O documentário Seaspiracy da Netflix está entre os mais populares do serviço de streaming desde que foi lançado no final de março e, ainda assim, quase todos os cientistas marinhos que vi falando sobre ele queriam ver a obra afundado para nunca mais ser vista devido à desinformação desenfreada. Vou deixar muito do desmascaramento da má ciência no documentário para os especialistas no assunto (isso inclui alguns dos citados no filme, que também disseram que foram deturpados). Mas, o que é realmente perturbador sobre Seaspiracy, é a maneira fácil com que ele mostra como resolver os problemas que o oceano e a sociedade enfrentam da maneira mais vegana e salvadora possível.

A premissa de Seaspiracy é que Ali Tabrizi, seu diretor e narrador, queria fazer um documentário sobre as maravilhas do oceano, mas rapidamente se assustou com as ações cruéis dos seres humanos nos mares. Assim, ele narra sua transição de fazer limpezas em praias locais para ficar preocupado com a caça às baleias e ir para a famosa enseada em Taiji, Japão, onde a matança de golfinhos ocorre regularmente. Isso desencadeia uma viagem ao redor do mundo e entrevistas com quase três dezenas de especialistas ou pessoas envolvidas na indústria pesqueira.

Ao longo da obra, Tabrizi argumenta que as verdadeiras questões que afetam o oceano não são o que a grande mídia gostaria que você acreditasse, ao mesmo tempo em que mostra recortes de notícias e estudos  para tentar fazer seus pontos de vista serem validados. A mudança climática é ignorada, assim como a poluição do solo pelo plástico. Em vez disso, é abordado o problema dos equipamentos de pesca fantasma, um tópico amplamente coberto pela mídia (incluindo o Gizmodo), além da escravidão no mar, o assunto responsável por essa grande investigação do New York Times em 2015. Eu entendo que nem todo mundo está lendo notícias sobre o oceano todos os dias, mas a visão que Tabrizi passa de “por que ninguém está cobrindo isso?” é algo completamente falso.

No entanto, deturpar o jornalismo e os acadêmicos não é o único problema. Ao longo de tudo isso, Tabrizi joga tropes raciais. Os bandidos são asiáticos, especificamente caçadores de baleias e golfinhos japoneses, além dos consumidores chineses de sopa de barbatana de tubarão. Os mocinhos – neste caso, os especialistas que ele cita – são em sua maioria brancos. Christina Hicks, cientista do Lancaster Environment Center e uma das únicas pessoas não-brancas que tem o seu momento de fala no documentário, tuitou que ficou irritada ao descobrir que participou de um filme que, na verdade, atacava uma indústria que ela ama, além de ter comprometido sua carreira. As vozes das pessoas que estão realmente na linha de frente da pesca estão ausentes em grande parte do material, como nas entrevistas com três homens que eram escravos a bordo de barcos de pesca tailandeses, que ocupam pouco tempo em tela.

Há uma cena na costa da Libéria depois que ativistas da Sea Shepherd e oficiais liberianos interceptam um barco de pesca ilegal chinês onde Tabrizi e a tripulação também veem homens liberianos em uma canoa pescando de subsistência longe da costa. No entanto, o filme não vai além de mostrá-los como vítimas da pesca comercial e ilegal, em vez de envolvê-los como sujeitos do debate. Obviamente, isso seria difícil de facilitar em alto mar, mas é uma oportunidade realmente perdida que poderia ter sido facilmente organizada depois que todas as partes estivessem de volta em terra firme.

O que Tabrizi está documentando em seu filme é a falha de vários sistemas, incluindo as partes que ele exalta. É fato que os oceanos estão em sérios problemas. A mudança climática está causando o superaquecimento e a acidificação dos oceanos. Inclusive, existe um estudo que aponta as 88 empresas responsáveis por metade de toda a diminuição do pH nos oceanos. Se a mudança climática continuar sem controle, alertaram os principais cientistas do mundo, os oceanos enfrentarão “condições sem precedentes” em meados deste século. Deste modo, o peixe que Tabrizi diz querer salvar não existirá mais se ignorarmos tudo isto.

