No final de 2020, quando Sony e Microsoft lançaram seus respectivos consoles de nova geração, muita gente estranhou a rapidez com que PlayStation 5 e Xbox Series X|S sumiram das lojas online. E quando apareciam eram em sites de leilão, com preços chegando ao dobro dos valores originais cobrados pelos aparelhos. A demanda pelos videogames certamente foi alta, mas muita gente pode ter sido passada para trás por robôs cambistas. Melhor dizendo: os bots.

Há anos os bots são usados uma alternativa para automatizar inúmeros processos — a prática mais comum é em sistemas de resposta rápida de serviços e empresas. Só que de uns tempos para cá usuários mal intencionados estão empregando tais máquinas para compras massivas de produtos muito procurados. Os novos consoles estão na lista de alvos recentes, mas comerciantes já realizavam a mesma ação com passagens aéreas e ingressos de show.

Talvez você pense: se uma pessoa comprou muitas unidades de um produto e pagou por todas elas, tecnicamente não pode ser considerado como um golpe, certo? Na verdade, as coisas não são bem assim.

O que são bots e o que eles podem fazer

O termo “bot” é uma abreviação da palavra inglesa “robot”, que significa robô. Portanto, seu principal objetivo é automatizar determinados processos, simplificando o trabalho que uma pessoa de carne e osso teria no mesmo papel. Eles também suportam grandes volumes de dados e podem desempenhar mais de uma tarefa simultaneamente sem que isso prejudique a rapidez com as atividades são concluídas.

Aquela conversa que você teve com um “atendente” no site de uma loja? Provavelmente era um bot. Disparos de SMS instantâneos? Também. O próprio assistente de voz do seu smartphone pode ser considerado um desses robôs. Muitas plataformas que conhecemos já fazem uso desse tipo de tecnologia, incluindo Facebook, Messenger, Telegram e Amazon Alexa.

“O Google, por exemplo, usa robôs para exibir sites de maior relevância nas buscas. Os bots fazem uma varredura na internet a todo momento, buscando e agregando determinados conteúdos, e por último faz uma espécie de banco de dados das páginas até, finalmente, chegar a ferramenta que todo mundo conhece: o buscador”, explica Eduardo Casseano, arquiteto de segurança na nuvem da Akamai Brasil, em entrevista ao Gizmodo Brasil.

Imagem: Catie Keck/Gizmodo
Imagem: Catie Keck/Gizmodo

Por serem facilmente adaptáveis, os bots têm sido moldados por tecnologias de inteligência artificial e aprendizado de máquina, o que significa que podem ser construídos de acordo com a necessidade de cada negócio e vão aprendendo com o tempo conforme são mais utilizados. Em geral, esses bots são extremamente baratos e têm baixo custo de manutenção.

Além de nos ajudar, os bots também são usados para fins maliciosos. Algumas pessoas usam robôs para comprar seguidores nas redes sociais; outras, para criar milhares de perfis falsos , podendo gerar um falso engajamento que não tem a participação de pessoas de verdade. Em 2017, por exemplo, o Twitter teria 48 milhões de contas falsas, o que equivale a 15% da base total de usuários. No Facebook, a porcentagem é menor (10%), mas são mais de 260 milhões de contas falsas ou duplicadas.

Outra prática bastante comum é o uso de bots em ataques de negação de serviço — o famoso DDoS —, em que um hacker redireciona uma grande quantidade de robôs para um único local, a fim de sobrecarregar uma página web ou plataforma e retirá-la do ar devido aos inúmeros acessos. Para se ter uma ideia, o relatório State of Internet Report da Akamai estima que, de julho de 2018 a junho de 2020, foram realizados 63 bilhões de ataques por meio de robôs; desse total, 90% foram em sites de compra voltados para o consumidor final.

