No dia 12 de outubro de 1983, Bill Landreth ligou para o amigo Chris, que morava em Detroit, para bater um papo. Chris explicou freneticamente que o FBI tinha invadido a casa dele e disse “não me ligue mais”, no que acabou sendo uma conversa brevíssima. Bill não sabia exatamente o que estava acontecendo, mas ele sabia o seguinte: se o FBI tinha ido atrás de Chris, ele poderia ser o próximo.

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No dia seguinte, cerca de uma dúzia de agentes do FBI invadiu a casa dos pais de Bill nos arredores de San Diego, acumulando pilhas de provas que incluíam o computador que Bill, com 18 anos na época, tinha escondido embaixo da cama da irmã. Bill e Chris (que tinha 14 anos) eram os líderes de uma coligação de hackers adolescentes conhecida como “The Inner Circle” (O Círculo Interno).

Em um único dia, o FBI conduziu batidas coordenadas contra integrantes do grupo em nove estados americanos, levando computadores, modems e uma abundância de anotações que detalhavam formas de acessar diversas redes no que ainda era uma versão rudimentar da internet.

O Inner Circle era um grupo heterogêneo de aproximadamente 15 hackers – quase todos adolescentes – do sul da Califórnia, Detroit, Nova York e cerca de cinco outras regiões dos Estados Unidos. Bill, Chris e outros membros do coletivo tinham acessado todo tipo de rede: a GTE, a maior empresa telefônica da época, que hospedava o serviço de e-mail para empresas como a Coca Cola, Raytheon, Citibank e NASA; e a Arpanet, muito usada por pesquisadores universitários e, até a década de 80, por militares.

Chris gostava de se exibir em fóruns de internet sobre hackear o Pentágono. O Inner Circle não era o único grupo de hackers adolescentes do início dos anos 80, mas a sua interferência tanto em redes governamentais quanto em contas de e-mails de grandes corporações os colocou na mira do FBI. Junto com os 414s, um grupo preso na mesma época, os ataques estamparam manchetes nacionais nos EUA. As ações do Inner Circle inspirariam uma reforma completa na forma em que crimes de informática são julgados.

Eu decidi procurar os integrantes do Inner Circle e descobrir o que aconteceu durante o auge do grupo e sua prisão infame, e onde estão hoje. Nesse processo, eu consegui 351 páginas de documentos do FBI sobre comunidades de hackers adolescentes do início da década de 80 através da lei de liberdade da informação. As páginas contêm muito conteúdo que foi censurado, mas respondem algumas das muitas dúvidas que existem até hoje sobre o Inner Circle, sobre o curso intenso do FBI em computação e sobre o mundo underground dos adolescentes hackers da época.

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Uma página bastante censurada dos documentos do FBI sobre o Inner Circle

O Inner Circle

A história de Bill e Chris se trata de curiosidade e o nascimento da internet em um tempo antes da existência de leis contra hacking. Era uma época em que a maioria dos americanos – incluindo praticamente todo mundo do FBI – não saberia dizer o que era um modem. Esse período, entre 1979 e 1983, era um Velho Oeste mítico para jovens interessados em computadores que presenciaram o aumento da popularidade de computadores pessoais (e com preços cada vez menores), assim como a estreia do filme Jogos de Guerra. Os jovens dessa época eram pioneiros e causaram muito.

Depois que Jogos de Guerra estreou em junho de 1983, todos os aspirantes a hacker que tinham mais dinheiro que bom senso saíram e compraram um computador e modem de lugares como a RadioShack (uma loja americana de eletrônicos), achando que conseguiriam apertar o grande botão vermelho. Não funcionava dessa forma, é claro. Mas os moleques do início dos anos 80 conseguiam fazer outras malandragens tendo um computador, uma linha telefônica e o destemor característico da juventude.

