A Antártica é uma terra realmente inóspita, com temperatura média de -56º C no interior do continente. Precisamente onde um grupo de intrépidos cientistas norte-americanos cavaram 3405 metros de gelo, em um esforço para pesquisar o equivalente a uma era de mudanças climáticas. Para isso, eles usaram essa máquina nuclear única.

A divisão da placa de gelo oeste da Antártica (WAIS, na sigla original) é uma área única ao sul do continente. Localizada no lado sudoeste da Antártica, é parecida com a divisa da América do Norte no sentido de que ela marca o local na placa de gelo onde as duas metades começam a se inclinar para direções opostas. A neve ao longo dessa divisa se move muito pouco, o que a torna ideal para a extração de uma amostra do núcleo para a produção de dados precisos e antigos.

“O local foi selecionado porque é o melhor do mundo para se ter um registro de vestígios mais precisos dos gases do efeito estufa que vão até 40 mil anos atrás. Ele também é o melhor lugar na Antártica para se obter um registro climático para comparar com os registros climáticos dos núcleos de gelo da Groenlândia,” Ken Taylor, cientista chefe da WAIS Divide com o Instituto de Pesquisa no Deserto, em Nevada, explicou ao The Antarctic Sun. “Queríamos obter amostras super precisas de modo que pudéssemos compará-la aos núcleos de gelo da Groenlândia. Também queríamos essas amostras/vestígios mais precisos para entender a influência que mudanças nos gases do efeito estufa têm na alteração do clima.”

Fundado pela Fundação Nacional de Ciência e mantida pelo Programa Antártico dos Estados Unidos, o projeto de perfuração profunda da WAIS Divide tem por objetivo fazer um furo na base da placa de gelo WAIS. Depois, os cientistas extrairão um único núcleo de gelo de 3400 metros que dará uma amostra sem precedentes de como o clima da Terra mudou nos últimos 100 mil anos.

Para conseguir esse feito, o time da WAIS Divide teve que desenhar e construir uma máquina de perfuração personalizada — nenhuma tecnologia existente poderia ser adaptada para aquele ambiente hostil e que atendesse as especificações científicas. Então, em 2002, um time de engenheiros e técnicos da Universidade de Wisconsin-Madison construíram a broca Deep Ice Sheet Coring (DISC), uma máquina singular capaz de cortar e extrair núcleos de 122mm de largura de buracos de 4000 metros de uma placa de gelo.

A construção da broca inclui uma sonda, cabo, torre e guincho. A sonda tem 2,7 metros de comprimento e uma cabeça cortante, composta de quatro peças em rotação que atuam para cortar um núcleo sólido do invólucro da placa. Ela é baixada no eixo através de um cabo de 15mm de espessura, onde ele remove um núcleo de 2,4 metros de comprimento e 12,2cm de largura. Quando a sonda é retraída, ela quebra o núcleo em sua base e puxa-a de volta ao eixo, onde é extraída da máquina. Dali, os núcleos são empacotados e despachados, rapidamente, ao freezer-arquivo central da NICL, em Denver, Colorado, um congelador gigante de 5 km² que nunca fica mais quente do que -36º C.

Levou cinco anos para a perfuração (em 45 trechos durante o inverno na Antártica) para chegar à marca recordista de 3405 metros. A escavação mais profunda dos EUA anterior tinha sigo um mergulho na Groenlândia de 3053 metros, em 1º de julho de 1993. “Esse não só é o núcleo de gelo mais profundo já perfurado pelos EUA, mas na realidade nós chegamos à profundidade pretendida nessa estação, o que significa que o projeto está… dentro do cronograma,” disse Julie Palais, gerente do programa para a Glaciologia Antártica no Comitê de Programas Polares da Fundação Nacional de Ciência. O recorde mundial de perfuração, porém, um buraco de 3701 metros no lado oriental da Estação Vostok, na Antártica, pertence à Rússia. [WAIS Divide 1, 2Polartec – Wikipedia 1, 2 – Antarctic Sun 1, 2]