Por Bruno Izidro

No início de Final Fantasy X, Tidus, olhando as ruínas da cidade de Zanarkand, pede para ouvirmos a história dele. Eu já sabia aquela história e lembrava (mesmo que vagamente) como ela terminava, mas ao jogar a versão HD Remaster do jogo – que chegou recentemente ao PS4 – deparo-me não só com a história de Tidus como também um pouco da minha.

A Square Enix relançou Final Fantasy X (junto com sua continuação Final Fantasy X-2) em versão HD primeiro para PS3 e PSVita no ano passado. Foi quando a jornalista Leigh Alexander fez este excelente artigo ao revisitar o jogo no Gamasutra.

O texto mostra como muitas vezes voltar a games (ou mesmo filmes ou livros) que nos foram importantes pode ser quase que uma máquina do tempo. Por meio deles, olhamos para como éramos há dez, 15, talvez 20 anos atrás. “Jogos recobrem nossa memória da pessoa que éramos quando os jogamos, deixando jovens fantasmas em suas infraestruturas que sempre estarão lá”, diz a jornalista.

Eu não sabia ao certo se isso aconteceria comigo ao também voltar a FF X. Na minha memória, o jogo permanecia entre os melhores Final Fantasy que já joguei, mas não saberia dizer que lembranças ele traria consigo. Foi só rever a abertura do jogo, depois de tantos anos, para saber a resposta.

Bastou esse momento e essa música para que cenas, personagens e frases inteiras (“It Begins. Don’t Cry”) ressurgissem. Aos poucos, o verdadeira motivo por Final Fantasy X ter sido especial quando joguei pela primeira vez começou a aparecer.

Enquanto em seu texto Leigh Alexander retornou para a adolescente que se identificou pela primeira vez com uma personagem feminina (Yuna), pra mim revisitar o mundo de Spira me fez voltar ao adolescente que – mais do que ficar maravilhado pelos gráficos – se viu impressionado em como o tema de religião foi tratado em um videogame.

FFX_HD_Yevon

A fé indiscutível na Igreja de Yevon mostrada em Final Fantasy X e como posteriormente ela é desmascarada como um farsa foi algo marcante para o garoto de 15 anos, vindo de uma família católica, e que se via descrente de tudo aquilo que lhe havia sido ensinado desde pequeno.

Lembro de falar algo como “Final Fantasy X mostra como se cria um deus e faz as pessoas acreditarem nele” para os colegas de escola. Revisitando o eu do passado através do jogo, vejo o quanto isso era gerado pela raiva de um adolescente e causa até certa vergonha alheia de mim mesmo. No entanto, não muda o fato da queda da Igreja de Yevon no mundo de Spira ter influenciado na queda de certas filosofias para mim.

Não são poucos os paralelos que se pode traçar da religião dentro de Final Fantasy X com a nossa realidade (e não só em relação a religião cristã). A Igreja de Yevon justifica a existência de Sin, o grande antagonista do jogo, como uma punição pelos “pecados” do passado. As “Machinas”, ou qualquer tipo de tecnologia mais avançada, é considerada heresia e proibida de ser criada ou usada. Por esse mesmo motivo o povo Al Bhed, que buscas tecnologias perdidas no mundo, são vistos como párias e desprezados por todos.

A abordagem que Final Fantasy X faz de assuntos como fé vs ciência, a evolução da sociedade e o preconceito contra aqueles que nos são diferentes continuam sendo relevantes e postas como algo que nos faz refletir… entre uma partida de Bliztball e outra.

Uma mostra do impacto que um jogo causa como um produto cultural e não só como mecânicas e gráficos.

FF_X_Blitzball

Independente da carga emocional que o jogo passe para cada um, a remasterização HD de Final Fantasy X, por si só, é um ótimo resultado. Há algumas texturas um pouco feias aqui ou modelos genéricos de personagens acolá, mas no geral ele faz com que não fiquemos incomodados por ser um jogo de PS2.

Fora que momentos marcantes, como a ridícula cena da gargalhada ou a emocionante cena do beijo no lago estão todas lá, mais bonitas do que nunca em todo a glória da qualidade HD.

Para completar, o pacote no PS4 ainda traz a oportunidade de se criar novas lembranças ao trazer os extras Eternal Calm, uma animação feita com a engine do jogo e que serve como ponte para FF X-2, o próprio FF X-2 também em versão HD e um audiobook que só havia sido lançado na versão japonesa do jogo.

Final Fantasy X pode ser lembrado por muitas coisas: o primeiro jogo da série com vozes (uma feature que era bem destacada na parte de trás da capa original), um interessante sistema de evolução pelas Sphere Grids e até o famigerado minigame de Blitzball. Quando a versão HD traz, além de tudo isso, uma viagem no tempo para você se confrontar com você mesmo, é porque valeu a pena o retorno.


Final Fantasy X/X-2 HD Remaster está disponível para PS3, PS4 e PS Vita. A cópia do jogo para esse texto foi cedido pela Square Enix.