O FBI começou a rastrear o Inner Circle em 1982, mas só foi em 1983 que eles finalmente prenderiam o grupo. Em grande parte, a prisão só foi possível graças a um pseudohacker vigilante de 42 anos conhecido como John Maxfield – um ex-phreaker (hacker de linhas telefônicas) que se achava o xerife do início da internet. Maxfield ganhou a confiança de comunidades de hackers adolescentes em BBS (bulletin board systems) no início da década de 80 e repassava informações para o FBI.

Maxfield providenciou o FBI com as informações de que eles precisavam sobre as façanhas do Inner Circle, especialmente no que se tratava de hackear o serviço de e-mail da Telenet (uma rede de comutação de pacotes). Chris, que estava frustrado e entediado, começou a apagar e-mails de executivos da Coca-Cola e a usar senhas de administradores para mudar os nomes das contas. A GTE, empresa que operava o serviço de e-mail, não ficou nada feliz. Afinal das contas, os hackers estavam usando o serviço ilegalmente – ou seja, de graça.

Documentos do FBI especificam quanto exatamente foi roubado pelos jovens, centavo por centavo. Por exemplo, o uso do serviço de mensagem da BMW por usuários não-autorizados em setembro de 1983 custou US$ 0,29 à GTE. O uso não-autorizado de contas da Raytheon no mesmo mês custou um total de US$ 298. Mas o que foi mais prejudicial para a GTE foi a perda de confiança generalizada na segurança do sistema.

Eu conversei com Bill e Chris, mas não consegui contato com nenhum outro membro do Inner Circle, nem com Maxfield. Uma carta enviada ao último endereço conhecido de Maxfield ainda não foi respondida, e o último número de telefone que consegui achar estava desconectado. Até onde eu sei, ele pode estar morto. Ou ele é idoso e mais discreto. Maxfield sempre tentou manter uma postura reservada online, mas depois de ter sido exposto como um informante do FBI no final de 1983, ele se tornou o homem mais odiado da internet.

Bill

Quando conheci Bill Landreth num Starbucks em Santa Monica, na Califórnia, ele estava sentado numa mesa tomando café com duas sacolas na sua frente e um saco de cobertas no canto. Um cachimbo feito de uma maçã e cheio do que eu presumi ser maconha medicinal estava em cima da mesa do lado do seu café e de um tablet da Samsung. Um policial que passou por nós deu uma olhada, mas não estranhou.

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Foi complicado organizar o nosso encontro, já que Bill não sabe onde vai dormir de um dia para o outro. Com 52 anos, um cavanhaque e uma cabeleira cacheada que quase chega a seus ombros, ele mora na rua nos últimos 30 anos. Mas se não fossem por suas profundas entradas de cabelo e seu olhar cinzento, ele seria confundido com alguém de uns dez anos a menos.

Há algo de assertivo e cauteloso sobre a forma como ele fala. É como se Bill fosse um homem que não tem medo de falar o que pensa, mas ainda se preocupa em dizer algo errado na minha frente. Durante a nossa conversa, ele estava calmo e afável. Ele é claramente inteligente, e quase imediatamente começou a falar sobre computadores e linguagem informática.

Bill comprou seu primeiro computador em 1980, ele me conta. Era um TRS-80 da RadioShack. Ele tinha 14 ou 15 anos, e explica que planejou comprar a versão que tinha 8 KB de memória usando os US$ 500 que tinha guardado. Seu pai ofereceu contribuir com mais US$ 500 e assim comprou a versão com 16 KB, que vinha com uma entrada para fita cassete para armazenar informações. Ele também levou um modem de 300 baud.

Bill aprendia rapidamente e desenvolveu uma habilidade para a linguagem de programação BASIC. A partir daí ele aprendeu outras linguagens, e sua vontade de explorar o mundo da computação se tornou avassaladora. Depois de ter conquistado uma área, sempre tinha alguma coisa nova mais interessante por vir. Ele era um explorador, tinha mais interesse em mapear o terreno todo do que penetrar alguma rede de uma forma mais profunda. Bill, que adotou o apelido de “The Cracker”, encontrou uma comunidade online para si entre um grupo emergente de desajustados. Eles o deram um sentimento de pertencimento no novo mundo que estava descobrindo.