Enfim, são muitas as possibilidades quando o assunto envolve esses robozinhos. Não por acaso, em 2017 um relatório da Abrahosting, Associação Brasileira das Empresas de Infraestrutura e Hospedagem na Internet, verificou que cerca de 60% de todo o tráfego da internet brasileira era composto por bots.

E os bots de compra?

O princípio é exatamente o mesmo: utilizar dezenas de máquinas automatizadas para adquirir um produto que está sendo bastante procurado e evitar que um consumidor real efetue a compra. Depois, aqueles que fizeram a compra em massa inflam os preços oficiais e colocam os mesmos produtos à venda na internet, seja em sites de leilão, compra e venda direta ou até no marketplace de varejistas maiores. Basicamente, atuam como cambistas — mas com o poder da automação ao seu lado.

A quantidade de robôs capazes de desempenhar essa tarefa vai variar conforme a necessidade e investimento do comerciante. Quanto mais caro e sofisticado, mais difícil fica de identificá-lo como uma prática abusiva.

Imagem: Kamil S/Unsplash
Imagem: Kamil S/Unsplash

Como se tratam de robôs automatizados, é quase impossível competir de forma justa porque eles são mais rápidos do que as mãos humanas, e o processo de compra é quase que instantâneo. “A fraude sempre vai até o dinheiro. Esses eventos, como o lançamento de produtos populares, são um prato cheio para os robôs. O ser humano tem um limite no quão veloz ele consegue digitar e executar uma operação de compra. O robô vai fazer isso muito mais rápido e em larga escala”, conta o especialista da Akamai, Eduardo Casseano.

Isso já acontecia com a venda de ingressos de shows e promoções envolvendo passagens aéreas, mas se ampliou para a categoria de produtos, em especial os eletrônicos. Foi justamente o que empresas de cibersegurança observaram no final de 2020, quando Sony e Microsoft começaram a vender o PlayStation 5 e Xbox Series X|S: os dispositivos, que já tinham um estoque baixíssimo por conta da alta demanda e da falta de peças para fabricar unidades em larga escala, simplesmente desapareciam minutos depois de serem colocados à venda nas varejistas online.

No Walmart dos Estados Unidos, quando o varejista abriu as vendas do PS5 em dezembro do ano passado, robôs tentaram mais de 20 milhões de vezes, num período de 30 minutos, adquirir múltiplas unidades do console. Por lá, o uso de robôs cambistas não é proibido.

Na grande maioria das vezes, quem compra massivamente esses consoles são comerciantes de lojas menores que, sabendo da alta procura pelo produto e que as fabricantes não estão conseguindo produzir grandes quantidades, acabam elevando o preço original. E se eles colocam os aparelhos nesses valores acima da média, é porque muita gente acaba comprando esses dispositivos com preços inflacionados.

Fiz uma pesquisa rápida por algumas das principais varejistas do País, entre elas Submarino, Magazine Luiza, Amazon, Shoptime, Americanas e Casas Bahia. Nenhuma tem disponível tanto o PS5 quanto o Xbox Series X|S; o máximo que eu encontrei foram acessórios oficiais de cada console (headset, controle, câmera), mas todos vendidos oficialmente por essas empresas, e não por lojas de terceiros.

Já em plataformas de compra e venda direta, como a OLX, e de leilão, como o Mercado Livre, a coisa muda de figura. Os consoles estão à venda lá, mas por preços que chegam ao dobro do cobrado inicialmente pelas varejistas. No ML, o PS5 mais barato que eu encontrei custa R$ 7.000, e o mais caro quase R$ 10.000. Os valores sofrem uma variação absurda a cada dia — o mesmo anúncio primeiro cobrava R$ 8.300, mas no dia seguinte aumentou para R$ 9.200.

O Xbox Series X tem uma variação menor, custando em média R$ 7.000 na maioria dos anúncios. Ainda assim, é quase R$ 2.000 a mais do preço sugerido da Microsoft, de R$ 4.599.

Mas, pode?