Ao mesmo tempo, a poluição do plástico está fugindo do controle, desde as artes de pesca até os fracassados programas de reciclagem. A sobrepesca também está pressionando o alto mar, assim como a pesca industrial é responsável desde a escravidão e abusos dos direitos humanos até o despejo de material poluente. É literalmente tudo o que os humanos fazem. Ou, mais precisamente, o que algumas grandes corporações realizam graças a décadas de entrincheiramento político.

Para lidar com esses problemas, serão necessárias grandes revisões sistêmicas de como gerenciamos os recursos pesqueiros, medidas de conservação mais rigorosas e responsabilização das empresas de combustíveis fósseis. Contudo, a resposta do Seaspiracy é muito mais básica: torne-se vegano. O final do filme apresenta uma enxurrada de médicos pró-veganos com um passado de declarações e pontos de vista questionáveis, bem como uma empresa vegana de frutos do mar, todos falando sobre as maravilhas das dietas à base de plantas em vez de tratar, de fato, dos ditos frutos do mar veganos.

E esse, em poucas palavras, é o problema de todo o documentário. A obra é produzida pelo mesmo cara por trás de Cowspiracy, outro filme pró-veganismo que contorna outras questões sistêmicas e deturpa a ciência. Isso explica por que a única solução “sistêmica” sobre a mesa é a mudança individual, que é totalmente inadequada. Também não dá nenhum espaço para aqueles que dependem da pesca para subsistência ou renda.

Em vez disso, parece que a mensagem sai como “Eu posso resolver sozinho este problema que só descobri recentemente”, e essa solução é meu método preferido. Tabrizi tem feito proselitismo sobre veganismo desde 2015, de acordo com vídeos arquivados, e dirigiu um filme chamado Vegan em 2018. Quando Tabrizi diz que o veganismo é a única resposta no final de Seaspiracy, é importante se questionar se foi a pesquisa para o filme que o levou a essa conclusão ou o contrário.

Olha, eu totalmente comeria um camarão ou peixe vegano em qualquer dia da semana. E se você quiser fazer isso depois de assistir Seaspiracy, será ótimo. Mas, se você realmente quer consertar os abusos gratuitos dos direitos humanos na indústria pesqueira, o sistema de rotulagem verde para peixes sustentáveis e combater a mudança climática, simplesmente se tornar vegano não vai funcionar. Até onde me lembro o veganismo não reduz o plástico no oceano. Nem põe fim às mudanças climáticas ou ao domínio da indústria de combustíveis fósseis. Eu também não ouvi nada sobre isso resolver a questão da escravidão nos mares.

A questão de apresentar uma solução relativamente simples para as enormes crises interligadas que enfrentamos dificilmente se limita ao Seaspiracy. É difícil propor um alinhamento simples sobre como alguém assistindo a um documentário pode derrubar a indústria de combustíveis fósseis, explodir o capitalismo ou defender fazendas de salmão que sejam realmente sustentáveis. É muito mais fácil seguir o caminho bem-trilhado de destacar uma solução que se alinha com os valores dos cineastas.

Eu não tenho dúvidas de que o filme é bem-intencionado com seu apelo para se tornar vegano também. Existem muitas razões para a maioria das pessoas reduzir o consumo de carne, desde a crise climática até os direitos à saúde dos animais. O mesmo vale para os frutos do mar, incluindo os impactos negativos sobre a biodiversidade e os direitos humanos. Precisamos de defesas apaixonadas de tudo que é maravilhoso em nosso mundo antes de perdê-lo para sempre.

“Ninguém pode fazer tudo, mas todos podem fazer algo”, disse a oceanógrafa Sylvia Earle a Tabrizi na cena final do filme.

No caso de Seaspiracy, entretanto, Tabrizi está pedindo apenas uma coisa. E essa coisa é bastante amarga à luz de todos os problemas que precisamos resolver.