A história começa aqui, quando um jovem encontrou um aparelho estranho debaixo do seu carro e, com a ajuda de usuários do site Reddit, descobriu tratar-se de um equipamento de rastreamento por GPS do FBI. Depois de ver as fotos online, a agência americana mandou meia dúzia de agentes para recuperá-lo.

Um estudante californiano recebeu uma visita do FBI esta semana, depois de encontrar um dispositivo secreto de rastreamento no seu carro e do seu amigo ter publicado fotos do equipamento na internet. O post provocou muita especulação sobre a legitimidade do equipamento, a reação das autoridades e o fato do jovem americano-árabe estar ou não sendo alvo de uma investigação de terrorismo.

Demorou apenas 24 horas para descobrirmos: na quarta-feira, o estudante deu entrevista à Wired contando que o dispositivo era verdadeiro, que ele estava sendo secretamente rastreado e que o FBI queria de volta o seu caro aparelho.

A resposta chegou quando meia dúzia de agentes do FBI e oficiais de polícia apareceram no condomínio onde mora Yasir Afifi, em Santa Clara, Califórnia, na terça-feira, exigindo que ele devolvesse o aparelho.

Afifi, um cidadão americano de 20 anos nascido nos EUA, cooperou de boa fé e declarou não ter feito nada para merecer a atenção das autoridades. Comentários feitos pelos agentes durante a visita deram a entender que o jovem estivera sendo vigiado pelos últimos três a seis meses.

Um representante do FBI não quis confirmar que o aparelho pertencesse mesmo à agência, ou que agentes teriam aparecido na casa de Afifi.

"Não posso falar muito sobre isso, por ser uma investigação ainda em andamento", disse o porta-voz Pete Lee, que trabalha na base da agência em San Francisco.

Afifi, filho de um líder comunitário Americano-Islâmico que morreu há um ano no Egito, é uma das poucas pessoas que já encontraram um dispositivo de rastreamento do FBI.

A sua descoberta vem no embalo de uma recente decisão do Tribunal de Apelação americano, dizendo que não é ilegal que um oficial da lei secretamente coloque um dispositivo de rastreamento no carro de um suspeito sem um mandado, mesmo que o carro esteja estacionado na entrada da garagem de uma propriedade privada.

Brian Alseth, da American Civil Liberties Union em Washington, entrou em contato com Afifi depois de ver as imagens do dispositivo de rastreamento e disse que a ACLU estava esperando por um caso assim para poder desafiar a decisão.

"É o tipo de coisa dentro da qual gostamos de jogar uns advogados", Alseth disse, segundo contou Afifi.

"Parece bastante assustador que o FBI tenha colocado um aparelho de rastreamento e espionagem no carro de um cidadão americano de 20 anos de idade que nunca fez nada além de ser meio-egípcio", Alseth falou à Wired.

Afifi, que estuda marketing de negócios no Mission College em Santa Clara, descobriu o aparelho no último domingo, quando levou o seu carro a uma oficina local para uma troca de óleo. Quando o mecânico levantou o seu Ford Lincoln LS no elevador hidráulico, Afifi viu um fio estranho solto perto da roda traseira direita e do cano de escapamento.

O dono da oficina, Mazher Khan, confirmou à Wired.com que também viu. Uma inspeção mais aproximada revelou que o fio se conectava a uma bateria e um transmissor, afixados ao carro por um ímã. Khan perguntou a Afifi se ele queria que o aparelho fosse removido. Quando Afifi disse que sim, Khan o retirou do chassi com facilidade.

"Eu não teria percebido se não fosse pelo fio solto estranho", disse Afifi.

Na segunda-feita, um amigo de Afifi chamado Khaled postou imagens do dispositivo no Reddit, perguntando se alguém sabia o que era, e se o FBI estava "atrás da gente".

"Meu plano era simplesmente colocar o dispositivo em outro carro, ou jogar num lago", escreveu Khaled, "mas quando você chega em casa e vê duas pessoas chapadaças ouvindo coisas no dispositivo e convencidas de que é uma bomba, quer ter certeza".

Um leitor do Reddit rapidamente identificou o aparelho como um dispositivo de rastreamento chamado Orion Guardian ST820, feito por uma empresa chamada Cobham, que o vende apenas para agentes da lei.

Não havia ninguém disponível na Cobham para responder às perguntas da Wired.com, mas um ex agente do FBI que viu as imagens confirmou tratar-se de um rastreador.

O ex agente, que pediu anonimato, disse que o aparelho é um modelo antigo de um rastreador que foi há muito tempo substituído por um modelo que não precisa de baterias. As baterias morrem e precisam ser substituídas se a vigilância foi duradoura, por isso novos aparelhos são colocados no compartimento do motor e ligados à bateria do carro para não ficarem sem energia. Ele ficou surpreso por este ter sido encontrado tão facilmente.

"Ele precisa ser removível, mas também precisa se manter no lugar e não ser visto", disse ele. "Sempre há a possibilidade do carro precisar ir para a oficina ou mecânica, então precisa estar bem escondido. É bastante raro alguém encontrar um".

Ele disse estar certo de que os agentes que o instalaram poderiam ter obtido um mandado de 30 dias para o seu uso.