“Não costumava conhecer muitas das outras pessoas pessoalmente”, disse Bill – as conexões dele eram feitas por seu modem e telefone.

Ele é filho de dois hippies e passou grande parte de sua infância levando uma vida seminômade. Seu pai, um apaixonado por astronomia, construía telescópios sob a marca Essential Optics. Mas ele só cobrava pelas peças e não cobrava quase nada pela mão-de-obra. O único sucesso comercial moderado que teve foi vendendo lâmpadas para o cultivo durante a década de 70. Ele até comprou anúncios de página inteira para suas lâmpadas (para o plantio de tomates, supostamente) na revista High Times.

Apesar de seu amigo Chris o ter avisado dia 12 de outubro de 1983, Bill não tinha certeza de que o FBI viria atrás dele pelo que fizeram. Além do seu negócio de lâmpadas, o pai do Bill tinha o hábito de ir até Big Bear (uma área rural e turística cerca de quatro horas de Los Angeles) para buscar LSD e cocaína. Até hoje, Bill não está convencido de que não houve uma tentativa do FBI de pegar o seu pai através dele.

Mas eles foram atrás do Bill. Junto com outros nerds adolescentes do seu grupo, Bill estava hackeando a primeira rede comercial de comutação de pacotes, a Telenet. A rede Telenet (que hoje é da Raytheon) foi inspirada na estrutura da Arpanet e tinha locais de hospedagem em 52 cidades no início dos anos 80. Tendo acessado o serviço de e-mail da rede, eles conseguiram fazer ligações para conversarem, ao invés de burlarem o sistema telefônico, para fazerem chamadas de longa distância de graça – uma necessidade se você quisesse postar em um BBS fora da sua área local sem pagar uma fortuna.

Alguém disse para Bill que administradores do serviço de e-mail da GTE usavam um “A” maiúsculo como senha para suas contas. “Então eu tentava sobrenomes com a letra A e conseguia acessar muitas contas,” Bill me contou. “Foi assim que eu consegui entrar nas contas de outras pessoas, e assim a gente conversava.”

O acordo de confissão de Bill é fraco, apenas oito páginas descrevem seus “crimes”. Em 1983, não existiam leis contra hacking, mas os tribunais em Virgínia claramente acharam que a invasão de redes de computadores era um crime sério, mesmo se nada tivesse sido roubado. Então Bill foi acusado de fraude eletrônica, o que foi essencialmente o crime de fazer três ligações do seu computador.

Saímos do Starbucks e fomos almoçar; Bill pega seu tablet e carregador e coloca a mochila. Ele joga sua sacola de plástico transparente cheia de cobertas e uma barraca pequena por cima de sua cabeça, e carrega esse saco enorme com o peso distribuído em suas costas e na nuca.

Enquanto comíamos, Bill me contava suas histórias dos últimas 30 anos, sobre as suas dificuldades com doenças mentais e sobre viver nas ruas de San Diego, Los Angeles e Santa Barbara. Trocamos ideias sobre os diferentes remédios psiquiátricos que já usamos. Eu venho tendo problemas com meus remédios de depressão e de estabilização de humor, o que me deixa extremamente cansado durante o dia. Bill está convencido de que a automedicação é o melhor caminho. Ele conta que já foi diagnosticado com transtorno maníaco-depressivo e que já fez algumas visitas involuntárias à instituições de saúde mental graças à polícia – o que ele chama de “serviço de táxi”. Sobre sua higiene pessoal, Bill me conta que toma banho na casa do irmão. Não consegui perguntar o motivo de ele não morar com o irmão.

Durante o almoço, eu tentei perguntar pelo menos três vezes diferentes o que motivou Bill a hackear. Cada vez era como perguntar a uma pessoa porque ela lê um livro ou assiste a um filme. Bill responde dizendo que ele só queria saber o que tinha por aí. Ele tem uma franqueza direta no seu tom de voz que me faz acreditar nele, e os documentos do FBI confirmam isso.

