Embora tenham sido construídas cerca de cinco mil anos atrás, as Grandes Pirâmides do Egito ainda estão cheias de segredos. Usando uma técnica que aproveita a energia dos raios cósmicos, cientistas confirmaram a presença de um grande espaço vazio dentro de Khufu – um vazio que está sinalizando a presença de uma possível câmara escondida.

É tentador pensar que todas as grandes descobertas arqueológicas do antigo Egito já tenham sido feitas, mas uma nova pesquisa publicada na revista Nature mostra que ainda há muito para descobrirmos.

Uma investigação sobre a estrutura interna da pirâmide de Khufu, a maior em Gizé, revelou a presença de um grande e inacessível “vazio” dentro da estrutura. Os pesquisadores que conduziram o estudo, Mehdi Tayoubi, do Instituto HIP, na França, e Kunihiro Morishima, da Universidade de Nagoya, no Japão, não chegam a dizer que a cavidade seja uma câmara escondida, mas estão razoavelmente convencidos de que a característica interna é uma escolha arquitetônica deliberada da pirâmide. Quanto ao que está dentro, isso é uma incógnita, mas a presença de artefatos e itens funerários não está fora de questão, de acordo com os egiptólogos.

Seção transversal da Grande Pirâmide mostrando a localização do vazio. Esta interpretação a mostra em uma posição horizontal, mas os pesquisadores dizem que também pode estar inclinada, com a ponta para baixo, em direção à Face Corredor Norte. Poderia um túnel conectar os dois vazios escondidos? (Imagem: Missão ScanPyramids)

A descoberta foi possível através do improvável cruzamento de arqueologia e física de partículas. Ao fazer medições meticulosas de múons –partículas elementares que caem na Terra a partir do espaço profundo e são capazes de viajar através de objetos sólidos –, os pesquisadores foram capazes de caracterizar as densidades dentro da pirâmide, revelando a presença de um espaço vazio que mede pelo menos 30 metros de comprimento.

As estruturas internas

A pirâmide de Khufu ainda ter uma câmara à espera de ser encontrada é algo dentro do reino da possibilidade.

Essa enorme estrutura foi construída no Planalto de Gizé durante a quarta dinastia egípcia (2613-2494 AC) pelo faraó Khufu (por vezes referido como Quéops), que reinou de 2509 a 2483 AC. A pirâmide inicialmente media 146 metros de altura e foi a estrutura mais alta do mundo por mais de 3.800 anos.

Há três espaços conhecidos dentro do monumento: a Câmara do Rei, a Câmara da rainha, e um quarto inacabado cortado no alicerce sobre o qual a pirâmide foi construída. Há também a Grande Galeria, uma estrutura de corredor inclinado medindo 8,6 metros de altura, 46,7 metros de comprimento e cerca de dois metros de largura. A entrada original que conduz a essas estruturas internas, conhecida como o “corredor descendente”, situa-se na face norte, mas, hoje em dia, os turistas estão autorizados a entrar no pirâmide através de um túnel atribuído ao califa al-Mamum, por volta de 820 DC.

Um olhar dentro da Grande Galeria. O vazio situa-se acima desta estrutura espetacular e é aproximadamente do mesmo tamanho e forma. (Imagem: ScanPyramids Mission)

Os arqueólogos não têm os planos originais para a pirâmide de Khufu, e não há consenso sobre como a estrutura foi criada ou que recursos ocultos podem ainda estar lá dentro. Os documentos conhecidos, escritos em papiros, apenas descrevem a logística da construção, como, por exemplo, como as pedras foram transportadas (curiosidade: a Grande Pirâmide contém um número estimado de 2,3 milhões de blocos).

Encontrando um novo caminho com raios cósmicos

Detectar câmaras ou corredores escondidos não é fácil para os arqueólogos, que não podem danificar estruturas antigas de jeito nenhum. O Conselho Supremo de Antiguidades do Egito é muito rigoroso sobre o que pode e o que não pode ser feito com esses monumentos históricos, fazendo com que os cientistas inventem formas inovadoras de explorar as pirâmides.