Questionado pelo Gizmodo Brasil, o Mercado Livre disse o seguinte:

“O marketplace mercadolivre.com é uma plataforma cuja atividade principal é a disponibilização de um espaço virtual onde vendedores e compradores se encontram e realizam negócios entre si. A empresa ressalta que a disponibilização de espaços no site acontece somente após a aceitação dos Termos e Condições de Uso, que estabelecem as regras da plataforma. E informa que respeita a livre concorrência entre seus vendedores e que não faz gestão de preços – a não ser que seja um produto essencial – em situações extraordinárias.

A companhia trabalha sempre de forma a orientar os vendedores sobre a não adoção de preços abusivos na plataforma. Além disso, vale ressaltar que 100% dos anúncios publicados no site possuem um botão de ‘Denúncia’, abaixo da publicação, no canto inferior direito, para que qualquer pessoa possa apontar práticas contrárias. Diante de denúncia, os anúncios são analisados e removidos, e os usuários infratores podem ter seu cadastro inabilitado.”

Também fizemos algumas pesquisas na OLX, que não tem o mesmo funcionamento do Mercado Livre, mas ainda permite a compra e venda direta de produtos entre os próprios usuários. Inclusive, essa é a principal diferença: servir apenas como uma plataforma vitrine onde qualquer um possa anunciar, pesquisar ou adquirir produtos. Por lá, também é possível encontrar PS5 e Xbox Series X|S usados, porém com um valor abaixo daqueles que encontramos no Mercado Livre.

Procurada pelo Gizmodo Brasil, a assessoria da OLX enviou o comunicado:

“A OLX esclarece que a atividade da empresa consiste na disponibilização de espaço para que usuários possam anunciar e encontrar produtos e serviços de forma rápida e simples. Diariamente, em torno de 500 mil anúncios são inseridos na plataforma. Toda negociação é realizada fora do ambiente do site, portanto, a empresa não faz a intermediação ou participa de qualquer forma das transações, que são feitas diretamente entre os usuários. A OLX reforça que a ferramenta foi criada para auxiliar no desenvolvimento social e econômico do país e que os usuários devem respeitar os Termos e Condições de Uso do site.

A OLX também reforça que segurança é uma prioridade e a plataforma investe constantemente em tecnologia e serviços de orientação ao usuário, com indicação das melhores práticas de negociação. Os usuários contam também com dicas de negociação disponibilizadas de forma inteligente pelo chat da plataforma.”

Então é fraude ou não é?

Se uma pessoa, mesmo que equipada de um exército de robôs, efetuar a compra de um mesmo produto em grande quantidade e pagar por aquilo, na teoria o ato não poderia ser considerado uma fraude, certo?

Bom, não exatamente.

Gisele Truzzi, advogada especialista em direito digital da Truzzi Advogados, diz em entrevista ao Gizmodo Brasil que, se nos basearmos de acordo com o que está na legislação brasileira, esse tipo de atitude pode se enquadrar como um tipo de estelionato. Portanto, é sim fraude. Como reforça o artigo 171 do Código Penal Brasileiro:

“Obter, para si ou para outrem, vantagem ilícita, em prejuízo alheio, induzindo ou mantendo alguém em erro, mediante artifício, ardil, ou qualquer outro meio fraudulento.”

É nessa parte “obter, para si ou para outrem, vantagem ilícita” que os bots de compra poderiam ser encaixados. “A gente entende que a grande parte das fraudes, sejam elas online ou em outros meios, é na realidade uma forma de estelionato. Porque é exatamente essa obtenção de uma vantagem indevida, em prejuízo de outra pessoa, que alguém perde ou deixa de ganhar algo para que outra pessoa ganhe mais”, diz Truzzi. Ela afirma ainda que a caracterização do delito é exatamente a mesma do estelionato porque o usuário ou comerciante não está fazendo uma compra individualizada, como qualquer outra pessoa faria.

