Acabar com um protesto físico é fácil, apenas jogue spray de pimenta e prenda qualquer um que não possa correr. Acabar com protestos online com propostas democráticas é uma questão totalmente diferente. E isso deixa os regimes opressores ao redor do mundo bastante preocupados.

Quase seis meses após a queda do presidente da Tunísia, Zine El Abidine Ben Ali, um pequeno protesto com cerca de 150 pessoas se formou em Túnis, capital da Tunísia.

“Todos somos Samir Feriani,” os manifestantes gritavam, segurando fotos do policial de quarenta e quatro anos. Feriani havia sido preso duas semanas antes depois de escrever para o ministro do interior da Tunisia, dando o nome de vários funcionários de alto escalão do ministério que ele disse terem sido responsáveis por matar manifestantes e cometer outros crimes contra os direitos humanos durante a revolução tunisiana. Em uma das duas cartas publicadas em uma revista local, ele afirmou ainda que funcionários do ministério têm destruído documentos confidenciais desde a queda de Ben Ali, incluindo arquivos da Organização da Liberação Palestina (com sede em Túnis de 1982 até 1994), que ele afirmou que documentava o relacionamento de Ben Ali com a inteligência Israelense. Feriani foi acusado de “abalar a segurança externa do estado,” “liberar e distribuir informações que poderiam prejudicar a ordem pública,” e de “acusar, sem provas, um funcionário público de violar a lei.”

Os usuários tunisianos do Twitter clamavam apoio a Feriani, consternados que elementos e comportamentos do velho regime continuavam na nova Tunísia. “Onde estão os nossos jornalistas, a sociedade civil e os partidos políticos?” perguntou um usuário do Twitter chamado @emnamejri. No Facebook, pessoas criaram páginas pedindo por sua libertação. Eles postaram fotos dos protestos, links para notícias sobre seu caso, e agregaram reações dos cidadãos por toda a Tunísia. Eles comunicaram a condenação ao Human Rights Watch, que resumiu o sentimento de muitas pessoas sobre a detenção do policial: “Em um momento em que muitos tunisianos acreditam que os funcionários do governo que aterrorizaram pessoas a mando de Ben Ali continuam fortes mesmo com o estabelecimento da segurança, o governo provisório deveria encorajar pessoas a fazer denúncias, não usar as leis desacreditadas de um governo deposto para aprisioná-las.”

Em uma conferência em Nova York sobre a Internet e política naquele mesmo mês, alguém perguntou a Riadh Guerfali – ativista que em 2004 fez um mashup com o livro 1984 e Ben Ali – se ele estava preocupado que a revolução tunisiana não iria acabar bem.  “Eu estou otimista que nós iremos vencer esta batalha,” ele disse. “No momento ainda temos muitos problemas,” ele continuou. “Mas a opinião pública está aqui.” Apesar das batalhas que ainda teremos que enfrentar, a diferença entre aquela época e agora é que os tunisianos conquistaram um espaço na mídia e na internet para discussão e debate que é muito mais amplo e acessível do que sob o regime de Ben Ali. “Se pudermos dizer, isso é errado, nós poderemos dizer que a pessoa responsável deve renunciar,” isso é o primeiro passo, Guerfali falou para a sala cheia de jovens operadores políticos americanos, blogueiros, jornalistas e aficionados por tecnologia. “As coisas nunca, em nenhum lugar do mundo, mudam por si mesmas. É necessária a pressão da opinião pública.”

Essa verdade se aplica a todo mundo, em qualquer lugar. A democracia não será entregue, renovada, ou atualizada automaticamente como os últimos grandes lançamentos do Netflix através de nossas conexões banda larga e smartphones. O futuro da liberdade na era da internet depende se as pessoas se importam em assumir responsabilidade pelo futuro e agir. Assim como nossas escolhas individuais como cidadãos, pais, professores, funcionários, administradores e funcionários do governo se combinam para moldar o mundo em que vivemos, as ações e escolhas de cada um de nós estão moldando o futuro da internet.

Elementos de um movimento transnacional para defender e expandir a liberdade na Internet começaram a emergir. Como a própria internet, este movimento é descentralizado, sem muita coordenação, e frequentemente guiado por grupos e indivíduos reagindo a problemas específicos. Por enquanto o movimento não é suficientemente amplo ou poderoso para manter em xeque o abuso de poder de governos e corporações. Mas as revoluções e tentativas de revoluções do começo de 2011 impulsionaram muitas pessoas ao redor do mundo para tornarem-se ativamente engajadas com a luta pela liberdade e controle da internet.

Qual deveria ser o objetivo deste movimento? Estabelecer algum tipo de super governo global estilo ONU para gerenciar e restringir poder digital internacionalmente não é nem realista, nem desejável. Nem o estilo Robin Hood de cyber vigilância e guerrilha digital. Dada a natureza humana e as realidades do mundo atualmente, também é inconcebível esperar começar do zero com algum tipo de democracia digital utópica em uma fronteira imaculada e politicamente intocada do ciberespaço.

Uma abordagem mais realista é democrática é construir e fortalecer instituições alternativas comandadas por cidadãos da internet e comunidades que possam existir em conjunto com as já existentes, eventualmente mudando o equilíbrio do poder tanto online quanto offline. Ao mesmo tempo, nós precisamos encontrar formas mais eficazes e inovadores de conter o poder digital dentro de limites razoáveis, seja esse poder exercido por governos, corporações ou redes de hacker ativistas de ideologias e religiões variadas. O primeiro passo é construir uma participação e consciência pública muito mais ampla. As pessoas precisam parar de pensar em si mesmos como “usuários” ou “consumidores”, e começar a agir como cidadãos da internet.

Trecho retirado com permissão de Consent of the Networked: The Worldwide Struggle for Internet Freedom, de Rebecca MacKinnon. Disponível na Basic Books, uma editora membro do The Perseus Books Group. Copyright © 2012.

Consent of the Networked: The Worldwide Struggle for Internet está disponível em ConsentoftheNetworked.com

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