Se você decidiu começar a malhar, pode ter notado um fenômeno estranho: você sai da academia se sentindo bem, então dois dias depois acorda dolorido. Esse atraso estranho parece único ao exercício e é meio inexplicável quando você para pra pensar – imagine se você só sentisse a dor por bater o pé dois dias depois do ocorrido.

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Para o Giz Pergunta desta semana, chamamos fisiólogos, biólogos moleculares e cientistas de exercício para nos ajudar a entender por que o exercício dói dois dias depois – e parece tão inexplicável para eles quanto para nós. Pelo visto existe todo um mundo de pesquisa dedicado a entender isso. E embora os cientistas não tenham ainda identificado exatamente o que causa o fenômeno, existem algumas teorias interessantes por aí.

Elaine Choung-Hee Lee

Professora assistente de biologia molecular e genética aplicada, Universidade de Connecticut

Dores pós exercício tem seu pico 24 a 48 horas depois do que consideramos exercício que danifica os músculos. Essa dor atrasada é chamada de dor muscular de início tardio (DOMS, na sigla em inglês) e ocorre porque assim que o dano muscular acontece, o processo de reparo demora para se desenvolver.

Quando o tecido muscular é danificado, não apenas as células residuais do tecido ajudam no reparo e remoção das proteínas danificadas, mas também as células do sistema imunológico se movem até o local para ajudar na recuperação do tecido. Um grau de inflamação local do tecido ocorre como resultado, enquanto células do tecido, células imunológicas, proteínas e outros fatores que estimulam a reparação, migram para o local do dano.

Embora este processo seja parte do que contribui para a dor associada ao DOMS, é um aspecto importante da resposta ao exercício que precisa ocorrer. Normalmente, após alguns dias, o DOMS diminui e isso indica que o processo de reparo saudável ocorreu. A dor prolongada e extremamente dolorosa pode ser um sinal de lesão ou dano mais grave que requer maior tempo de recuperação entre exercícios físicos. Aspectos do exercício em si, como a intensidade, duração, tipo e também o seu nível de aptidão física podem afetar o quão severo será o DOMS depois de uma sessão de exercício.

Matthew Ely

Graduando do departamento de fisiologia humana, Universidade de Oregon

A dor muscular de início tardio (DOMS) é causada por exercício extenuante, acima e além do que o indivíduo está acostumado a realizar. DOMS pode ocorrer a partir do exercício usando contrações predominantemente concêntricas, mas é mais comum após o exercício com contrações musculares excêntricas. A dor é associada a danos temporários às proteínas musculares contráteis e/ou ao sarcolema muscular. Esta dor geralmente atinge o seu pico em 24 a 48 horas após a sessão de exercícios.

A causa da dor, isto é, o aumento da ativação de nervos nociceptivos é atualmente desconhecida. Por meio do nosso trabalho descobrimos que a produção e liberação de histamina aumenta durante o exercício aeróbico.

Se bloquearmos as ações da histamina (anti-histamínicos), diminuímos as percepções de dor/desconforto após o exercício prejudicial aos músculos. O bloqueio das ações de histamina está associado a reduções em dois fatores neurotróficos conhecidos (Fator de Crescimento do Nervo e Fator Neurotrófico Derivado Glial). Esses dois fatores causam alterações nos neurônios nociceptivos fazendo com que eles descarreguem mais frequentemente e com menor estímulo. Ambos aumentam a percepção de dor.

Então, o que causa DOMS? A partir do nosso trabalho na Universidade de Oregon acreditamos que seja em parte devido à liberação de histamina durante as contrações musculares. Portanto, bloquear as ações de histamina durante o exercício extenuante pode diminuir a percepção de dor.

Se houver dano muscular causado por exercícios extenuantes, a dor é provavelmente um mecanismo protetor que impede você de extender o músculo novamente, permitindo que a cicatrização ocorra. Impedir a dor pode atrasar a cicatrização ou resultar em um aumento de dano se mais exercício for realizado.

Paul Ingraham

Editor, PainScience.com

DOMS sempre me lembrou a ação de estalar os dedos – parece simples, mas não é.
É difícil falar sobre isso, porque a única resposta honesta é: ninguém sabe. É um mistério. Mas é fácil abordar de outra forma, porque existem teorias realmente interessantes e pistas muito boas, então é divertido, mas inteiramente especulativo.

Em primeiro lugar, vamos simplesmente dispensar a sabedoria convencional da velha escola, que explica que é basicamente uma forma de lesão – que é um microtrauma. Pode haver um elemento de verdade nisso, mas é bastante claro que existem algumas características desse tipo de dor que não se encaixam nessa teoria, e o atraso é a mais óbvia. Qual outra lesão você sente só depois de dois dias? Geralmente, quando você se machuca, se houver dano direto nos tecidos, você sabe disso quase que imediatamente, certamente não leva 36 horas para atingir a intensidade máxima. Essa velha ideia de que você acabou de se danificar é quase certamente errada, ou apenas uma pequena parte de todo o cenário.

