Sabemos que o FBI tem tido dificuldades em encontrar talentos na tecnologia, e a administração atual até agora mostrou pouco interesse em contratar especialistas na área. Mas isso a gente não esperava. Novos documentos judiciais federais revelam que o FBI vem ativamente coordenando membros do “Geek Squad” da Best Buy em uma caça à pornografia infantil nos computadores de consumidores.

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A equipe de especialistas de TI da Best Buy é conhecida por ter entregue ocorrências de pornografia infantil ao FBI no passado, mas a evidência de que a agência de segurança tem especificamente recrutado a ajuda dos associados do Geek Squad é nova.

Mark Rettenmaier é um oncologista ginecológico que vive em Orange County, na Califórnia. Em 2011, ele levou seu computador ao Geek Squad para que fizessem reparos. O computador foi enviado a uma grande assistência técnica em Brooks, no Kentucky, que lida com casos de todos os Estados Unidos. Técnicos supostamente descobriram milhares de imagens de pornografia infantil no dispositivo e contataram o FBI.

Este estabelecimento em particular entregou várias ocorrências de pornografia infantil ao FBI ao longo dos anos, e, considerando o volume de computadores que recebe, parece razoável que o lugar fosse se deparar com esse tipo de material de tempos em tempos.

No começo deste ano, o advogado de Rettenmaier, James D. Riddet, argumentou que o relacionamento dos empregados da Best Buy com os agentes federais era “tão aconchegante e extenso que transforma as buscas da Best Buy em buscas governamentais”. À época, o juiz rejeitou esse argumento, dizendo que “nada irracional aconteceu aqui, e não houve invasão arbitrária da invasão de privacidade de ninguém por parte de oficiais de Justiça… e não há um pingo de evidências de que alguém do FBI instruiu alguém da Geek Squad City para detectar e localizar pornografia infantil com o propósito de reportá-la ao FBI”.

Porém, agora Riddet contesta que os documentos que foram liberados após a primeira audiência probatória fortalecem a defesa de que havia coordenação deliberada.

Washington Post noticia:

Ridder recusou a entrevista. Mas, em arquivos judiciais, ele disse que houve “oito informantes do FBI na Geek Squad City” entre 2007 e 2012, e que “o sistema de recuperação de dados” do local “foi projetado para identificar e relatar pornografia infantil em todo o país”. Um número de empregados do Geek Squad recebeu pagamentos de US$ 500 ou US$ 1.000 do FBI, revelaram documentos e depoimentos. Riddet citou uma carta do FBI a um advogado no Kentucky que dizia que “sob o controle e a direção do FBI, a TC [testemunha confidencial] concordou em notificar o FBI quando a TC detectasse a presença de pornografia infantil durante o curso regular do emprego da TC e estava disposta a testemunhar no tribunal”.

Em pelo menos um caso, o informante não quis receber o pagamento, mas lhe foi dito que o dinheiro não poderia ser retornado, porque o orçamento exigia que ele fosse gasto. É fácil imaginar que essas pessoas não estavam fazendo esse trabalho por dinheiro. Quem coleciona pornografia infantil é odiado por basicamente todo mundo no planeta.

As coisas ficam mais embaraçosas quando se trata do que a Best Buy sabia. Na audiência em janeiro, um supervisor do Geek Squad, chamado Justi Meade, alegou que não havia recebido pagamentos. Registros do FBI mostram que ele recebeu. E Riddet está argumentando que Meade vasculhou especificamente computadores (em busca de pornografia infantil) em vez de ter se deparado com uma imagem durante seus deveres de rotina. A evidência do advogado para isso é que uma única imagem de uma garota nua foi encontrada no disco rígido de seu cliente, no espaço não alocado em que ficam as imagens deletadas.

Fica mais fácil argumentar que os empregados da Best Buy estivessem agindo como membros delegados pelo FBI e conduzindo buscas ilegais se os altos funcionários da empresa estivessem cientes da atividade. Um porta-voz da companhia contou ao Washington Post:

Ficamos sabendo que quatro empregados podem ter recebido pagamentos após entregar suposta pornografia infantil ao FBI. Qualquer decisão de aceitar pagamento foi uma decisão errada e inconsistente com nosso treinamento e nossas políticas. Três desses empregados já não estão mais com a empresa, e o quarto foi repreendido e relocado.

Junto com o fato de que essa situação corre o risco de estragar o caso de pornografia infantil, para a Best Buy, ela poderia afastar o consumidor comum que não confia sua privacidade à empresa. Mesmo pessoas que são inteiramente inocentes não gostam da ideia de que o FBI vai vasculhar suas coisas.

Por enquanto, Riddet pediu que o juiz ordene todas as buscas ilegais. Uma decisão terá de ser tomada antes da data do julgamento em junho.

[Washington Post]

Imagem do topo: Getty