Cirurgiões alegam ter feito transplante usando um coração “morto”. Será que isso poderá eliminar o déficit de doadores do órgão?

Em outubro de 2014, diversas manchetes noticiaram que um coração havia sido ressuscitado depois de parar de bater, antes de ser transplantado em um paciente. Cientistas na Austrália contam a história de como eles transplantaram o coração “morto”. Poderia essa ser a resposta para a escassez de doadores de coração? Oscar Howard ‘Bud’ Frazier e o colega Dr. William ‘Billy’ Cohn, do Instituto do Coração do Texas, acreditam que não.

Uma vez que um coração para de bater, diz Cohn, existe um pequeno período de tempo para removê-lo do corpo e prepará-lo para transporte e transplante antes dele se deteriorar e ser inutilizado — e a única chance de tudo ocorrer dentro do tempo certo é em uma sala de operações. É extremamente improvável que alguém que morra fora do hospital esteja apto a providenciar um coração para transplante, devido aos atrasos envolvidos no processo.

“Isso significa que você pode pegar um cara morto… cujo coração parou de bater, e ressuscitar e usar este órgão?”, diz Cohn. “Sim, você pode abrir o peito dele e pegar o coração em até 3 minutos. Este paciente [dos pesquisadores australianos] estava na sala de operações com o peito aberto, com pessoas ao lado dele esperando que ele morresse”.

Corações com batimento são normalmente retirados de pessoas com morte cerebral e mantidos em gelo por algumas horas antes de serem transplantados em pacientes vivos. Eles são mantidos em gelo apenas se for necessário transportá-los (o que geralmente é). Quanto mais rápido um coração puder ser transplantado, melhor.

A lei que definiu “morte cerebral” nos EUA só foi aprovada em 1981. Na Determinação Uniforme do Ato de Morte, a morte cerebral é descrita da seguinte forma: se o cérebro foi irreversivelmente destruído e o paciente pode apenas sobreviver com o auxílio de máquinas, ou mesmo que o tronco cerebral da pessoa esteja ativo (com batimento cardíaco e respiração sem o auxílio de aparelhos), se o telencéfalo estiver destruído, esta pessoa está morta.

No Reino Unido, desde 1995, uma pessoa é declarada morta se o tronco cerebral não produz mais nenhuma atividade. No Brasil, a resolução CFM nº 1.480 de 1997 determina morte cerebral quando as funções cerebrais são perdidas de forma irreversível.

A definição de “morte” difere entre países, como no Paquistão e Romênia; lá, se o cérebro de alguém está irreversivelmente morto e não é apresentada nenhuma atividade cerebral ou fluxo sanguíneo no cérebro, mas o coração continua a bater, estas pessoas são classificadas como vivas. Transplantes de coração não são feitos nestas partes do mundo.

Apesar de o coração ressuscitado ter estampado a manchete de mídias do mundo todo, é improvável que o método aumente o número de doadores de coração. A procura por transplantes de coração excede a oferta por 2.000 coração por ano, mas como Cohn diz, “não existem 2.000 pessoas que morrem com o peito aberto em uma sala de operações”.

“Caso você realmente sofra uma parada cardíaca e o seu coração pare quando você estiver em casa, e você chame uma ambulância — até eles chegarem a você, o coração já não terá mais uso”, ele explica. “Na verdade, quando um coração para e não recebe oxigênio, coisas irreversíveis começam a acontecer. Nós tivemos pacientes que receberam massagem cardíaca por 35 a 40 minutos e voltaram à vida, pois a massagem mantém o fluxo do sangue e de oxigênio no coração. Mas se você está largado, morto, sem a circulação de sangue ou oxigênio, depois de cinco ou dez minutos, é difícil ter um coração utilizável”.

Não existem corações biológicos o suficiente, e não parece que isso vai mudar tão cedo. É por isso que cientistas por todo o mundo querem tanto construir um dispositivo que possa ser retirado de uma estante e costurado em alguém: um coração completamente artificial.


Este texto foi publicado originalmente no Mosaic e é republicado aqui sob a licença Creative Commons.

Foto de capa: mallix/Flickr