Um parasita comum que se espalha pela carne de porco mal cozida pode afetar os gatos de forma mais preocupante do que se suspeitava anteriormente. Uma nova pesquisa sugere uma ligação entre a infecção por Toxoplasma gondii e um risco aumentado de câncer no cérebro. Neste ponto, no entanto, os cientistas ainda não têm certeza se há uma relação direta de causa e efeito, e o risco geral de câncer no cérebro ainda é muito baixo.

O T. gondii é conhecido por seus efeitos em roedores, um de seus hospedeiros intermediários naturais. Nesses animais, os parasitas unicelulares os estimulam a se tornarem imprudentes diante do perigo, fazendo com que não evitem mais o cheiro de urina de gato. Os roedores – e seus parasitas – tornam-se, assim, mais propensos a serem engolidos por um felino, permitindo que os parasitas alcancem seu hospedeiro felino primário e atinjam a idade adulta completa. Eles então se reproduzem e criam uma nova geração de ovos que são defecados pelo gato no meio ambiente, reiniciando o ciclo de vida. Os humanos são um espectador infeliz nesse processo, sendo infectados por contato próximo com cocô de gato ou comendo carne (geralmente porco) contaminada com cistos de T. gondii.

As infecções agudas por T. gondii em humanos podem ser graves para aqueles com sistema imunológico enfraquecido ou para os recém-nascidos que contraíram quando ainda estavam no útero. No caso da maioria das pessoas, porém, uma infecção aguda não causa sintomas, enquanto algumas podem desenvolver sintomas leves, semelhantes aos da gripe, por várias semanas.

Historicamente, pensava-se que esses sintomas agudos eram a extensão do dano que o T. gondii pode nos causar. Mas, recentemente, os cientistas descobriram uma conexão intrigante entre o parasita e os efeitos neurológicos sutis nas pessoas, auxiliados pelo fato de que os cistos podem sobreviver silenciosamente no corpo, incluindo o cérebro, por décadas. As infecções crônicas por T. gondii têm sido associadas a um risco aumentado de esquizofrenia, diminuição da cognição e mudanças comportamentais, como imprudência e agressão. Este novo estudo, publicado no International Journal of Cancer, indica que certos tipos de câncer de cérebro talvez precisem ser adicionados à lista também.

Imagem de um cisto de tecido de T. gondii sob um microscópio. Imagem: CDC

Os pesquisadores analisaram dados de projetos de pesquisa que rastreiam a saúde das pessoas ao longo do tempo, incluindo um estudo de longa duração sobre prevenção do câncer conduzido pela American Cancer Society. Eles focaram especificamente em pessoas que mais tarde foram descobertas com gliomas, a forma mais comum de câncer no cérebro. Como parte do exame inicial, os voluntários forneceram amostras de sangue que foram testadas para anticorpos para vários germes, incluindo T. gondii.

Quando os pesquisadores compararam pessoas que desenvolveram gliomas nesses estudos com pessoas semelhantes que não tiveram, eles descobriram que o grupo dos gliomas tinha uma chance maior de ter anticorpos contra o T. gondii. No geral, a presença de T. gondii foi associada a um risco mais de duas vezes maior de glioma. Em pessoas com os níveis mais altos de um tipo específico de anticorpo para T. gondii, o risco associado era três vezes maior. Cerca de 350 pessoas com glioma, incluindo pessoas com mais de 70 e menos de 40 anos, foram estudadas, com riscos associados semelhantes observados em ambos os grupos de idade.

Outros estudos descobriram uma ligação semelhante entre T. gondii e câncer no cérebro. No entanto, de acordo com os autores, essa é a primeira evidência do que é conhecido como pesquisa prospectiva, que é quando as pessoas são observadas antes de desenvolverem a doença que está sendo estudada. Isso é importante, porque os cientistas podem saber claramente que a coisa A – neste caso, a infecção por T. gondii – acontece antes da coisa B – câncer no cérebro. Isso por si só não pode provar que o T. gondii ajuda a causar câncer no cérebro, mas é a evidência que torna a conexão mais provável de ser real.

“As descobertas sugerem que indivíduos com maior exposição ao parasita T. gondii têm mais probabilidade de desenvolver glioma”, disse a autora do estudo Anna Coghill, pesquisadora do Moffitt Cancer Center, em um comunicado divulgado pela American Cancer Society. “No entanto, deve-se observar que o risco absoluto de ser diagnosticado com um glioma permanece baixo e essas descobertas precisam ser replicadas em um grupo maior e mais diverso de indivíduos.”

Estima-se que haja cerca de 24.000 novos casos de câncer no cérebro nos EUA anualmente, representando cerca de 1% de todos os cânceres. Enquanto isso, acredita-se que 11% dos americanos com mais de seis anos sejam portadores de T. gondii, ou seja, mais de 30 milhões de pessoas. Isso significa que, mesmo que essa conexão seja real, as chances de desenvolver câncer no cérebro como resultado da infecção crônica por T. gondii são muito baixas em nível individual. Da mesma forma, nem todo mundo que desenvolve glioma terá T. gondii, e há pessoas com T. gondii que teriam contraído câncer no cérebro mesmo se a infecção nunca tivesse acontecido – o risco de câncer é algo muito complicado.

Ainda assim, esta é a pesquisa mais recente a sugerir que infecções ocultas no corpo e no cérebro podem influenciar nossa saúde muito depois de sermos contaminados.