Na papelada que mandou à Anatel para homologar o iPhone 5, a Apple revelou o manual do novo aparelho. Nele há instruções de como usar o assistente de voz (que chamo de a Siri, por ter voz de menina) em português, uma novidade que não havia no iPhone 4S vendido aqui – conforme noticiou o MacRumors. Mas será que estamos próximos de ter essa funcionalidade? Como será a voz dela? Por acaso nós descobrimos: eis o primeiro vídeo da Siri brasileira.

Assim. Estava nos EUA no último fim de semana e depois de conseguir o iPhone 5 comecei a fazer alguns testes. Habilitei a Siri e perguntei (em inglês) meio dúzia de coisas. Quando pedi um caminho, a resposta foi em inglês, mas o aplicativo de mapas, ao ser lançado, rodou 100% em português, com aparentemente a mesma voz meio robótica do limitado “assistente de voz” de hoje. Como é preciso ter a Siri ativa para receber as instruções curva-a-curva no mapas, concluí que, bem, a assistente em português estava pronta e se saiu muito bem ao me guiar pelos caminhos de Miami (mais detalhes abaixo). Obviamente não consegui reproduzir a façanha aqui no Brasil. O que acontece? O que falta para termos essa funcionalidade bacana, ainda que subutilizada, no Brasil?

Ainda não sabemos. Aparentemente ainda não há todos os dados em português, apenas mapas dos EUA, apesar de o manual enviado à Anatel ter exemplos da Siri bem regionais, do tipo “Quando é o primeiro jogo do Flamengo no campeonato?” (é sério, isso está lá no manual, e o MacMagazine pinçou outros bons exemplos da Siri com a ginga brasileira). Normalmente é necessário um update incremental para adicionar idiomas compatíveis à Siri. Então faz sentido que no iOS 6.1 a funcionalidade seja acrescida – o assistente já está disponível em nove línguas, e ela responde que está estudando “outras”. O nosso palpite é que essa atualização virá no fim de outubro para dar suporte ao iPad Mini, então o iPhone 5 brasileiro (e o iPhone 4S, por conseguinte) estaria apto a conversar com o usuário a partir do lançamento.

Nós falaremos das funcionalidades que serão traduzidas e quão inteligente será a Siri brasileira assim que soubermos mais dela. Por ora, gostaria de falar um pouco da surpreendente experiência de andar com um iPhone 5 falante em português como copiloto.

UPDATE: Esclarecendo: Em todos os países onde a/o Siri está disponível no iOS, a voz do app “Mapas” de navegação curva-a-curva é dessa assistente. Então fizemos essa extrapolação lógica (não-confirmada pela Apple, bom que se diga): quando tivermos Siri aqui (em breve), é factível crer que será esta a voz, a tal “Raquel” de alguns GPSs, do Mac OS e do próprio assistente de voz do iOS, hoje. Quando dizemos no título que a “Siri já fala português” é porque acreditamos que esta voz será a final. Obviamente ela não funciona completamente porque não há a opção “português” ainda nas configurações da Siri – e falar é só um pedaço (o mais fácil, é verdade) do que a assistente faz.

Navegando com os mapas da Apple e a Siri em PT-BR

Mesmo (ou melhor, especialmente) quem não é dono de iPhone já sabe todos os problemas do aplicativo de mapas incluído no iOS 6 para substituir o que era fornecido pelo Google: a visão por satélite é cheia de aberrações, não há suporte nativo para rotas de transporte público ou informações de trânsito e, especialmente no Brasil, faltam pontos de interesse e estabelecimentos comerciais (não há um único restaurante nas minhas adjacências que não esteja no mínimo do lado errado da rua, fora os que já fecharam).

