Uma estrela a 215 milhões de anos-luz de distância foi aniquilada por um buraco negro supermassivo. Este foi o registro mais próximo já feito de uma espaguetificação estelar.

“Espaguetificação” não parece um termo muito científico, mas é uma descrição bastante precisa do que realmente acontece.

Uma estrela presa na órbita de um buraco negro supermassivo acabará atingindo uma espécie de ponto em que a gravidade destrói tudo. Não sendo mais capaz de manter sua integridade física, a estrela começa a entrar em colapso rapidamente em um processo conhecido como um evento de perturbação de maré de evolução rápida.

Quando isso acontece, fragmentos estelares explodem da estrela, formando um longo e fino fluxo. Metade dele é sugada em direção ao buraco negro; a outra metade é soprada de volta ao espaço. A fina corrente eventualmente alcança e se choca contra si mesma, liberando energia e formando um disco de acreção.

Difícil de imaginar? Aqui está um vídeo mostrando o processo:

A destruição produz um flash de luz brilhante, que os astrônomos podem observar na Terra. Alguns desses eventos são capturados todos os anos, mas uma nova pesquisa publicada na Monthly Notices of the Royal Astronomical Society descreve o caso mais próximo de espaguetificação estelar já registrado, a 215 milhões de anos-luz de distância.

O evento, denominado AT2019qiz, foi registrado no ano passado e apareceu no centro de uma galáxia espiral localizada na constelação de Eridanus. A infeliz estrela tinha aproximadamente o mesmo tamanho do nosso Sol e foi dilacerada por um buraco negro supermassivo com cerca de 1 milhão de massas solares.

O evento foi inicialmente registrado pelo Zwicky Transient Facility, com observações de acompanhamento feitas com o Very Large Telescope do Observatório Europeu do Sul e o New Technology Telescope do Observatório Europeu do Sul (ESO) e o MMT Observatory de Harvard e da Smithsonian, entre outras instalações. Astrônomos rastrearam por seis meses a chama que se desvanecia. O novo artigo foi liderado por Matt Nicholl, pesquisador da Universidade de Birmingham.

Estrelas espaguetificadas tendem a ser difíceis de estudar porque muitas vezes ficam nubladas por grandes quantidades de poeira e detritos. Felizmente, esse não foi o caso com AT2019qiz.

Os pesquisadores descobriram que, “quando um buraco negro devora uma estrela, ele pode lançar uma poderosa explosão de material que obstrui nossa visão”, explicou Samantha Oates, astrônoma da Universidade de Birmingham, em um comunicado do ESO. Neste caso, no entanto, o AT2019qiz foi localizado logo após a estrela ser destruída, fornecendo uma visão clara do fenômeno.

“Como o pegamos cedo, pudemos ver a cortina de poeira e detritos sendo desenhada conforme o buraco negro lançava um poderoso fluxo de material, com velocidades de até 10.000 km/s”, disse Kate Alexander, astrônoma da Northwestern University e coautora do estudo, em um comunicado da Harvard & Smithsonian. “Esta ‘olhada por trás da cortina’ é única. Ela forneceu a primeira oportunidade de localizar a origem do material que obscurece [esses eventos] e acompanhar em tempo real como ele envolve o buraco negro.”

Isso permitiu que os cientistas detectassem o vazamento de gás quando a estrela foi rasgada em pedaços e seu material foi disparado em direção ao buraco negro. Este evento, que foi capturado em espectros ópticos, de raios-X, ultravioleta e de rádio, agora fornecerá um excelente estudo de caso para como a matéria se comporta em torno de buracos negros supermassivos.