O sonho de todo motorista: um veículo que nos leve aonde quisermos, toque a música perfeita para o momento e permita que nos comuniquemos com o mundo externo, tudo isso com o mínimo de distração. É a visão do carro conectado, e uma promessa que muitas fabricantes esperam concretizar em 2015.

Mas estamos mesmo próximos desse futuro? Quão próximos? Semana passada, passei um pente fino no Salão do Automóvel de Los Angeles com Ron Montoya, editor de consumo da Edumunds.com, entrando e saindo de um punhado de carros, mexendo em várias telas sensíveis a toques e, em alguns casos, sincronizando nossos próprios smartphones com a próxima geração de veículos conectados para decidir quais desses sistemas recomendaríamos aos nossos leitores.

Os carros conectados de amanhã

Para um determinado tipo de consumidor de carros, essas tecnologias serão tão importantes quanto o test drive. “Você certamente quer sentir o carro por si mesmo, mas testar a tecnologia dele é tão importante quanto”, diz Montoya.

Para os carros de 2015, essa tecnologia será ou um sistema de “infoentretenimento” personalizado ou basicamente um app matador: sincronizar o carro com o sistema do smartphone do condutor, como os recém-anunciados Android Auto e Apple CarPlay. Alguns carros inteligentes oferecerão as duas opções.

Outra grande novidade para ano que vem é que as opções de controle por voz, hands-free serão padrão em carros conectados – ao menos nos EUA. Todos os carros de 2015 que vimos tinha esse carinha em algum botão do painel ou volante:

Controle por voz

O objetivo aqui é viabilizar o carro para que ele faça tudo que você quiser sem que um botão sequer precise ser apertado. Mas até que todos os carros nos entendam tão bem quanto o K.I.T.T. da Super Máquina, precisaremos também de telas sensíveis a toques, justamente o ponto onde os designers quase sempre nos decepcionaram, como vocês verão abaixo.

As fabricantes parecem não chegar a um consenso sobre como as telas sensíveis a toques devem ser e (estranhamente) se elas devem mesmo ser sensíveis a toques. Isso porque essa interface é notoriamente difícil de usar enquanto se dirige. Exemplo: depois que a Ford anunciou seu sistema seria totalmente touchscreen, eles voltaram atrás e colocaram botões de volume em 2013.

Mas eis o maior problema com todos esses sistemas: “Existe muito ego nas empresas de carros”, diz Montoya. Cada uma quer seu sistema proprietário, com seu próprio design, o que significa que quase todas as fabricantes estão reinventando a roda. Cada sistema embarcado tem sua própria (e longa) curva de aprendizado.

Além disso, por que quereríamos aprender como interagir com uma interface, touchscreen e sistema de controle por voz completamente novos quando temos nossos smartphones, tão confortáveis e familiares? Digno de nota, a GM está atrasando seu programa de carros conectados, provavelmente para ver como todo o cenário do Android Auto/Apple CarPlay se desenrola.

Aqui estão sete novíssimos sistemas embarcados para carros, mais duas soluções via acessórios, com as nossas recomendações.

Android Auto | Hyundai

Android Auto Hyundai

Uma das demonstrações mais aguardadas do evento era o Android Auto. O Google liberou a API semana passada e está encorajando desenvolvedores de apps a criarem conteúdo relevante para o sistema, então você em breve verá apps de música, notícias e mensagens, além daqueles que já vimos do Spotify e Google Play.

Uma longa lista de fabricantes sinalizou suporte ao Android Auto, mas o vimos instalado em um Sonata 2015, da Hyundai, onde uma generosa tela sensível a toques no centro do painel permite que você interaja ou o controle por voz, invocando o “Ok, Google”.

Android Auto Hyundai mapas

É aqui que a convergência smartphone/carro fica deliciosa. Usando o Google Now, ele sabe todos os seus destinos, agenda, contatos etc. Imagine que você entre no carro e tenha uma reserva em um restaurante, ou um voo marcado. O sistema lhe dará as direções e lhe dirá quando partir para chegar no horário marcado.

Sim, definitivamente a melhor parte do Android Auto é, sem surpresa, os mapas. Lindos mapas, navegação incrível, melhor do que qualquer sistema proprietário. E a interface é totalmente familiar, então isso deve contar pontos para mantê-lo mais seguro atrás do volante. Seu smartphone precisa ter o Android 5.0 Lollipop e, se for o caso, ele parelha automaticamente assim que você entra no carro.