São problemas nada desprezíveis, e para uma parte grande dos usuários dos mapas eles representaram um passo atrás – como discutimos longamente no último podcast. As falhas da Apple nesse quesito foram o foco do noticiário recente, e acabaram escondendo alguns aspectos bem interessantes da nova investida cartográfica da maçã, especialmente no que diz respeito ao uso do smartphone como copiloto no carro. A ausência da navegação curva-a-curva de fábrica, que os usuários de Android e mesmo Symbian já aproveitavam há anos, foi fundamental na decisão da Apple de apostar no seu próprio Apple ao invés de barganhar com o Google.

E, como você pode conferir no vídeo, há alguns detalhes bem sutis na navegação que são bons e notáveis quando se está dirigindo (coisa que não faço normalmente no Brasil): a paleta de cores é mais nítida; a emulação dos ícones das estradas evita confusão (se for uma interestadual, nacional ou Pikeway, é acompanhado do símbolo específico); e os nomes das ruas aparecem à medida que você vai passando em forma de plaquinhas. A seta que indica onde virar é maior, e nos EUA onde aparentemente a Apple pagou mais pelas informações cartográficas, é possível ver o ângulo aproximado da curva e se você vai virar cortando o cruzamento ou numa pista de mão dupla, por exemplo. Por mais que a tela do iPhone 5 seja “menor”, ela é mais legível. É uma opinião pessoal, é claro, e pessoas com hábitos diferentes de GPS podem gostar de outros padrões. O Anand Shimpi, do Anandtech, fez este vídeo interessante que mostra a diferença dos dois sistemas navegando lado a lado (o iOS 6 era beta, num iPhone 4S, e o Google Maps no HTC One X):

A voz no mapas do Google é bem menos artificial já no inglês. A Siri parece até cortar algumas palavras. Em português, a voz da Siri parece ser da Claudinha (de Giba & claudinha), e é menos natural, mas nada que comprometa. No iPhone, a assistente é bem menos tagarela, passando longos períodos em silêncio se tudo estiver indo como o planejado. No Google (ou menos no TomTom) é comum a repetição de indicações em pontos específicos (a 1km, a 500 metros, etc). Dependendo do seu nível de atenção e possibilidade de ler as instruções na tela, este ou aquele sistema pode ser melhor. Eu honestamente prefiro que ele fale menos, e achei bacana a integração com o aparelho de som do carro, com os fadeouts discretos. Como disse no vídeo, fiz duas viagens totalmente “de ouvido” e deu certo.

Outros detalhes técnicos que me chamaram à atenção foi a quantidade de mapas que o iOS é capaz de pré-carregar pelo Wi-Fi, sem necessidade de ativar o “download para navegação offline”. Em relação ao app de mapas anterior, o do iOS 6 usa até 5 vezes menos dados, e ao traçar a rota ele pega bastante informação de todo o caminho. Uma das viagens que fiz foi de mais de 50 km (boa parte dela numa interestadual, é verdade), e havia informações de mapas de todo o trajeto, inclusive no nível máximo de zoom (com os nomes dos estabelecimentos, por exemplo) no destino. Isso é bem útil exatamente na minha situação lá: um brasileiro nos EUA que estava usando um telefone sem chip local (portanto, sem acesso à rede de dados). O acerto do GPS com boa precisão sem nenhum auxílio das redes também foi digno de nota, e se deve provavelmente ao novo chip da Qualcomm para comunicações.

Resumindo, é isso: o aplicativo de mapas do iPhone 5 funciona bem nos EUA (e aqui também, em menor medida) se você souber para onde está indo, com o bônus das indicações em português. Para quem dirige bastante (o que não é o meu caso e de um monte de gente que tem iPhone, diga-se) a adição do curva a curva e a mudança para um visual mais leve e legível, vetorial, apontam para uma briga cada vez mais interessante com os já estabelecidos mapas do Google e da Nokia. Muito em breve teremos tudo da Siri em português do Brasil e esteja certo que faremos muito mais testes. Dúvidas? Conjecturas? Teorias? Comparações? Perguntem aí nos comentários que responderei o que puder.