidos no site eram drogas, mas ele também oferecia outros “produtos”: armas, números de cartões de crédito roubados, assassinos de aluguel, entre outras ilegalidades. O sucesso e a vasta oferta de produtos nada convencionais chamou a atenção do FBI, que encerrou as atividades do site em outubro de 2013 — o legado dele, no entanto, levou à criação de outras lojas virtuais que oferecem os mesmos produtos e serviços.

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O fácil acesso (e conforto) às drogas que o Silk Road proporcionava trazia um porém: quão seguro é comprar essas drogas e como se poderia saber qual é a qualidade das drogas vendidas? O vendedor pode oferecê-la no anúncio com um alto nível de qualidade, mas quem garante que é verdade? Já vimos diversos casos de pessoas que compraram produtos comuns em grandes redes de varejo online e receberam tijolos e até mesmo dois pacotes de miojo, então qual a garantia de que os produtos ilegais de uma rede obscura das profundezas da deep web sejam de qualidade?

Foi dessa necessidade que surgiu o grupo Energy Control, que oferece de forma exclusiva e pioneira um serviço de verificação laboratorial de drogas adquiridas na deep web, para que seus usuários possam ter acesso a uma análise da qualidade das drogas que estão comprando. O artigo da Backchannel (traduzido pela Revista Poleiro) explica como funciona o laboratório.

Para testar o produto, usuários devem enviar amostras de no mínimo 10 miligramas da droga para Barcelona, onde fica o laboratório. O teste custa 50 euros por amostra e é pago com bitcoins, a mesma moeda usada nos canais da deep web. O resultado dos testes são enviados por email cerca de uma semana depois do laboratório receber as amostras. Eles já receberam amostras anônimas de pessoas da China, Austrália, Europa, Canadá e Estados Unidos.

Pureza

Cristina Gil Lladanosa, uma das funcionárias do laboratório que oferece os serviços do Energy Control, explica que as máquinas do local separam todas as substâncias da droga, expõem a real pureza do produto e quais as substâncias que não deveriam estar ali. Apesar de um trabalho aparentemente rotineiro, ela diz que os resultados são sempre uma surpresa, “Toda vez acontece algo diferente”, conta. Ela dá alguns exemplos: uma amostra de cocaína apresentou fenacetina na composição, um analgésico que é misturado à droga para aumentar o peso, por exemplo.

Até fevereiro deste ano, o laboratório já havia recebido 150 amostras da deep web, cerca de 4 a 8 amostras por semana. A maioria das drogas testadas eram cocaína e ecstasy, que contabilizam 70% das amostras recebidas, mas o laboratório já chegou a receber maconha sintética e até Viagra. O DoctorX — um dos médicos que trabalha no laboratório — afirma que é muito mais seguro comprar droga pela internet do que na rua. Ele explica: as amostras recebidas pelo laboratório chegar a atingir 80 a 90% de pureza — com casos de até 100%, um choque para o médico — enquanto as da rua, segundo o Relatório Mundial sobre Drogas de 2014 da ONU, registra que a cocaína encontrada nas ruas da Espanha mostram 40% de pureza.

DoctorX

O projeto foi idealizado pelo médico espanhol Fernando Caudevilla, apelidado de DoctorX devido aos seus inúmeros estudos e artigos sobre a cultura do ecstasy. Participante dos fóruns do Silk Road, ele oferecia aconselhamento profissional em tópicos sobre o uso de drogas e ficou conhecido por suas análises sem julgamentos, que visavam a saúde dos usuários. “Esse aconselhamento [virtual] não pode substituir uma avaliação médica completa cara-a-cara, mas eu sei o quão difícil pode ser conversar francamente sobre essas coisas”, diz. O tópico introdutório do DoctorX recebeu 50.000 visitas e 300 questões.

Da experiência nos fóruns do Energy Control, Caudevilla expandiu o Energy Control — que já oferecia serviços de redução de danos e testes de drogas em festivais e boates desde 2001 — para o âmbito internacional. A ideia é identificar quem são os vendedores das drogas de melhor qualidade, algo parecido com o que já é feito no Mercado Livre ou no Ebay, por exemplo, onde os vendedores são avaliados em aspectos de entrega e qualidade do produto fornecido.

O Energy Control serve para averiguar a real pureza dos produtos, além de preservar a saúde dos usuários, já que outros químicos, como levamisol, usada para combater vermes animais, é encontrada na composição de algumas amostras de cocaína que o laboratório recebeu, e o seu consumo pode desencadear efeitos colaterais gravíssimos. Por mais arriscado e perigosos que os sites da deep web possam ser, é interessante conhecer que existem ali pessoas preocupadas no bem estar, na saúde e nos riscos apresentados aos usuários destes canais, e sem julgamento. Além disso, é um caso de auto-regulação dentro de um mercado ilegal que é, no mínimo, interessante. Leia a história completa na [Revista Poleiro via Backchannel]

Foto de capa: mattza/CC