Afifi considerou vender o aparelho no Craigslist antes do FBI aparecer. Ele estava no seu apartamento na terça à tarde quando o seu colega de apartamento disse que "duas pessoas suspeitas" estavam perto do seu carro. Afifi, saindo para um compromisso, encontrou um homem e uma mulher olhando para o seu veículo no lado de fora. O homem perguntou se ele sabia que a sua carteira de registro estava vencida. Quando Afifi perguntou se isso o incomodava, o homem apenas sorriu. Afifi entrou no carro e seguiu em direção à saída do estacionamento quando duas SUVs chegaram, dando sinal de luz e carregando quatro policiais em coletes à prova de balas.

O agente que falou primeiro com Afifi se identificou como Vincent e disse: "estamos aqui para reaver o dispositivo que você encontrou no seu veículo. É propriedade federal. É uma peça cara, e nós precisamos dela agora mesmo".

Afifi perguntou se eles eram as pessoas que colocaram o dispositivo no seu carro, e o agente respondeu "sim, fui eu que coloquei". Depois disse: "Nós faremos isso bem mais difícil para você se você não cooperar".

Afifi pegou o aparelho no seu apartamento e o entregou. Neste momento os agentes começaram a fazer uma série de perguntas — se ele conhecia alguém que teria viajado à República do Iêmen, ou se estava relacionado a alguma espécie de treinamento fora do continente. Um dos agentes trouxe uma impressão de um post de blog que o amigo de Afifi, Khaled, supostamente escreveu alguns meses atrás. Tinha "algo a ver com um shopping ou uma bomba", disse Afifi. Ele não havia lido até então, e não conhecia os detalhes do que estava escrito, mas achou difícil acreditar que Khaled quisesse ser ameaçador com o post.

"Ele é um garoto esperto e não está ligado a nada extremo, e nunca diz nada estúpido como isso", disse Afifi. "Eu conheço o cara minha vida toda".

Os agentes disseram ao jovem que havia outros agentes do lado de fora da casa de Khaled.

"Se você quiser, nós podemos ligar para eles e pedir para que não falem com seu amigo", disseram. "Foi esquisito. […] Eu não estava acreditando muito em nada que eles estavam dizendo".

Quando ele perguntou, mais tarde, para Khaled sobre o post impresso, o amigo disse que lembrava-se de "escrever algo idiota", mas que não estava envolvido em nada errado. Khaled não quis discutir o assunto com a Wired.com.

A agente feminina, que entregou um cartão a Afifi, se identificou como Jennifer Kanaan e disse ser libanesa. Ela falou um pouco de árabe com Afifi e deu a entender que sabia quais os restaurantes frequentados por ele e a sua namorada. Também deu a ele os parabéns pelo novo emprego — Afifi foi dispensado do seu emprego há alguns dias, mas no mesmo dia foi contratado como gerente de vendas internacional de laptops e computadores na Cal Micro em San Jose.

Os agentes também sabiam que ele planejava uma curta viagem de negócios a Dubai em algumas semanas. Afifi disse que viaja a negócios com frequência e que tem dois irmãos adolescentes no Egito, a quem ele ajuda financeiramente. Eles moram com uma tia. A sua mãe americana, que se divorciou do seu pai há cinco anos, mora no Arizona.

O pai de Afifi, Aladdin Afifi, era cidadão americano e ex presidente da Associação da Comunidade Muçulmana nos EUA antes da sua família se mudar para o Egito em 2003. Afifi retornou aos EUA sozinho em 2008 para continuar os seus estudos. Ele sabe que está na lista dos federais, e é regularmente parado em aeroportos para uma revista secundária.

Há seis meses, um antigo colega de apartamento seu recebeu a visita de agentes do FBI que disseram querer falar com Afifi. Ele entrou em contato com um agente e ficou sabendo que a agência recebeu uma denúncia anônima de alguém dizendo que ele poderia ser uma ameaça à segurança nacional. Afifi disse ao agente que estaria disposto a responder perguntas se a sua advogada aprovasse. Mas depois que a advogada dele entrou em contato com a agência, ninguém ouviu falar novamente nos federais até que ele encontrou o rastreador.

"Eu acho que eles não se surpreenderam de eu ter encontrado", disse ele ao Threat Level. "Tenho certeza que eles sabiam quando eu tinha encontrado. […] Uma das primeiras perguntas que me fizeram foi se eu estive em uma mecânica no último domingo. Eu disse que sim, foi lá que eu encontrei o aparelho idiota debaixo do meu carro."

A advogada de Afifi, que trabalha para o Conselho das Relação Islâmicas Americanas, focado em liberdade civil, disse que esse tipo de rastreamento é mais escandaloso do que os que ela costuma ver.

"A ideia de que isso pode chegar a este nível é incomum, disse Zahra Billoo. "Nós pegamos cerca de um caso por semana relacionado ao FBI ou visitas de representantes da lei [aos clientes]. Geralmente eles vão à casa ou local de trabalho do indivíduo, e há problemas que surgem disso".

No entanto, ela disse que depois de ouvir falar da experiência de Afifi, outros advogados da sua organização disseram a ela que conhecem duas pessoas em Ohio que recentemente descobriram aparelhos de rastreamento em seus carros.

O encontro de Afifi com o FBI terminou com os agentes dizendo a ele para não se preocupar.

"Nós temos todas as informações que precisamos", disseram eles. "Não precisa ligar para a sua advogada. Não se preocupe, você é desinteressante".

Eles apertaram a sua mão e saíram.

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