Quando ele conseguia crackear sites de instituições financeiras, era sempre superficial. Ele não queria roubar milhões de dólares nem se aprofundar em algum sistema para o seu próprio ganho. Mas ele gostava de ser um voyeur. Muitas vezes Bill e seus amigos passavam trotes, que nem em uma vez que colocaram todos os operadores telefônicos de uma certa região em uma mesma audioconferência gigante. Chris também conseguiu reunir vários militares de alta patente no que deve ter sido um dos telefonemas mais confusos de todos os tempos.

Apesar de ter tido sua casa revistada e seus equipamentos de computação apreendidos, Bill só seria condenado nove meses depois. Ele disse que não quis contratar um advogado e estava confiante que conseguiria se defender sozinho. Sua estratégia seria convencer o júri ou o juiz que seu crime era como entrar em uma mansão enorme que estivesse destrancada – ele só queria dar uma olhada. Enquanto Bill explica o seu raciocínio, eu me segurei pra não falar nada sabendo que essa argumentação faz muito sentido para alguém que cresceu em uma família hippie, considerando o ethos ocidental de exploração que acompanha esse estilo de vida. Mas também sabia que não convenceria um juiz federal do outro lado do país.

O pai de Bill o convenceu de que precisava de um advogado, algo que até hoje ele acha ser um erro. Chegaram a um acordo e deram três anos de liberdade condicional à Bill por ele ter confessado a três acusações de fraude eletrônica. A família de Bill se mudou para o Alaska e ele se mudou para a casa de amigos em Poway, na Califórnia. Sem um computador, ele deu uma sumida dos BBS. Frequentou a Universidade da Califórnia em San Diego por um tempo, mas logo depois viajou para o México e depois para Oregon. Ele nunca avisou ao fiscal de liberdade condicional para onde estava indo e foi preso em Oregon, onde então foi transferido para San Diego e passou três meses preso.

Quando foi solto, Bill sabia que tinha que arranjar uma forma de ganhar dinheiro. Ele pesava cerca de 54 quilos na época e precisava de uma renda. Bill diz que estava “fazendo jejum”, mas seu olhar entrega que na verdade ele provavelmente não tinha dinheiro para comprar comida. Mas, em vez de se preocupar com isso, sua vontade e preocupação maiores eram comprar um computador.

“Eu queria muito um computador mas não conseguia pensar em uma forma de ganhar dinheiro pra comprar um,” disse Bill. “Quando eu comprei meu primeiro em 1980, eu já tinha US$ 500, mas nessa altura eu não tinha nenhum dinheiro guardado nem nada.”

Então ele recortou todas as manchetes que tinha colecionado e pego de amigos pelo país, matérias sensacionalistas sobre a prisão do The Cracker pelo FBI. Achou um agente literário e escreveu a proposta inteira do seu livro a mão antes de digitá-lo em uma máquina de escrever antiga. Seu agente teve dois retornos – um da Microsoft, que ofereceu US$ 5.500 em adiantamento. O livro, coescrito por Howard Reinghold, foi publicado em 1984 com o nome Out of the Inner Circle (Fora do Inner Circle). Bill imediatamente gastou todo o adiantamento em um computador novo.

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Quando seus royalties começaram a se esgotar, cerca de dois anos depois, Bill procurou por empregos em lugares diversos. Aceitou um emprego com a Igreja da Cientologia, que havia prometido US$ 200 por semana para vender livros, mas logo descobriu que ganharia US$ 1 por dia e se demitiu rapidamente. Hoje ele consegue se alimentar, comprar maconha medicinal e às vezes ostentar e comprar coisas como um tablet graças às prestações do serviço social e vales-refeição do estado da Califórnia. Mas ele não tem uma casa fixa desde o ensino médio.

Toda a existência de Bill cabe em três sacolas, e vigiá-las o tempo todo é um desafio constante. Quando suas coisas são roubadas, muitas vezes ele não sabe se foram outros moradores de rua ou a polícia. Ele conta que tem que comprar cobertores novos a cada três semanas. E seu tablet de US$ 150 está sempre correndo o risco de ser roubado.

