Se há uma reclamação muito mais comum entre usuários de Android do que de outras plataformas, é a demora para que as atualizações de software cheguem em seus aparelhos. Isso se elas chegarem um dia. É especialmente difícil para entusiastas de tecnologia que leem sobre as vantagens da atualização, mas não podem usá-las em seus dispositivos por seis meses. Mesmo novos dispositivos às vezes não acompanham a versão mais recente do Android.

Isso acontece há anos. Então o que diabos acontece? Por que o problema não foi consertado? E de quem é a culpa? Perguntamos a fabricantes, operadoras e ao Google em busca de respostas. E encontramos uma grande confusão.

O que acontece em uma atualização?

Quando o Google lança uma nova versão do software do Android acontecem, essencialmente, três passos que devem ser tomados antes da atualização chegar ao seu telefone. Primeiro, fabricantes de chips precisam criar novos “ganchos”, ou códigos que permitem que o sistema operacional se comunique (e controle) os componentes do hardware. Como existem diferentes fabricantes de processadores no ecossistema de dispositivos de Android (Qualcomm, Texas Instruments, Nvidia e Samsung, entre outros), e cada empresa cria diferentes chips (a Qualcomm, por exemplo, tem o Snapdragon S3, S4, S4 Pro e outros), cada uma leva um tempo diferente para desenvolvimento. Normalmente, no entanto, fabricantes de chips conseguem entregar os códigos em um ou dois meses.

Então o software é levado para os fabricantes de hardware. Como cada dispositivo é desenvolvido com diferentes componentes, o novo software precisa ser adaptado para cada smartphone ou tablet. Em outras palavras, a Samsung não pode simplesmente aplicar a sua interface TouchWiz no Jelly Bean e então liberar para todos os seus dispositivos. Além disso, cada operadora tem sua própria lista de exigências de softwares. Isso pode incluir funcionalidades básicas, assim como apps específicos de operadoras (os chamados ‘bloatwares’). Isso sem contar qualquer customização que as fabricantes fazem nas suas próprias interfaces. De acordo com Nick DiCarlo, da Samsung, são necessárias entre seis e oito semanas, em média, para a empresa preparar a atualização do sistema que chega do Google para enviá-la para operadoras. Pequenas correções de bugs são mais rápidas. Atualizações maiores podem demorar ainda mais.

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As interfaces de fabricantes (“skins”) são normalmente consideradas as principais culpadas, mais do que qualquer outra coisa, pela demora nas atualizações, e é fácil entender o motivo. Afinal, elas são bem visíveis, e parecem ser a única mudança em relação a um smartphone Nexus, que normalmente é lançado com a versão mais recente do Android. Mas muito do trabalho está em adaptar o software aos componentes de hardware. “Não é simples assim, não é que se não fizéssemos a customização seria só baixar a ROM do Google. Isso não funcionaria”, diz Drew Bamford, da HTC. “Então, mesmo que não mudássemos nada, não tenho certeza de que o processo seria muito mais rápido, para ser sincero.”

Se não são as skins, o que causa o atraso? Não olhe para as fabricantes.

A grande barreira

Bem vindo ao maravilhoso mundo dos testes de operadoras. As telecom precisam não apenas testar todo aparelho que planejam vender, mas também todas as atualizações de software em todos os aparelhos que já estão vendendo. Em outras palavras, precisam ter certeza de que os smartphones funcionarão em sua rede como anunciam. O quão difícil é isso? Assustadoramente difícil.

“Eles têm recursos, pessoas, tempo e equipamentos limitados”, diz DiCarlo, da Samsung. “O âmbito dos testes para eles é amplo, com as redes mais complexas com CDMA, GSM, LTE, bandas múltiplas, entrando no VoLTE ano que vem, diferentes regiões da rede com diferentes provedores, então eles precisam testar em todas as regiões. O teste de rede é extraordinariamente complexo.”

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Cada operadora tem uma equipe de validação. Eles fazem tudo, de testes de hardware a testes de benchmark e métricas de usabilidade. Eles colocam o software em cenários automatizados para ver se encontram lentidão em alguma coisa. Quando finalmente recebem um TA (Aceitação Técnica), precisam ter certeza de que mantém os próprios padrões. “Nós tentamos fazer planos de capacitação”, diz Jason Young, da T-Mobile. “Olhamos para frente e definimos datas de testes para dispositivos com 6 a 12 meses de antecedência. Então trabalhamos retroativamente a partir daí”. Quando querem antecipar muitas atualizações de dispositivos próximas uma das outras eles perguntam: “Qual dispositivo é mais importante para nós levarmos ao mercado?”. Esta priorização é um assunto delicado. De acordo com DiCarlo:

“Se você é uma operadora e oferece 30 a 40 aparelhos de uma vez – e do ponto de vista deles estão dando suporte a uma centenas de telefones, já que estamos falando de contratos de dois anos ao longo de muitos anos, certo? – eles querem gastar tempo testando a belezinha mais recente que chega no começo do próximo trimestre, ou uma atualização de sistema para um aparelho de dois anos atrás?”

Isso é básico. As operadoras, apesar de tudo, estão no negócio de vender novos dispositivos para manter usuários presos a seus serviços. Para os dispositivos vendidos, faz sentido que foquem nos mais populares em primeiro para deixar mais pessoas felizes com menos esforço. É economia simples. Então quanto tempo isso leva?

