Do outro lado do rio: as ideias do passado para recuperar o rio Tietê, em São Paulo

O Gizmodo Brasil apresenta a série “Do outro lado do rio”, uma análise sobre o passado, presente e futuro dos grandes rios de São Paulo – principalmente seu uso como meio de transporte público, uma ideia quase abandonada no início do século 20, mas que ressurge com a urgência de transformar a maior cidade do país em um lugar melhor para se transportar (e se viver). A série, dividida em três partes, começa com um estudo sobre os projetos deixados para trás – alguns muito interessantes, outros bem malucos.

Muitos foram os projetos descartados nas obras de retificação do Rio Tietê. Porém, como vários problemas não foram solucionados pelas obras, como as enchentes, e outros surgiram, como a poluição, várias ideias desses trabalhos reapareceram em novos projetos feitos após as obras de retificação. Muitos deles foram reunidos no documento Projeto Tietê, organizado pelo Instituto de Arquitetos do Brasil de São Paulo (IAB/SP) em 1991.

Alguns, como o Parque Villa-Lobos e o Parque Ecológico do Tietê, se tornaram realidade; outros, entretanto, ficaram apenas no plano das ideias. Veja aqui seis deles.


Parque Ecológico do Tietê, Ruy Ohtake (1977)

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Elaborado em 1977 pelo arquiteto Ruy Ohtake e sua equipe, o projeto previa um parque que ia desde a nascente do Rio Tietê, em Salesópolis, até a Barueri, sendo interrompido na cidade de São Paulo no trecho em que as marginais já tinham sido construídas. “A única forma de um projeto urbanístico se cumprir: passar à frente da ocupação”, diz o texto sobre o projeto.

Além disso, o projeto propõe a despoluição do rio, o saneamento básico e a ocupação correta das margens. “Todos reconhecemos o enorme equívoco urbanístico que foi a condução das avenidas marginais, entre o Corinthians e a Lapa, encostadas ao canal, permitindo que a ocupação predatória se beneficiasse da recuperação daquela área.”

O projeto serviu de base para o Parque Ecológico do Tietê, inaugurado em 1982 e composto por três núcleos (Engenheiro Goulart e Vila Jacuí, na Zona Leste de São Paulo, e Ilha do Tamboré, em Barueri) e para o Parque Várzeas do Tietê, ainda em construção.


Cidade no Tietê, Paulo Mendes da Rocha (1980)

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O ensaio do arquiteto Paulo Mendes da Rocha, feito em 1980, não é voltado para a cidade de São Paulo, mas sim para a criação de uma cidade que una o transporte hidroviário ao ferroviário. O projeto parte da percepção que o Tietê é acompanhado por duas estradas de ferro paralelas, uma ao norte e outra ao sul do curso do rio. “(…) os dois sistemas ferroviários norte e sul do Estado e o rio são linhas paralelas desarticuladas onde as cidades, que evitaram as antigas margens insalubres, nasciam ao longo dessas ferrovias.”

A cidade, que ficaria entre Lins e Novo Horizonte, interligaria os sistemas de transporte ferroviário e hidroviário por meio de um eixo transversal e um porto fluvial. Além disso, a cidade teria uma usina hidrelétrica, um instituto de hidráulica aplicada e uma economia baseada na agroindústria. “Este sistema fluvial alarga todos os horizontes de uma economia agora planejada, o desenvolvimento de novas tecnologias, a agroindústria, e desequilibra de forma sadia o conjunto das cidades da região, fazendo-as progredir de modo associado.”


Parque do Tietê, Oscar Niemeyer (1986)

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“Onde estão os espaços verdes que a vida reclama? Os parques e jardins que dão às cidades as características humanas indispensáveis? Onde está a tranquilidade que São Paulo, anos atrás, exibia?”

Foi assim que o arquiteto Oscar Niemeyer apresentou seu projeto para o rio Tietê: um parque linear na margem do trecho do Tietê na cidade de São Paulo. Chamado pelo arquiteto de “cirurgia urbanística necessária”, o plano previa a recuperação de margem sul, menos urbanizada, numa profundidade variável entre 300 e 1000 metros, onde haveria locais de esporte e lazer, clubes, restaurantes, moradia e escritórios, além de um centro cultural e um centro cívico. O trabalho, encomendado pelo então prefeito Jânio Quadros, nunca saiu do papel, no entanto.

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Parque Villa-Lobos e Projeto do Rio Novo, Décio Tozzi (1987-1988)

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Em 1988, o arquiteto Décio Tozzi pensou em retirar as avenidas marginais do Rio Tietê. No lugar das vias, o projeto previa a criação de um parque linear urbano, com áreas gramadas com árvores de sombra, ciclovia, quadras de esportes e um calçadão.

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Um ano antes, em 1987, ele foi o responsável pelo projeto do Parque Villa-Lobos. O parque foi pensado com um espaço temático para a música: ele teria uma escola de música, de balé e auditórios e uma Ilha Musica, que seria um grande auditório ao ar livre. Em 1989, o Departmento de Águas e Energia Elétrica (DAEE) de São Paulo começou as obras, mas vários equipamentos do projeto original não foram implantados.


Metrô Aéreo, Roberto Loeb (1990)

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O projeto do arquiteto Roberto Loeb vai além das margens dos rios. Recuperando uma frase de Picasso, “nosso futuro está no ar”, ele vê um metrô aéreo como o futuro da cidade em 1990. Com linhas suspensas por cabos e estrutura metálica, o sistema teria suas estações elevadas em torres de cerca de 60 pavimentos, com serviços, moradia, escritórios e lazer.


Edifícios-Ponte, Marcos Acabaya (1990)

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Para tentar corrigir os congestionamentos em pontes, que ele vê como o resultado de uma ruptura na estrutura urbana causada pelos rios e suas marginais, o arquiteto Marcos Acayaba elabora o projeto Edifícios-Ponte. Segundo o texto do Projeto Tietê, “é uma ideia para suprir essa carência e começar a realizar o eixo metropolitano de alta densidade, urbanizar os rios e costurar o tecido urbano”.

A inspiração vem da Ponte Vecchio, sobre o Rio Arno, em Florença, e da Ponte Rialto, sobre o Grande Canal, em Veneza, Os prédios construídos sobre as pontes teriam áreas comerciais, estacionamentos, escritórios e/ou apartamentos.


Amanhã, trazemos a segunda parte da série. Fique ligado.

Imagens: “Projeto Tietê” — Instituto dos Arquitetos do Brasil – Departamento São Paulo. Foto de destaque via Stankuns/Flickr.