Mais de 30 mil corredores começaram a Maratona de Boston esse ano em Hopkinton, Massachusetts. Alguns treinaram e correram durante anos para se preparar para isso. Suas medalhas de participação são merecidas. Do seu coração, do sistema circulatório até seus músculos da perna e rins, correr uma maratona é meio como passar o seu corpo por um moedor de carne.

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Alguns correm por alguma causa e mantêm um ritmo mais lento. Outros, os corredores de elite, vão terminar os 42 quilômetros em apenas duas horas. Uma coisa comum em todos os maratonistas é que eles vão sentir o mesmo incrível desgaste em seus corpos.

A temperatura corporal chega à de uma febre

Os corredores começam em Hopkinton com uma temperatura corporal normal de cerca de 37º C. Mas ao final da corrida, de acordo com o médico Mark Perazella, professor de medicina da Escola de Medicina da Universidade de Yale, suas temperaturas serão bem mais altas, cerca de 38,8º C, com alguns chegando a até 39,44º C, similar a uma febre alta.

Quanto maior a temperatura corporal, mais dificuldade o coração tem de bombear o sangue para manter um fluxo constante até os músculos dos corredores. “O fluxo sanguíneo aumenta significativamente para a pele de um corredor o resfriar, roubando dos músculos esqueléticos”, o Dr. Gregory Lewis, diretor do Cardiopulmonary Exercise Testing Laboratory, no Massachusetts General Hospital, explicou.

Ao final da corrida, depois do suor no corpo de um corredor começar a esfriar, suas temperaturas corporais começam a despencar, colocando-os em risco de hipotermia. É por isso que muitos maratonistas usam cobertores Mylar para se aqueceram.

Os rins sofrem um golpe

Um time de pesquisadores da Yale comandado pelo Dr. Chirag Parikh estudou 22 corredores na maratona de Hartford em 2015, coletando amostras de sangue e urina antes da corrida, imediatamente após a corrida e 24 horas depois. Em um estudo publicado no American Journal of Kidney Diseases, os pesquisadores escreveram que 8% dos corredores mostraram estágio 1 de lesão renal aguda imediatamente após a maratona, uma condição em que os rins param de filtrar toxinas do sangue. Isso parece muito ruim! Mas a longo prazo, pode não ser.
De acordo com Perazella, coautor do estudo, o dano renal pode ser o resultado da diminuição de fluxo sanguíneo até os rins durante a maratona, causado por desidratação e pelo aumento da temperatura corporal.

“Nós observamos que três quartos tinham lesões nos rins com um exame microscópico de urina”, Perazella disse ao Gizmodo. Outros estudos de falha renal encontraram resultados parecidos, incluindo um feito pela Asian Pacific Society of Nephrology, que observava os biomarcadores e níveis de creatina sérica, indicadores de função renal, e identificaram lesão renal aguda depois de uma corrida de maratona.

Atualmente, não sabemos se os problemas renais, que permanecem durante dias, causam algum dano aos rins a longo prazo. A maioria dos corredores costuma se recuperar da lesão renal aguda dentro de duas semanas, de acordo com Perazella. Mas “ninguém estudou formalmente a função renal por mais tempo do que duas semanas após a corrida de maratona naqueles que tiveram os rins afetados”, ele disse.

A produção de energia entra em parafuso

O corpo humano queima diversas coisas para continuar se movendo. Carboidratos, que são armazenados como glicogênio (ou glicose) nos músculos e no fígado, são nossa principal fonte de energia. Nossos corpos também queimam gordura, mas a um nível bem menor. De acordo com o Ph.D David Mark, consultor em nutrição de performance, os corredores começam a maratona com uma taxa de queima de calorias de 150 por hora. Ele disse que “no momento em que eles começam a correr, estão em 700 a 800 calorias por hora”.

O corpo médio armazena 500 gramas de glicogênio, ou duas mil calorias de glicose. Em média, a cada 1,6 quilômetro, queima 100 calorias de glicose, de acordo com Mark. Isso quer dizer que, em 32 quilômetros, você queimou o seu suprimento inteiro. Isso é quando os corredores alcançam a famosa “parede”, também conhecida como o ponto quando você sente que não pode ir mais em frente.

Nesse ponto de esgotamento, o corpo de um corredor está dependendo basicamente de gordura e proteína como combustível. O coração, os tendões e os músculos do quadríceps precisam de mais ajuda a cada quilômetro e têm mais dificuldade em conseguir oxigênio.

Correr uma maratona é meio como passar o seu corpo por um moedor de carne.

Mas existe um jeito de desviar da parede. O Ph.D. John Hadcock trabalha como diretor sênior de uma empresa de farmacologia e é um corredor da Maratona de Boston que está indo para a sua sétima edição. Ele disse ao Gizmodo que a forma mais eficiente para os corredores treinarem é “correr lentamente a primeira parte da maratona” e manter um ritmo constante. Dessa forma, seus corpos queimam gordura extra e usam apenas cerca de 80 calorias de glicose a cada 1,6 quilômetro, guardando “um pouco mais” para o final da maratona.