Apple CarPlay | Hyundai

CarPlay Hyundai

A alguns metros de distância, o mesmo Sonata 2015 da Hyundai rodava o Apple CarPlay, que exige iOS 7.1 ou mais novo e um cabo Lightning para conectar. Você provavelmente já viu algumas demonstrações online disso, mas foi a primeira vez que eu pude brincar com o CarPlay ao vivo.

Devo dizer que ele pareceu muito mais fiel à experiência Apple do que a Android, mais como se meu iPhone ou iPad estivesse ali comigo no carro. Eu uso um iPhone no dia a dia, então imediatamente me senti confortável ao interagir por voz, graças à inteligência da Siri – para o bem e para o mal. Enviamos mensagens, ouvimos direções curva-a-curva, descobrimos músicas, sem problemas.

Embora a experiência pareça muito mais integrada do que a do Google, o CarPlay não parece tão esperto quanto o Android Auto. Os mapas não chegam perto da qualidade ao dirigir. E como a Apple não liberou uma API pública ainda (ela está trabalhando apenas com alguns desenvolvedores no momento), não haverá muitas opções de apps quando esse carro estiver à venda.

Mas esse não é um motivo para trocar de sistema no seu carro – você estará bem servido com qualquer um que te deixe mais confortável. A Hyundai está trabalhando para acomodar ambos e sua tela simples é fácil e adorável de interagir. Além desse, Volvo e Mercedes também trabalham com carros compatíveis com o CarPlay. Eles devem chegar ao mercado em breve.

Virtual Cockpit | Audi

Virtual Cockpit Audi

Uma das abordagens mais futuristas em termos de tela é o Virtual Cockpit da Audi, que leva toda a ação direto a uma enorme tela colorida atrás do volante. Você pode alterá-la de um painel mais tradicional para uma tela focada em música e, ainda, um sistema de navegação colorido, tudo com um simples clique em um botão no volante ou um toque na clickwheel no centro do console (mais sobre isso abaixo).

Embora temesse que isso fosse ser uma enorme distração, rapidamente notei que não ter que olhar à direita para outra tela o tempo todo era, na verdade, bem legal, e ter o mapa direto ali, uma grande vantagem sobre outros carros.

Clickwheel Audi

Depois de duas demonstrações totalmente baseadas em telas, chegou a ser engraçado o quanto gostamos da clickwheel. Como o Montoya notou, é bem difícil julgar suas ações quando você está tocando em uma tela. Sim, dá para usar a voz e quase todos esses carros podem ser controlados por botões no volante, mas às vezes tudo o que você precisa é de um feedback tátil.

Um problema do sistema da Audi é que a parte de rádio/música permanece atrás do volante, sempre. Não há uma tela extra para os passageiros verem o que está rolando, o que dificulta a eles controlarem o som do carro (mas talvez seja uma boa no seu carro). O Virtual Cockpit estará disponível em todos os modelos TT da Audi para 2015.

Remote Touchpad | Lexus

Remote Touchpad Lexus

A Lexus prometeu fazer algumas atualizações impressionantes em seu sistema, mas não consegui aproveitar nenhuma delas porque a interface foi muito mal projetada. Os ícones que meu termostato mostra em casa são mais legíveis e o pequeno mousepad no centro do console parece ter saído direto dos anos 1990. Pior, ele sequer é responsivo; era como se eu estivesse jogando Ouija com algumas forças invisíveis dentro do carro. Próximo.

XC90 Tablet Infotainment Screen | Volvo

XC90 Volvo

Uma das melhores experiências foi encontrada no Volvo, onde uma nova tela de “infoentretenimento” está incorporada ao console central. Como no Virtual Cockpit da Audi, parte da navegação foi movida para trás do volante, onde você tem direções decentes junto com o resto das informações digitais do painel.

XC90 Volvo tela

Diferentemente do Virtual Cockpit, além disso tudo você ainda tem uma tela no centro do console, uma das maiores e mais bonitas que já vi em um carro (é bastante parecida com a dos Teslas, embora as deles sejam maiores). Enquanto tocávamos felizes nesse telão, não conseguimos não imaginar como será legal quando ela receber o CarPlay, o que acontecerá em algum ponto de 2015. (Para uma prévia, veja isto aqui.) Haverá suporte, também, ao Android Auto.

