Ainda bem que os neandertais não escovavam os dentes, senão nós, humanos, talvez não pudéssemos descobrir o que eles comiam.

Uma equipe internacional de cientistas analisou o DNA encontrado no tártaro dentário de cinco espécimes preservadas de neandertal, revelando os tipos de comida incluídas nas dietas dos homens das cavernas. Alguns comiam carne, enquanto outros pareciam ter apenas DNA de plantas em seus dentes. Os pesquisadores também puderam identificar que tipos de bactéria viviam nas bocas das espécimes e pensaram que alguns dos neandertais podem até mesmo ter usado analgésicos naturais. As conclusões podem ser um pouco especulativas, então pense no estudo como uma projeção do que os neandertais comiam, em vez de uma observação completa sobre seus comportamentos.

Ainda assim, os resultados animaram os cientistas.

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“Conseguimos dizer que ‘parece que eles comiam bastante carne’ ou que ‘parece que eles comiam muitos desses tipos de animais, de florestas ou planícies abertas’. Às vezes, encontramos os locais de açougue”, William Harcourt-Smith, professor-assistente de paleoantropologia no Centro de Pós-Graduação da City University of New York e que não esteve envolvido no estudo, contou ao Gizmodo. “Mas isso a nível de espécie. É interessante. Determina que os neandertais estavam especificamente mirando certos animais.”

Nossos primos distantes, extintos há 40 mil anos, viveram na Europa moderna e tiveram os mesmos problemas dentários que nós temos, com a placa bacteriana transformada em tártaro devido à falta de higiene dentária apropriada. Esses pedaços de DNA de comida presos em seus dentes foram encontrados por cientistas que identificaram-nos usando amplificação da reação em cadeia com polimerase e sequenciamento “de espingarda”, técnicas similares às usadas em investigação forense, quando os detetives têm uma pequena amostra de sangue retirada de uma cena de crime. Neste caso, as cenas de crime foram a caverna El Sidrón, no norte da Espanha, e a caverna Spy, na Holanda, e tudo em que os especialistas forenses estavam interessados era o que os caçadores comiam.

Os resultados revelaram vários tipos de informações interessantes. As placas bacterianas na caverna Spy tinham todos os tipos de DNA de comida, como ovelha e até mesmo rinoceronte lanoso. Os dentes encontrados na El Sidrón apenas pareciam conter DNA vegetal, como cogumelos, pinhões e musgo. Essas dietas até pareceram mostrar diferentes microbiotas, ou uma variedade diferente de bactérias nos dentes. Os pesquisadores publicaram seus resultados nesta quarta (8), na Nature.

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Imagem: Paleoanthropology Group MNCN-CSIC; Foto de Antonio Rosas

Essa diversidade de dietas é bastante ampla, especialmente considerando que muitos presumiam que os neandertais comiam apenas carne. E mesmo as observações sobre aqueles que só comiam carne apenas refletiram a localização da caverna. Os neandertais, como outros humanos antigos, frequentemente comiam de acordo com a disponibilidade local de alimentos.

“O viés favorável ao consumo de carne de animais grandes como o mamute lanoso ou o rinoceronte vem da examinação de locais ao norte, onde esses animais eram abundantes e havia poucas alternativas de fonte de alimentos”, contou ao Gizmodo Stewart Finlayson, gerente de operações e herança digital no Museu de Gibraltar e que não participou do estudo, por email. “Mas os neandertais viveram em muitas outras partes do mundo e, como os humanos de hoje, eram altamente adaptáveis e exploravam a gama completa de alimentos disponíveis para eles, de nozes a rinocerontes! O mito da inferioridade neandertal sofreu outro golpe.”

Um aspecto surpreendente do estudo foi que um neandertal com um abscesso dentário parecia ter dentes com traços de DNA de choupo, uma planta que contém substâncias químicas usadas pelos humanos para fazer aspirina. Os cientistas indicaram que esse neandertal pode ter automedicado seu ferimento. “Mas isso é bastante especulatvo”, disse Harcourt-Smith. “Pode ter sido consumido porque estavam com fome. Inferir que os neandertais tinham uma espécie de conhecimento intensivo sobre as propriedades das plantas é um exagero.” É apenas um exemplo um pouco parecido com encontrar um cadáver humano com DNA de semente de papoila nos dentes e presumir que eles consumiam opiáceos. Um lembrete: correlação não implica causalidade.

Há várias outras advertências aos resultados, explicou Harcourt-Smith. Não sabemos quanto tempo levou para que a placa bacteriana se formasse em seus dentes, então não sabemos se essas observações representam dietas completas ou meras observações rápidas.

Além disso, temos que observar essa análise de bactérias com muita cautela. Como sabemos que a bactéria simplesmente não apareceu nos dentes ao longo do tempo, ou que um animal não veio e babou nos dentes nesse intervalo de quase 50 mil anos desde que as espécimes morreram? “Os materiais da Spy são alguns dos primeiros materiais de neandertais encontrados”, disse Harcourt-Smith. “As técnicas de escavação não foram muito rigorosas. Pense em todos os pesquisadores que tocaram nessas coisas.”

Os autores discutem a contaminação ao longo do estudo e até comparam as amostras aos humanos de hoje em dia. “Você pode observar que os pesquisadores tentaram ser muito cautelosos e levaram essas questões muito a sério”, afirmou Harcourt-Smith. Ele ainda gostaria de ver mais análises de humanos dos tempos modernos para comparar com a microbiota neandertal.

Harcourt-Smith não se sentiu confiante falando da análise de DNA, então entramos em contato com outros geneticistas e atualizaremos a publicação se tivermos resposta. Mas, em última instância, é bem legal simplesmente conseguir imaginar os neandertais de fato se sentando em suas cavernas e comendo rinocerontes ou musgo, sem saber que, em milhares de anos, seus primos tão distantes podem estar fazendo um exame dentário de alta tecnologia. Isso pode ser usado como uma boa desculpa para não escovar seus dentes, pelo benefício dos seus futuros descendentes.

[Nature]

Imagem do topo: Paleoanthropology Group MNCN-CSIC