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Segundo a advogada, nem o Código de Defesa do Consumidor (CDC), nem a legislação brasileira, possuem uma lei voltada especificamente para criminalizar o uso de bots para compras massivas. O mais perto disso é o artigo 39 que aborda as práticas abusivas — vedações contra compras que são praticadas para prejudicar (direta ou indiretamente) o consumidor. Eventualmente, o fornecedor de um produto ou serviço pode ser enquadrado nessa questão caso não atendam aos requisitos desse artigo. É também no artigo 39 que se encontra o inciso 10, que não autoriza a elevação do preço de produtos e serviços sem uma justificativa.

O artigo 61 do CDC também lista uma série de delitos sobre os crimes contra as relações de consumo praticados contra o consumidor. “Embora não haja nenhum crime específico que detalhe o uso de bots, eu entendo que só a utilização desses robôs já seria enquadrada como uma prática abusiva. Seja pelo próprio uso dos bots, como também pelo fato de inviabilizar os itens para compra direta dos demais consumidores. Além disso, a revenda dos produtos por valores elevados pode gerar um efeito cascata no mercado de consumo que, dependendo da situação, pode gerar um aumento massivo de preço nas lojas como um todo”, completa a Truzzi.

E as empresas como Mercado Livre e OLX ficam como nessa situação? Segundo a advogada, “pode haver responsabilização por parte das companhias que cedem seu espaço para o marketplace de terceiros caso seja constatado que as empresas estão cientes que os comerciantes estão comprando por conta desse esquema [de bots]”. No entanto, cada caso precisa ser analisado individualmente e com muita cautela.

O que é possível fazer?

Do lado dos robôs, é praticamente impossível exterminá-los por completo na internet. E, na realidade, não é isso o que empresas de segurança desejam. Segundo Casseano, o principal objetivo é criar ferramentas que se moldem de acordo com o a finalidade dos bots, para então reduzir o seu alcance ou evitar que fraudes ou ações suspeitas aconteçam com tanta frequência.

O especialista da Akamai explica que não existe solução perfeita. O que é possível fazer é combinar mais de uma solução para que as empresas tenham uma visibilidade total da ameaça e desenvolvam formas de contra-atacar. “As vezes nem é interessante bloquear [o operador do robô]. Em contrapartida, se você atrasar os processos conduzidos por ele, como deixá-lo esperando muito tempo em uma ação ou confundi-lo, você tende a diminuir ou encerrar a rentabilidade daquela operação”, afirma.

“Isso é um jogo de gato e rato: as empresas lançam uma proteção, o operador do robô a descobre e cria uma solução para contornar essa segurança. Nesse cenário, o que vale é o quão rápido você detecta e age diante de uma fraude, pois esse é um ciclo repetitivo para que você monitore, entenda e tome uma atitude que pode não ser definitiva, mas será eficaz”, diz.

Já para o usuário final, a sugestão é procurar órgãos de defesa do consumidor para denunciar as práticas abusivas. “Se o consumidor perceber que isso está de fato ocorrendo e for prejudicado ou potencialmente lesado nesse sentido, ele pode documentar provas da situação (como capturas de tela da página da loja, por exemplo) para demonstrar que o produto estava disponível e alguns minutos depois não estava mais. Também cabe registrar um boletim de ocorrência, seja online ou na delegacia de crimes eletrônicos do estado, ou ainda denúncias ao Procon, ao Ministério Público e à promotoria de defesa do consumidor, que analisam exatamente essas práticas abusivas”, destaca Truzzi.

A advogada também sugere que o consumidor sempre faça pesquisas de preços em canais oficiais, e de preferência com o modo de navegação anônima do navegador ativo, além de não comprar por impulso, nem cair em armadilhas de links patrocinados e anúncios nas redes sociais. “O ideal é pesquisar voluntariamente os valores e verificar em sites confiáveis de comparação o histórico de preço daquele produto. Assim, o consumidor pode checar se houve picos de diferença de valor para valor”, completa.