Muitos corredores passam a sexta-feira e o sábado à noite anteriores se abastecendo de carboidratos em jantares de macarrão. Hadcock disse que “três dias antes da maratona, nós começamos a comer carboidratos, muito pouca gordura e um pouco de proteína. Isso mantém abastecidos os músculos na forma de glicogênio”.

Tem outro motivo para os corredores quererem evitar ficar sem glicose, além da “parede”. O glicogênio é armazenado nos músculos e no fígado, com 500 gramas sendo o teto do que pode ser armazenado. A hipoglicemia, ou pouco açúcar no sangue, é evitada no meio do percurso conforme os corredores pegam géis açucarados e isotônicos como Gatorade. Em raras ocasiões, a hipoglicemia pode fazer um corredor desmaiar. Por outro lado, muitos géis podem aumentar demais os níveis de glicose, causando dores de cabeça e náusea.

Mudanças no seu coração e fluxo sanguíneo

Muitos corredores treinam para correr de acordo com sua frequência cardíaca. Adultos geralmente têm uma frequência cardíaca de 60 a 100 batidas por minuto, enquanto atletas treinados e corredores de resistência têm frequências cardíacas mais baixas, cerca de 40 a 60 batidas por minuto. Se um corredor treina a 140 batidas por minuto, ele ou ela geralmente querem permanecer nessa taxa ao longo de maioria da maratona, até a arrancada final.

O Dr. Gregory Lewis disse ao Gizmodo que estudos descobriram que a câmara direita do coração dilata desproporcionalmente à câmara esquerda durante a corrida, com o ventrículo esquerdo “aguentando o peso” da maratona. Pesquisadores também observaram que os corredores criam o subproduto troponina dentro de suas células coronárias, que são usadas pelos médicos para descobrir se alguém teve algum dano no coração seguido de um episódio cardíaco.

Em raras circunstâncias, a troponina pode indicar que um corredor está correndo risco de ter um ataque cardíaco. De acordo com um estudo de 2012 publicado no New England Journal of Medicine, cardiomiopatia hipertrófica foi a maior causa de mortes em um conjunto de 59 corredores que sofreram paradas cardíacas. A informação foi obtida em um banco de dados de mortes cardíacas durante maratonas de 1 de janeiro de 2000 até 31 de maio de 2010.

Por mais que a condição do seu coração seja uma consideração importante se você está pensando em correr uma maratona, existe a ideia errada de que os corredores têm pulmões maiores. “Pulmões não são particularmente dinâmicos e não são um problema tão sério para o sistema cardiovascular”, Lewis disse. Ele explicou que o sangue se redistribui durante uma maratona, com mais sangue indo primariamente para o cérebro, coração, músculos e para os órgãos abdominais.

Dano muscular e de juntas, exaustão e chegar à “parede”

Muitos espectadores verão corredores curvados ao longo da maratona, ainda mais próximos à linha de chegada. De acordo com Hadcock, isso é causado por um aumento da quantidade de lactato em seus músculos, que resulta em cãimbras. Lactatos se acumulam quando um corredor queima a glicose a uma taxa maior do que recebe oxigênio, por exemplo, durante o arranque final.

O final da maratona também é quando os efeitos do dano de tecido muscular e das juntas começam a surgir. De acordo com Mark, esse dano é inevitável. “Especialmente quando há uma subida ou descida”, ele disse ao Gizmodo. “Seus pés estão amortecendo cada passo”.

“Quando chega em 25 ou 30 quilômetros, você vai sentir cada vez mais”, acrescentou.

“É basicamente dor nos nervos e músculos, do desgaste. Quando você chega à parede, é a mente que manda.”

Na infame Heartbreak Hill, a última das quatro colinas próximas a Boston, isso tudo fica bem pior. Chegando à Heartbreak Hill (no quilômetro 32), os corredores estão exaustos e chegam à famosa “parede”. Nesse ponto, Mark disse, “você quase exauriu suas reservas de carboidratos, e o açúcar do seu sangue está despencando. Você está correndo com o tanque quase vazio. O cérebro só consegue operar com glicose, então as pessoas começam a perder o foco, ficar com a visão embaçada e a ir mais devagar”.

Frank Biello Jr, de 36 anos de idade, está correndo sua segunda Maratona de Boston. Ele descreveu o trecho final para o Gizmodo: “É basicamente dor nos nervos e músculos, do desgaste. Quando você chega à parede, é a mente que manda. Você precisa fazer o que conseguir para manter sua mente focada em todo o resto e se manter positivo.”

Isso é facilitado pela torcida, que se torna cada vez maior ao final da maratona. Mais de 500 mil espectadores enchem as ruas para incentivar seus entes queridos e celebrar a resistência do corpo e do espírito humanos.

Imagem do topo: Elena Scotti/Gizmodo/GMG, fotos via Shutterstock

Sarah Betancourt é uma repórter baseada na Nova Inglaterra e ex-contribuinte para o Jornalismo Investigativo da Universidade de Columbia. Siga ela em @sweetadelinevt.