“Posso dizer para você que quando lançamos novos produtos para as operadoras, nós testamos em nossos laboratórios por seis meses antes de oferecê-las”, diz Bamford, da HTC. “Pode demorar muito tempo.” Young, da T-Mobile, confirmou que normalmente três a seis meses é o tempo que leva entre eles receberem o novo software e o disponibilizarem. Uma simples soma, então, e você tem pelo menos nove meses até um novo software chegar ao seus dispositivo — isso se fabricantes e operadoras concordarem que vale a pena usar tempo e recursos para atualizá-lo.

Mas a Apple é bem mais rápida!

Esta é uma das grandes ilusões da tecnologia. A Apple anuncia a versão mais recente do iOS e pronto! Você pode baixá-la dentro de poucos dias. Como a Apple faz para evitar os testes exaustivos que todo mundo precisa passar? Ela não evita. Ela precisa passar pelos mesmos passos que fabricantes de Android; a única diferença é que ela faz isso antes de anunciar a atualização.

Ryan Sullivan, da Sprint, explica:

“Não acho que a Apple é necessariamente mais rápida, ela só parece mais rápida porque quando anuncia a atualização, já disponibiliza-a. Muito disso acontece porque eles controlam a plataforma, mas eles têm o mesmo grupo de pessoas trabalhando continuamente na integração da rede para suas 250 operadoras ao redor do mundo. Então, o Google está anunciando o software quando ele está pronto no nível de plataforma apenas, e então permite fabricantes acessarem para fazer a integração de rede. Parece que o processo do Google e do Android é muito maior. Não é. O Google apenas é responsável por metade, e então fabricantes e operadoras fazem o resto do trabalho para ele funcionar em uma rede… eu acho que o ciclo geral de início e fim é relativamente similar entre iOS e Android, a diferença está no ponto em que a atualização é anunciada.”

A Apple tem controle aqui não só por criar o sistema operacional, como também por fazer o hardware. Quanto mais estreito o portfólio de componentes usados, mais fácil adaptar o OS para o hardware existente (e tudo isso é feito internamente). É por isso também que os dispositivos Nexus são os primeiros da fila; o Google trabalha bem perto das suas parceiras para disponibilizar a nova versão do Android, e então trabalha com operadoras para garantir que tudo seja testado e esteja pronto na hora do anúncio. Isso funciona apenas no lançamento, no entanto; dispositivos Nexus mais antigos precisam passar por certificação de operadoras assim como qualquer outra coisa quando uma atualização é lançada.

O bicho-papão

Um monte de teóricos da conspiração chegaram à conclusão de que fabricantes e operadoras deliberadamente atrasam atualizações de softwares para dispositivos antigos para vender mais novos. Claro que nenhuma pessoa admitiu isso, apesar da nossa insistência. Mas o que acontece não é muito diferente.

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Novamente, é tudo questão de priorizar recursos. As fabricantes têm tantos funcionários que precisam decidir onde é melhor usá-los. Se definirem que eles trabalharão com a atualização de um hardware antigo e isso fizer eles ficarem bem na fita, eles farão isso, mas é claro que a prioridade é dada a novos aparelhos – os que estão para serem lançados, ou que foram lançados recentemente e onde milhões de dólares estão sendo gastos com propaganda. E como o teste de rede é exaustivo, claro que as operadoras precisam priorizar também, e diferentes operadoras priorizarão de diferentes formas, dependendo da linha de dispositivos oferecidos e o que eles têm para ser lançado.

De acordo com Punit Soni, da Motorola: “Algumas operadoras dizem ‘Esta atualização é realmente importante para nós, então assim que você enviá-la para nós colocaremos em laboratórios e gastaremos todos os nossos recursos nela’. Outras dizem ‘Este é o terceiro ou quarto na nossa lista, então vamos esperar um pouco antes de começar os testes.'”

Como fazer para melhorar?

Existem duas formas de fazer a situação melhorar. No lado dos negócios, fabricantes podem diminuir o número de dispositivos lançados. Parece loucura, mas estamos vendo isso acontecer com a Motorola e HTC. O mercado está inundado de aparelhos com Android que é impossível para consumidores entenderem o que está acontecendo. Ao consolidar o perfil de dispositivos, a Motorola e a HTC conseguem focar em telefones que importam. Então, em teoria, já que eles têm menos aparelhos, os recursos não vão ser tão repartidos quando trabalharem com as atualizações. Menos aparelhos para operadoras testarem ajudaria a agilizar as coisas, também, apesar de que sempre existirão as prioridades, o que vai continuar frustrando usuários.

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Os consumidores também têm alguma força. Hoje, quase todos os aparelhos do mercado estão habilitados a receber root. Como recentemente destacamos, uma das melhores razões para fazer root no seu Android é que você pode sempre baixar as atualizações mais recentes meses antes das operadoras disponibilizarem. Agora, existem alguns riscos envolvidos, já que você coloca em seu aparelho um software que não está totalmente pronto. O melhor que você pode fazer é conhecer suas fontes e ler análises para a versão que está colocando (e ter certeza que foi feita para o seu smartphone e operadora). Dito isso, é uma ótima forma de se livrar da bagunça burocrática que é o processo de atualização oficial do Android.

Caso contrário, por melhor que o Key Lime Pie possa parecer quando for anunciado em maio, são grandes as chances de você ter que esperar um bom tempo pelo seu pedaço.

Crédito da imagem em destaque: Shutterstock/gui jun peng