Quando Cyberpunk 2077 foi lançado em dezembro do ano passado, todos os olhos estavam no que eu gosto de chamar de “o joguinho que não tinha nada”. O tão esperado mergulho da CD Projekt Red no gênero cyberpunk estava repleto de bugs, falhas e relatórios de condições deploráveis de trabalho da equipe de desenvolvimento. Seis meses depois, foram lançados patches suficientes para tornar o jogo (principal) jogável. Mas isso foi suficiente?

Decidi finalmente me aventurar no Cyberpunk 2077, depois de esperar vários meses para que o jogo fosse refinado o suficiente. Ainda estou no meio da minha primeira jogada, mas, no geral, estou mais satisfeita do que pensei que estaria. Na trama, encarnamos na pele de “V”, um(a) mercenário(a) no mundo corporativo de Night City. É uma distopia imunda e sem barreiras onde a estética americana e japonesa se entrelaçaram, tornando-se uma “San Fransokyo” sombria e suja. O(a) protagonista é personalizável em aparência, cibernética e origem (eu escolhi a história de fundo corporativa), embora a aparência não importe muito porque o videogame é em primeira pessoa. Eu joguei como uma personagem com apresentação feminina, então usarei os pronomes ela/dela daqui em diante.

Nota: a partir dos próximos parágrafos haverá pequenos spoilers do enredo principal. Se você não quer saber de nada, leia por sua conta e risco. Mesmo assim, vale a pena jogar, especialmente porque  o título está mais barato do que nunca. A edição de PS4, que é de longe a mais bugada, tem descontos em muitas lojas. No Brasil, a versão física padrão pode ser encontrada por um preço médio de R$ 69,90. Recentemente, ele também voltou à Playstation Store, mas com o valor original de R$ 249,50. Eu não me importo com bugs ocasionais, então eu paguei pela versão mais barata.

Atenção: os próximos parágrafos contém spoilers da história principal!


Depois de fazer um assalto e testemunhar um assassinato, V pousa bem no meio de uma conspiração massiva envolvendo o chefe da Corporação Arakasa. Ela acaba fugindo dos capangas da empresa enquanto trabalha com um deles para expor a corrupção de Arasaka. Ela finalmente se encontra com um convidado indesejado compartilhando seu cérebro: o terrorista Johnny Silverhand, interpretado por Keanu Reeves. Ele é um fantasma na máquina, um homem morto virtual preso dentro de sua cabeça — e que eventualmente destruirá sua mente, a menos que eles descubram como removê-lo juntos, então eles se tornam uma dupla divertida e ao mesmo tempo frustrante. É ótimo vê-lo aparecer e ficar esperto em tudo o que V está fazendo; a interação entre eles é legal de acompanhar, mas também pode parecer que, a partir desse ponto, o jogo não é mais sobre você. É o Keanu Reeves Show. O que, quero dizer, OK, ele é ótimo. Mas ele não é V. Ele não sou eu.

O enredo principal parece familiar, mas é interessante o suficiente para te prender. V é uma mercenária que tenta remover um vírus digital que a está matando e faz isso se unindo a diferentes facções (e NPCs capazes de romance) que entregam uma peça do quebra-cabeça do “conserte-me”. No processo, ela descobre a verdade sobre o trabalho de Arasaka na preservação da consciência digital, algo que eles estão empregando para “ajudar” as pessoas com a Relíquia, ao mesmo tempo que as controla por meio de seu nome mais preciso: Soulkiller (ou “Psicófago”, no português). Há algumas coisas com inteligência artificial, mas não vou entrar muito nesse assunto porque fica complicado.

Captura de tela: Beth Elderkin/CD Projekt Red

Várias missões no jogo parecem ecos de outras histórias, embora provavelmente não tenha sido algo intencional da equipe de desenvolvimento. O bioengenheiro que você procura na selva me lembra da missão “The Glowing Sea”, de Fallout 4. A “Dollhouse” sexual cheia de humanos, cujas mentes são programáveis, ​​é bem… Dollhouse (a série de Joss Whedon). E não vamos esquecer como a maioria das facetas do gênero cyberpunk se deve muito a animes clássicos (como Akira) e Blade Runner. Nenhuma dessas coisas torna a experiência ruim; J.R.R. Tolkien carrega uma grande presença na fantasia moderna, incluindo na série The Witcher. Mas se você está procurando uma narrativa original, não a encontrará aqui. Eu hesitaria em chamar isso de pura ficção científica: não é especulativo de um mundo que poderia ser, pelo menos não mais. Eu diria que isso é mais uma peça retrofuturística, uma homenagem ao melhor da ficção científica dos anos 1980.