Ainda na década de 1960, o arqueólogo Luis Alvarez veio com a ideia de usar múons – um tipo de partícula elementar que é capaz de penetrar materiais densos – para olhar dentro da pirâmide de Quéfren (a segunda maior das Pirâmides de Gizé). Infelizmente, sua equipe não tinha o conhecimento tecnológico e científico para fazer isso, mas a ideia de Alvarez provou o seu valor. Hoje, a técnica, conhecida como muografia, tem sido usada por arqueólogos para analisar estruturas romanas e pirâmides mexicanas e por geólogos para explorar recursos como vulcões. A muografia também tem sido utilizada para avaliar os danos na usina nuclear de Fukushima e pelos militares dos Estados Unidos para encontrar cavernas escondidas e túneis no Afeganistão.

Em termos da física envolvida, partículas múon originam a partir das interações de raios cósmicos com os átomos da atmosfera superior. Eles chovem até a Terra quase na velocidade da luz (eles são inofensivos aos seres humanos e outras formas de vida animal), e pesquisadores conseguem visualizar a presença e trajetória dessas partículas usando vários esquemas de detecção de múons. Múons são apenas parcialmente absorvidos por objetos sólidos e podem, assim, penetrar na pedra. Porém, mapeando as posições e trajetórias dessas partículas, os pesquisadores podem visualizar a composição interna de sólidos, revelando coisas como formações rochosas ou cavidades de ar livre.

“Similar aos raios-X que conseguem penetrar o corpo e permitem imagens dos ossos, essas partículas elementares podem manter uma trajetória quase linear ao atravessar centenas de metros de pedra antes de decaírem ou serem absorvidas”, escrevem os pesquisadores no novo estudo.

No ano passado, o Projeto ScanPyramids – mesma equipe de pesquisadores envolvidos nesta última muografia – usou a muografia e a termografia infravermelha (que mede a temperatura) para descobrir um corredor diretamente acima da entrada original da Grande Pirâmide. Usando a mesma ideia, os pesquisadores descobriram agora o grande vazio localizado diretamente acima da Grande Galeria.

Para validar a presença do vazio, os pesquisadores recrutaram especialistas de três instituições diferentes. Cada equipe empregou sua própria técnica única de detecção de múon, colocando seus scanners tanto dentro quanto fora da pirâmide.

Um pesquisador da Universidade de Nagoya trabalhando. Este detector múon foi posicionado dentro da Câmara da Rainha. (Imagem: ScanPyramids Mission)

Pesquisadores da Universidade de Nagoya utilizaram filmes de emulsão nuclear para rastrear os múons em três dimensões; uma equipe de Comissão de Energias Alternativas e de Energia Atômica da França (CEA) usou hodoscópios cintilantes (materiais cintilantes que emitem luz quando as partículas passam por eles); e pesquisadores da KEK High Energy Accelerator Research Organization fizeram seu trabalho usando detectores de gás. Já que apenas 1% dos múons alcança os detectores, os dados devem ser meticulosamente acumulados ao longo de vários meses (as exposições começaram em dezembro de 2015).

Explicando o vazio

Todas as três equipes chegaram à mesma conclusão: há uma grande cavidade, aberta diretamente acima da Grande Galeria, aproximadamente do mesmo tamanho e forma. O vazio está cerca de 21 metros acima do nível do solo e tem pelo menos 30 metros de comprimento, mas os pesquisadores não têm certeza de sua inclinação.

Então o que ele é?

Durante coletiva de imprensa, os pesquisadores teimosamente se recusaram a especular. “Nós estamos evitando a palavra câmara”, disse Mehdi Tayoubi. “Sabemos que é um grande vazio, mas não estamos o chamando de uma câmara.” Os cientistas da ScanPyramids admitiram que não são especialistas nesta área e disseram que especialistas em arquitetura egípcia devem usar essa descoberta como um convite para participar e ajudar a explicar a cavidade misteriosa.

“Há ainda muitas hipóteses de arquitetura a considerar; em particular, o grande vazio poderia ser feito de uma ou várias estruturas adjacentes e pode ser inclinado ou horizontal”, escrevem os pesquisadores no estudo. “A estrutura detalhada do vazio deve ser mais estudada … colaborações mais interdisciplinares [serão necessárias para ajudar a entender] a pirâmide e o seu processo de construção.”

Os pesquisadores usaram realidade aumentada para criar uma reconstrução 3D do vazio. (Imagem: ScanPyramid Mission)

Importantemente, os pesquisadores foram capazes de descartar a possibilidades de um “não-vazio”. Pelo fato de as pequenas aberturas ou fendas não poderem ser detectadas usando a técnica múon (ela só pode detectar espaços abertos), não há praticamente nenhuma maneira de o espaço ser um “queijo suíço” de pedra, como alguns cientistas especularam. Também é improvável, dizem os pesquisadores, que seja apenas um sinal de desgaste interior, algum tipo de colapso ou falha de construção no projeto, ou a justaposição de pedras pequenas e grandes. É importante ressaltar que a área em questão produziu os mesmos padrões de dados múon que as varreduras feitas na Grande Galeria, um “vazio” conhecido dentro da estrutura.