De acordo com Bill, sua vida é uma constante sucessão de assédios e indignidades por parte da polícia. Eles impõem regulamentos de formas arbitrárias e inconsistentes, tentando tirar de vista os moradores de rua. Bill me conta de quando dormia embaixo de uma ponte em Santa Barbara. Um policial o abordou, algemou, revistou seus pertences e o disse que não poderia dormir naquele lado da rua embaixo da ponte. Ele foi multado por “acampar ilegalmente”, mas o policial disse que ele poderia dormir do outro lado. Então, na próxima noite, ele se mudou para o outro lado da rua. O policial voltou e o multou de novo. Bill estima que deve ter perto de US$ 10.000 em multas e despesas jurídicas não pagas – grande parte disso só de juros sobre a dívida, que aumenta com o tempo.

Chris

A realidade dele não poderia ser mais distinta da vida de Chris, o rapaz de 14 anos com quem ele teve uma breve conversa por telefone depois de ter sido revistado pelo FBI. A história de Chris é a de um jovem que prosperou junto com o crescimento da internet. Com apenas algumas alterações, a história do Bill poderia ter sido parecida. Bill me conta que não fala com Chris há 30 anos e que nunca se conheceram pessoalmente. Mas ele só tem boas lembranças da sua amizade de longa distância.

Falei com Chris pelo telefone, com a condição de que eu não publicasse o seu nome verdadeiro. No início dos anos 80, ele era conhecido online como o “Wizard of Arpanet” (o mago da Arpanet), um punk temperamental que se gabava constantemente sobre as redes que tinha invadido. Hoje, ele é um pai de família íntegro que “trabalha com computadores” (ele não quis especificar) em um subúrbio de Detroit.

“Faz muito tempo que não falo sobre os tempos do Wizard of Arpanet,” Chris me conta por telefone de sua casa perto de Detroit. Ele tinha 14 anos quando o FBI veio até a sua porta.

Chris curtia Atari e seu primeiro computador foi um Atari 2600. “Você podia instalar um cartucho básico que tinha 1K de memória e conseguia fazer umas legais com isso. Daí você evoluía para um Atari 400, que era legal porque você conseguia programar com ele e conseguia usar o modem, um de 300 baud. Depois você começava a descobrir o que conseguia fazer com um modem de 300k.”

Assim como Bill, Chris descobriu que seu computador era uma conexão com o mundo exterior; um sentimento de comunidade que não conseguia achar em nenhum outro lugar. “Não havia muito o que se fazer crescendo em Detroit, então quem tinha esse modem começava a explorar,” disse Chris. “Você acha seu primeiro BBS que tem alguma informação, e foi isso que me intrigou muito. De um modo geral, não mudou muito desde então, você se conectava a um BBS e postava mensagens. Era muito mais lento do que é hoje, e não tinha gráficos, mas a essência do conceito ainda é a mesma que é hoje.”

O segredo para hackear no início dos anos 80 era descobrir como fazer telefonemas de graça. Hackers de telefone já faziam isso desde os anos 60, mas isso era ainda mais fundamental para os precursores da internet moderna. Acessar um BBS da sua área de cobertura não custava muito. Mas se você estivesse em Detroit e quisesse acessar um fora da sua área, isso significava ter que fazer chamadas interurbanas – e elas eram caríssimas na época. Então qualquer hacker de respeito aprendia rapidamente como hackear empresas telefônicas, e foi isso que o Wizard of Arpanet começou a fazer.

“Isso amplia o seu mundo,” o Chris me contou. “Agora eu conseguia acessar um BBS em Nova York ou outro em San Diego. E a partir disso você começa a se aventurar por aí.”

E uma vez que você já estivesse “por aí”, os hackers do Inner Circle e de outros lugares tinham diversas formas de crackearem uma rede. Se bem que nessa época, a segurança era tão fraca que “crackear” é uma palavra forte demais. Um manual de operações poderia te passar senhas de administradores ativos para vários sistemas, simplesmente porque ninguém se dava o trabalho de trocar as senhas padrão.