O destaque de Cyberpunk 2077 são os pequenos detalhes. Night City é linda, pelo menos quando não tem bugs. São vários arranha-céus, becos assustadores, telas digitais sobrepostas e transeuntes usando todos os tipos de acessórios cibernéticos. Muitas vezes me peguei evitando viajar rapidamente de um ponto para outro porque não queria perder nada. Também aprecio um videogame com missões sem combate, especialmente jogos de ficção científica, dado o quanto eles dependem do uso de armas de fogo. É por isso que gosto de jogar Detroit: Become Human, mais até do que o game merece, já que não é lá essas coisas.

Uma das coisas que não gostava em Watch Dogs: Legion era como todas as missões eram iguais: falar com uma pessoa, atirar em algumas pessoas, “hackear todas as coisas”. Cyberpunk 2077 dá aos jogadores ampla oportunidade de interagir com os personagens e o mundo em que eles vivem de maneiras que não envolvem tiroteios. A maioria das missões tem muitas opções de furtividade, e várias deles podem ser realizadas sem nenhuma luta. Além disso, existem muitas missões principais e secundárias em que é só você e as pessoas. Sem luta. Sem fugir. Encontrar um contato nas docas e conversar. Ajudar um ex-policial. Investigar a cena de um crime usando a memória virtual de alguém. Apenas isso.

Uma das missões que realmente se destacou para mim aconteceu bem no início do jogo. V é convidada a comparecer ao funeral de um amigo que foi morto durante um roubo fracassado. Ela passa o tempo procurando o item certo para colocar em uma espécie de memorial e, simultaneamente a isso, ela vasculha sua garagem e relembra algumas memórias, enquanto trabalha para fazer as pazes entre a mãe e a namorada do falecido. Ela então tem a opção de fazer um discurso, que você, como jogador, personaliza dependendo de como você escolhe se lembrar dele, ou então ela vai ao bar para tomar uns drinks em sua homenagem. Não foi tão emocionante quanto a festa na DLC “Citadel”, em Mass Effect 3, ou o epílogo em The Witcher 3: Wild Hunt. Mas ainda assim foi um momento para ser apreciado. Como jogadora, gosto de coisas assim. Isso não só me dá uma chance de respirar, mas se encaixa melhor no gênero como um todo. Cyberpunk não é apenas ficção científica — é um filme noir.

Cara, como é que você está comendo isso? Captura de tela: Beth Elderkin/CD Projekt Red

Estou gostando do jogo? Sim. Mas seria hipocrisia da minha parte se não dissesse que é impossível separar a arte do artista — ou seja, a empresa de jogos CD Projekt Red e o produto bagunçado que eles produziram. Mesmo com meses de patches e correções de bugs, ainda há muitos erros. Os exemplos incluem: arte faltando em outdoors, renderização atrasada em edifícios e personagens, designs de personagens se repetindo nos mesmos locais, carros ficando presos o tempo todo, enfim. Uma tonelada de problemas. Meu bug favorito é quando eu tomo um gole de álcool para V e ela fica bêbada (com visão embaçada e inconstante) até que eu pare e recarregue o jogo. Talvez seja um paralelo com a vida real.

Outra coisa que me incomoda é que o personagem não pode ter a aparência modificada depois da tela inicial de criação — algo que, ao meu ver, seria muito simples de se fazer, dado o escopo de tamanho de Cyberpunk 2077. Sem contar no fato de que muitas falas beiram o absurdo (para não dizer criminoso), com expressões racistas, machistas e transfóbicas.

Também não vamos esquecer os meses de aperto e outras condições de trabalho terríveis que os funcionários se submeteram na CD Projekt Red, muitas das quais foram relatadas pelos nossos amigos do Kotaku. Não menciono essas coisas para envergonhar as pessoas por jogarem Cyberpunk 2077. Afinal, eu mesma estou jogando atualmente. Eu trago esses casos à tona porque é importante entender toda a história por trás da mídia que consumimos e destacar o que funciona e o que não pode ser tolerado em hipótese alguma.

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Acabei de entrar no terceiro ato de Cyberpunk 2077, o que significa que provavelmente estou me preparando para o meu momento de “cinco dias até a aposentadoria”. E mesmo que eu já tenha escrito isso tudo, vou continuar jogando. Não apenas para ver o que acontece, mas também porque é um mundo no qual estou realmente me divertindo. Se você gostaria de se ver no mundo de Blade Runner, Cowboy Bebop, Ergo Proxy ou Ghost in the Shell (não a versão com Scarlett Johansson), então Cyberpunk 2077 pode ser uma das melhores coisas que existem. Não é perfeito, e talvez algo mais apareça algum dia que resolva as muitas falhas do jogo. Mas, por agora, é uma opção divertida. Eu gosto de colocar em V alguns óculos escuros idiotas, pular na motocicleta do meu amigo e sair para assistir o pôr do sol. É bom, pelo menos até bater em uma parede invisível porque ela ainda não foi renderizada.