Control Knob With Touchpad | Mercedes

Control Knob Mercedes

O novo sistema de carro conectado da Mercedes estará disponível nos carros Classe C e S para 2015 e você já pode ver como esses mesmos carros suportarão o Apple CarPlay. Uma tela que se sobressai, ficando acima do painel quase como se tivesse sido acrescentada posteriormente, mas que foi projetada dessa forma para ficar mais visível. Segurança em primeiro lugar! A navegação foi bem boa e embora o controle por voz tenha se saído um pouco irregular, ele cumpre o serviço. Conseguimos encontrar um post de combustível no caminho sem muita dificuldade, ou esquisitices.

Control Knob Mercedes mouse

 

O segredo cruel escondido ali na tela? VOCÊ NÃO PODE TOCÁ-LA. O que se traduz em dois botões no console central. Apesar de não termos odiado, achamos eles meio desengonçados. Você pode navegar pela tela tanto com uma clickwheel parecida com a do sistema da Audi, ou com uma espécie de mouse que fica sobre ele. Isso é meio bobo. Novamente, o feedback tátil da clickwheel é bem bom, mas por que não podemos tocar na tela, Mercedes?

IntelliLink/MyLink | GM/Chevrolet

IntelliLink MyLink

Conhecido por dois nomes diferentes dependendo do tipo de carro em que você se encontra, o MyLink da Chevrolet/IntelliLink da GM tem um punhado de recursos bacanas que o coloca acima da maioria de outros sistemas mais pomposos. Começa que a GM consegue transformar o seu carro em um ponto de acesso Wi-Fi, o que significa que os passageiros podem ficar online (você precisa de um plano de dados, obviamente).

Isso também significa que o carro pode baixar atualizações de software e instalá-las sozinho. Imagino que esse procedimento em outros carros exija uma visita à oficina da montadora. A outra coisa muito legal da GM é que ela está instalando comunicação entre veículos em todos os carros – um importante primeiro passo em direção à autonomia.

IntelliLink MyLink tela

Além disso, consegue facilmente emparelhar meu iPhone com o carro (sem baixar apps, só com o Bluetooth) e enviar e receber mensagens de forma bem prática. Uma estranheza é que você precisa usar respostas pré-programadas porque, você sabe, distração, segurança etc. O design não é dos mais sofisticados, mas esse sistema será padrão em todos os modelos 2015, o que mostra como a GM/Chevrolet está comprometida com a tecnologia.

Os outros

Outros dois sistemas foram anunciados essa semana. Não conseguimos testá-los. Primeiro o app JustDrive da Jaguar Land Rover, que permitirá aos motoristas usar controles de voz dentro do sistema InControl do carro para acessar seus próprios apps hands-free. E o segundo é o HondaLink, que transforma seu smartphone em um “hub digital” para o carro. Posteriormente, descobri que ele exige quatro apps (um deles, de US$ 60) e um cabo especial HDMI-Lightning que custa US$ 100.

Opções de acessórios

Disse, no início, que não havia jeito de ter o CarPlay em um carro novo comprado hoje. Bem, não é exatamente verdade. Existe duas opções de acessórios de player automotivo que você pode instalar e que conversam direito com o CarPlay: o iLX-007 da Alpine e o AVIC-X8000NEX da Pioneer.

Ambos conseguem executar o CarPlay de forma muito parecida com o que vimos integrado no carro da Hyundai. Eles custam caro (entre US$ 800 e 1.400, mais a instalação) e como Montoya apontou, existe o risco de ter essas coisas roubadas da mesma forma que rola com sons automotivos instalados por fora. Para quem não liga para o risco e quer ter um carro conectado agora, investir num desses é a saída.

O que nos leva a outro ponto que eu e Montoya conversamos enquanto deixávamos o salão: algum dia escolheremos nossos carros baseados na qualidade da integração com o nosso sistema operacional preferido, que estão rapidamente se tornando “painéis de estilo de vida” em vários dos dispositivos tecnológicos que usamos diariamente?

Talvez. Mas o maior problema é que essas empresas estão tentando acrescentar muitos recursos à experiência de dirigir. A resposta, na real, é começar a remover o que podemos fazer atrás do volante. “Existe uma coisa chamada sobrecarga cognitiva e já estamos exagerando na quantidade de coisas que conseguimos processar,” diz Montoya. “Muitos de nós somos péssimos motoristas”.