A verdadeira paixão de Chris, apesar dele relutar em admitir, era hackear a Arpanet e outros sistemas militares. Na verdade, foi assim que eu o encontrei. Eu estava pesquisando qual tipo de espionagem a União Soviética usava para investigar a Arpanet e Milnet nos anos 80. Nós sabíamos de alguns hackers soviéticos que estavam tentando achar segredos de estado, mas também tinham garotos igual o Chris fuçando os sistemas das universidades MIT, Stanford e UCLA pra se divertirem.

“Depois começamos a entender como funcionava a Arpanet, e de alguma forma eu consegui acessar um dos principais pontos de conexão,” ele me conta. “E a partir daí, foi só uma questão de descobrir todas os sites de hospedagem.”

“Assim que eu conseguisse acessar um site, tinha acesso à lista inteira de sites de hospedagem. Eu pegava essa lista da Arpanet e dava uma fuçada. A partir desse ponto, eu conseguia entrar nas redes e testá-las”, disse o Chris. O que ele tinha acessado era conhecido como um TIP, como se fosse um super-modem que roteava informações pela Arpanet. De acordo com os documentos do FBI, os militares e pesquisadores dos diversos nós da Arpanet não tinham detectado a invasão. Seu informante, John Maxfield, foi quem descobriu o esquema diretamente pelo próprio Wizard of Arpanet.

Chris não fazia a mínima ideia de que estava sendo vigiado constantemente por outro hacker. Maxfield, que usava a alcunha de “Cable Pair” no BBS, nunca foi abordado pelo FBI sobre as atividades que ele observava no início da década de 80. Em vez disso, Maxfield os abordou. Depois disso, ele foi até o FBI para contar sobre os garotos que trocavam softwares nos BBS. O FBI respondeu afirmando que isso parecia ser ruim, mas ele se atrapalhou quando começou a usar palavras como “modem”. A agência não fazia ideia sobre o que ele estava falando.

Mas depois do primeiro contato com Maxfield, ele desenvolveu um longo relacionamento com a agência. Marcou reuniões com os hackers para juntar provas de primeira mão, e uma vez permitiu que o FBI fotografasse os meninos do outro lado da rua em uma emboscada.

“Ele convidou vários hackers de todo o país para o visitarem em Detroit. Então nos reunimos – era como se fosse uma jam session de hackers – nos escritórios dos caras com um monte de equipamento telefônico e computadores,” conta o Chris. Alunos de ensino médio e universitários vieram de vários cantos dos Estados Unidos. “A gente queria mostrar para os outros o que conseguíamos fazer e ensinar uns aos outros.”

Mais para a frente, Maxfield diria que tinha ficado especialmente impressionado com as habilidades do Wizard of Arpanet. Chris não tinha ideia de que estava se comprometendo a cada batida de tecla. “O FBI tirou fotos de todas as pessoas que chegavam e saíam, e também tinha uma espécie de monitor de teclado para ver o que estavam fazendo,” disse Chris. “Por acaso, eu mostrei a lista inteira de hospedagens da Arpanet. ‘Olha que legal, consigo acessar qualquer um desses computadores!’”

Maxfield teve contato em raras ocasiões com a imprensa depois das batidas do FBI, mas a jornalista Patricia Franklin falou com ele para a produção do seu livro publicado em 1990, Profits of Deceit: Dispatches From the Front Lines of Fraud. Quando entrei em contato com Franklin recentemente, ele não se surpreendeu em saber que o Maxfield era difícil de achar. De acordo com ela, ele era sigiloso e presunçoso, e usava a mesma retórica que se tornou comum no século 21 quando pessoas falam sobre hackear ou violação de direitos autorais.