No extremo oposto, a nova teoria mais interessante baseia-se em uma série de estudos realizados por pesquisadores japoneses. [A teoria é] que é basicamente apenas dor de crescimento nervoso. O que esses pesquisadores japoneses mostraram é que a dor está relacionada a fatores neurotróficos – substâncias que saem das células musculares que estimulam o crescimento nervoso.

Este é um mecanismo adaptativo – seus nervos estão crescendo após o exercício porque receberam a mensagem de que “ei, precisamos de mais aqui, temos que melhorar esses músculos”. E quando os nervos crescem, é desconfortável no mesmo sentido que é desconfortável quando você tem dez anos de idade e passa por um salto de crescimento e seus ossos doem. É apenas um pequeno impulso de crescimento para seus nervos apos receber obter um tanto de exercício não familiar. E isso certamente pode explicar por que demora um pouco para acontecer, ou por que aumenta com o tempo.

Uma das razões pela qual a pesquisa falhou é que continuamos procurando por uma substância associada a ela, um biomarcador, e agora sabemos que isso provavelmente nunca acontecerá. Algumas pesquisas recentes revelaram que existem vários marcadores biológicos associados aos DOMS, e que eles provavelmente só têm um efeito quando estão todos juntos, é uma sopa química. Não é como se os músculos produzissem uma substância, ou que exista uma molécula que esteja causando dor. São várias coisas de uma só vez, e isso provavelmente tem muito a ver com o motivo pelo qual não conseguimos entender isso.

Outro detalhe super interessante que surgiu recentemente sugere que há algo misterioso no sistema imunológico e a chave para essa pesquisa é que a inflamação não está causando a dor. É outra coisa que é realmente a dor, e a inflamação é apenas um efeito colateral. Esta pesquisa explica por que ficamos realmente doloridos após um treino estranho, mas depois que o repetimos em uma semana e não é tão ruim assim. A teoria é que é semelhante à imunidade à infecção – que estamos basicamente expondo nossos músculos a algo, que o exercício ativa algo, o sistema imunológico reage e a próxima vez que nos exercitamos o sistema imunológico está mais preparado, então não dói tanto.

Por que o DOMS é tão difícil de se estudar?

Existem duas respostas a isso. A primeira é chata, que é que a maioria dos medicamentos para dor musculoesquelética é surpreendentemente primitiva. Estamos em um ponto da história, onde realmente só agora começamos a ver problemas como este seriamente, cientificamente. O século 20 foi um século maravilhoso para a medicina, mas foi dedicado 98% às grandes doenças. Lesões esportivas e a medicina musculoesquelética e dor nas costas, são realmente campos novos. Nós mal começamos. E mesmo depois que começamos, há cerca de 20 ou 25 anos, ainda é algo meia boca. Simplesmente não dá dinheiro, não há muito orçamento para isso.

O motivo mais interessante de não termos um domínio sobre o DOMS é que ele simplesmente é supercomplicado. Nenhuma das coisas óbvias parece ser o caso, e acabou sendo este pequeno enigma biológico superdifícil. É uma experiência muito familiar, todos sabemos disso, todos sabemos como se manifesta, mas é simplesmente difícil de explicar biologicamente.

Craig Nolan

Residente na faculdade de ciência do exercício, Mesa Community College

A resposta curta é: ninguém sabe com certeza porque [nós sofremos DOMS]. Mas é semelhante a uma lesão. Digamos que eu torça o tornozelo. Bem, nas próximas 24, 48 a 72 horas, há um processo de reparo em andamento; o tornozelo não começa a sentir melhor de repente. É preciso tempo para que essa dor diminua, e é a mesma coisa com essa dor muscular. Quando você se exercita, você está danificando seus músculos, e quando você danifica um tecido ele incha. Quando ele incha, empurra os nervos, o que causa dor. E esse processo de inchaço não para imediatamente. É preciso tempo para que ele diminua.

Muitos DOMS realmente dependem da intensidade do exercício. Se é um treino de baixa intensidade, você não vai produzir muita dor muscular. É mais comum em pessoas que acabaram de começar a malhar, porque seu corpo não está acostumado a se exercitar, por isso precisa de tempo para se adaptar. Se você faz [um treino] que não está acostumado a fazer, isso pode causar dor muscular.

O exercício é um estresse para o seu corpo. É um bom estresse, se você está fazendo certo e seu corpo se adapta. Se você fizer a mesma coisa repetidamente, e você não aumentar o peso ou algo assim, seu corpo se acostumar e não precisa ficar dolorido.

[DOMS] é uma coisa boa até certo ponto, mas muitas pessoas baseiam seu treino no fato de estarem doloridos o tempo todo. Bem, se você está dolorido o tempo todo, então isso não é bom, porque seu corpo precisa se adaptar ao exercício. Se você está com dores o tempo todo, provavelmente está exagerando.

Ilustração: Chelsea Beck/GMG