Kathlyn M. Cooney, professora associada de Arte Antiga e Arquitetura Egípcia na Universidade da Califórnia, em Los Angeles, diz que é muito cedo para especular sobre a verdadeira natureza do vazio, mas uma câmara oculta não é uma impossibilidade. Cooney, que não esteve envolvida no novo estudo, disse que Khufu e seu pai Sneferu, ao contrário de seus antecessores da terceira dinastia, começaram a “flutuar” as câmaras dentro de suas pirâmides.

“Para construir essas estruturas internas, eles tinham que construir de baixo para cima”, ela disse ao Gizmodo. “Eles tinham que criar as câmaras e passagens conforme construíam para cima.” Para tornar essas estruturas interiores inacessíveis (o que parece ser a intenção), Cooney diz que os antigos egípcios não fizeram corredores adjacentes e cobriram a pirâmide do lado de fora para impedir o acesso. “Foi brilhante”, ela disse, “mas foi um fenômeno de curta duração, e não acontece muito frequentemente após esses dois reis”.

Como os arqueólogos do ScanPyramids, Cooney não sabe o que está dentro do vazio, mas ela disse que “seria extraordinário encontrar potenciais materiais [como] artigos funerários e tesouros que têm quase cinco mil anos de idade”.

Potenciais pela frente

A pergunta óbvia neste momento é o que os arqueólogos planejam fazer para descobrir mais sobre essa misteriosa estrutura. Durante a coletiva de imprensa, os pesquisadores disseram que gostariam de realizar mais exames de múon na estrutura a longo prazo, a partir de posições diferentes. Isso deve lhes permitir criar uma imagem mais precisa do espaço e, possivelmente, encontrar mais coisas escondidas.

Mais radicalmente, o pesquisador da INRIA Jean-Baptiste Mouret, membro da equipe ScanPyramids, está projetando um robô inovador que será capaz de se contorcer através de um pequeno buraco e, possivelmente, voar como um drone dentro da cavidade (bem-vindo à arqueologia do século XXI).

Uma vista aérea da Grande Pirâmide. (Imagem: ScanPyramid Mission)

Infelizmente, o vazio está localizado em um lugar de muito difícil acesso, e pode ser necessária alguma perfuração. Essa perspectiva pode ser minimizada se os pesquisadores descobrirem corredores escondidos adjacentes. Pegue o corredor recentemente descoberto acima da entrada original, por exemplo; essa passagem poderia conter um túnel com todo o caminho até o vazio, como uma imagem espelhada das estruturas abaixo dele.

“Se uma exploração for imaginada, um bom ponto de partida seria a partir do corredor suspeito na Face Norte”, explicaram os pesquisadores. “Mas, no momento, não há nenhuma discussão sobre isso, isso não é nossa responsabilidade. Mas por sermos engenheiros e amarmos a inovação, pedimos para Jean-Baptiste integrar nossa equipe… e estamos atualmente no processo de pensamento e design.”

Mas, como Cooney explicou ao Gizmodo, os pesquisadores ainda terão de passar pelo ministério de Antiguidades Egípcias.

“Quando você diz algo assim, e mesmo quando você tem muita ciência por trás de você, os egípcios ainda têm controle sobre seu patrimônio nacional”, afirmou Cooney. “Em última análise, vai ser com eles a forma como querem que a pirâmide seja pesquisada e analisada, o que define como os arqueólogos seguem em frente”. Ela também diz que os pesquisadores estrangeiros (que é o caso aqui) terão que trabalhar com um equipe egípcia, dentro do complicado processo político egípcio.

Por último, Cooney fez um apelo tanto para a imprensa quanto para o público para serem pacientes.

“Precisamos parar de acelerar descobertas arqueológicas que não precisam ser apressadas e forçar os cientistas a fazer declarações sobre descobertas que ainda não foram comprovadas”, ela disse ao Gizmodo. “É importante lembrar o velho ditado: ‘Arqueologia é destrutiva’. E perceber que a próxima geração será capaz de fazer melhor.”

[Nature]

Imagem do topo: ScanPyramids Mission