“Hackear é um crime completamente impessoal e desumanizado,” Maxfield contou a ela. “Nenhum deles pensaria em pegar uma faca ou arma e assaltar alguém na rua. O hacker não conhece a sua vítima e a vítima nunca conhece o hacker. Nunca tem um perigo físico envolvido. Eles são pessoas introvertidas à procura de emoção.” Essa visão era compartilhada pelos chefões do FBI e em outros lugares quando o assunto era pirataria de filmes e software.

“Com um computador, hackers conseguem executar suas fantasias mais insanas,” disse Maxfield em uma entrevista no final dos anos 80, de acordo com o livro de Franklin. “E não tem ninguém os supervisionando. É uma alternativa para uma gangue de rua. O hacker é um bandido de esquina de rua, mas o seu ponto de encontro é um BBS.”

Maxfield se tornou tão infame que a primeira edição da revista lendária 2600, publicada em janeiro de 1984, dedicou sua capa às batidas de 1983 e à denúncia de Maxfield como um informante do FBI.

Quando Chris finalmente foi preso, o FBI revirou o seu quarto e levou todo o seu equipamento de computação. Mas a mãe de Chris, que estava em casa na hora, depois o defendeu em uma matéria da Associated Press. “Ele se gabava que sabia como fazer, mas ele disse que nunca causaria danos se entrasse em uma rede,” ela disse em 1983. “Ele só olhava e saía. Era só pela adrenalina de conseguir acessar.”

FBI vs. hackers

O FBI tinha dois problemas. Um deles era que estavam perdendo a briga de relações públicas na imprensa. Existem anotações extensas no arquivo do FBI sobre o fato que tinham que tomar muito cuidado, já que estavam lidando com muitos menores de idade. O segundo problema é que ainda não existiam leis de invasão de computadores. “Invadir” um sistema de computadores não era ilegal, a não ser que você seguisse uma interpretação bem ampla da lei contra fraude eletrônica, algo que o FBI fez no caso de Bill. Mas como Chris só tinha 14 anos, eles não sabiam se deveriam acusá-lo.

O LA Times publicou matérias com manchetes do tipo “O FBI não vai pegar leve com gênios mirins”, mas no final das contas a agência realmente pegou leve com os integrantes do grupo que tinham menos que 18 anos. Foi uma manobra calculada, e valeria a pena, já que muitos americanos não faziam ideia do era hackear. A ideia de que o FBI estava pegando no pé de crianças inocentes e curiosas ganhou força em comunidades como em Irvine, na Califórnia, onde quatro hackers tiveram seus computadores confiscados.

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Quatro membros do grupo em uma conferência à imprensa em 13 de outubro de 1983: Wayne Correia (17), Gary Knutson (15), Gregg Knutson (14) e David Hill (17)

Os jornais locais de Irvine questionaram as táticas agressivas do FBI, enquanto jovens participavam de coletivas de imprensa insistindo que não tinham feito nada de errado. Na verdade, eles apontaram os dedos para Bill Landreth, The Cracker, por tê-los envolvido. O isolamento de Bill dos outros hackers – como dos quatro que se conheciam em Irvine (dois deles eram irmãos) – o transformou em uma figura misteriosa na imprensa. Diferente dos jovens que vinham de famílias de alta renda, Bill tinha evitado a atenção dos jornais.

O FBI nunca acusou Chris de nada. Ele voltou para a escola e curtiu seu novo status de celebridade. “Eu saí em muitos jornais, fiquei muito popular e consegui muitas namoradas, foi tudo ótimo,” conta Chris, dando risada.

Até o final de outubro de 1983, o mesmo mês das batidas, o FBI estava pedindo ao Congresso por leis mais rígidas contra hackers – ou melhor, para criarem leis contra hacking. Mas para fazer isso, a agência reconheceu que teriam que redefinir os significados legais de “propriedade” e de “transgressão”.

“No momento existe um vazio na lei,” testemunhou Floyd Clarke, assistente adjunto do diretor-geral do FBI. “Nossa experiência nos indica que certas questões legais que envolvem crimes relacionados a computadores podem ser esclarecidas, particularmente a definição de propriedade no sentido de um programa de computador ter o seu valor inerente claramente definido, assim como a questão da transgressão.”

O FBI conseguiria as leis que queria – e os cowboys adolescentes do Velho Oeste simplesmente continuariam a correr atrás do pôr do sol. A primeira lei contra hacking de computadores, a Lei sobre Fraude e Abuso do Computador (lei pública americana 98-473), foi promulgada em 1984. Mas as leis só atingiriam os casos mais visíveis. O artigo de Richard C. Hollinger de 1990, “Hackers: heróis da computação ou bandidos eletrônicos” defende que as leis só contemplavam os membros menos disruptivos da sociedade hacker:

“Atualmente vivemos em um paradoxo. Os criminosos cibernéticos que causam os menores danos e que geralmente têm o menor envolvimento em atividades maliciosas, ‘hackers’, se tornaram quase exclusivamente o foco de perseguições das leis de crimes eletrônicos.”

Bill e Chris entravam na categoria dos que “causavam os menores danos”: eles não tinham roubado nada além de tempo, se é que isso pode ser considerado um crime. Os verdadeiros ladrões cibernéticos estavam atuando em organizações específicas. Um estudo de 1984 feito pela American Bar Association, citado por Hollinger, descobriu que 77% de crimes eletrônicos eram cometidos pelos próprios funcionários das empresas.

Todas as leis contra hackers aprovadas desde 1984 são essencialmente primas da Lei sobre Fraude e Abuso do Computador. A lei original em si ainda é usada (por vezes de forma desastrada) pela polícia hoje em dia. É a lei que condenou o ativista Aaron Swartz depois de ter feito o download de caches enormes de artigos acadêmicos. Swartz correu o risco de pagar uma multa de US$ 1 milhão e 35 anos de cadeia. Ele se matou em janeiro de 2013 antes de seu caso ser julgado.

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Quando fui para Santa Monica para conhecer Bill, eu tinha muita certeza que ouviria uma história sobre como o FBI acabou com a sua vida. Mas fui embora acreditando que não tinha. O mundo acabou com a vida de Bill – um mundo que não conseguiu encontrar um espaço para seus talentos, falhas e pequenos erros particulares. Por mais que seja clichê, é difícil não pensar que talvez Bill seja de muitas formas à frente de seu tempo. Ele era esperto o suficiente para enxergar pontos de vulnerabilidade que ninguém mais conseguia ver no que se tornaria a internet moderna.

Leis foram criadas porque poucas integrantes da força policial acreditavam que o que o Inner Circle fazia era possível, e hoje em dia a segurança digital nunca foi tão importante. Agora, pessoas recebem salários de seis dígitos para acharem pontos vulneráveis em redes. Mas só por ser quatro anos mais velho que Chris, Bill foi julgado como um adulto e sua vida seguiu outro caminho.

Em Los Angeles, não é incomum esbarrar por rostos familiares, que foram brevemente famosos mas depois esquecidos. Ninguém olha duas vezes para Bill. Na verdade, como ele faz parte de um grupo de aproximadamente 40,000 pessoas que moram nas ruas de LA, as pessoas costumam evitar qualquer contato visual com ele.

Eu agradeci Bill por compartilhar sua história comigo, e o deixei em Santa Monica. O mundo parece satisfeito em puni-lo por seus crimes sem vítimas cometidos há mais de três décadas. Mas isso certamente não é exclusivo para Bill ou hackers. Quem sabe como sua vida teria sido se ele tivesse sido acolhido pelo FBI e não perseguido?

Eu perguntei para Bill sobre seus planos para o futuro. Ele diz que está pensando em escrever alguma coisa, talvez um livro ou roteiro. Mas, na maior parte, ele não tem certeza. “Provavelmente não vou acabar conseguindo fazer tudo isso,” ele me conta dando uma risada nervosa antes de nos despedirmos. “Gostaria de comprar uma casa. Mas não sei.”

Tradução: Mariana Siqueira.

Primeira foto: Bill Landreth em 2016, por Matt Novak/Gizmodo