O Escritório de Patentes e Marcas dos Estados Unidos publicou recentemente uma patente registrada pela Ford para um veículo policial autônomo que pode ser programado com “ferramentas de aprendizado da máquina (como redes neurais profundas) para encontrar bons esconderijos para pegar infratores das leis de trânsito”. A patente – que representa mais uma idealização do que uma invenção de fato – criaria uma das visões mais distópicas do nosso futuro.

Excedendo as capacidades de atuais robôs policiais de companhias de segurança como a Knightscope, a frota autônoma teria enormes capacidades de vigilância. A patente preenchida em 2016 faz referência a câmeras, sensores de pista, leitores de placas veiculares, painéis sensíveis ao toque, alto-falantes, LIDAR, sensores e microfones ultrassom, conexão satélite e detectores de radar para gravar a velocidades de outros veículos.

Ademais, a patente faz referências a aprendizado da máquina e redes neurais. Inteligência artificial está rapidamente alterando o cumprimento da lei e alertando defensores da privacidade preocupados com a geração do estado de segurança. A Ford imagina que o carro robótico se conectaria a um “registro de motoristas armazenado localmente” ou até em grandes bases de dados governamentais para verificar a habilitação dos motoristas. Com estas poderosas oportunidades de gravação e armazenamento, até as mais breves interações com os veículos poderiam potencialmente criar uma base de dados robusta.

O registro contém estes diagramas de como o carro operaria:

Imagem: Ford

Este primeiro diagrama é uma visão geral das muitas coisas que o carro robô poderia fazer em diversos cenários. Veja a árvore em 180. De acordo com a patente, o carro “pode, baseado em aprendizado da máquina e por profundas redes neurais, identificar um local atrás de um objeto (180 – árvore na FIG. 1) e estacionar atrás dele (objeto 180) para se tornar imperceptível”. Radares de velocidades como este são um antigo truque policial, mas treinar uma inteligência artificial para se esconder de humanos é um tanto incômodo.

A Ford imagina que os veículos poderiam se conectar a uma rede local de câmeras de segurança que enviariam sinais aos carros robôs ao registrarem violações de trânsito. Como mostrado na imagem da patente, alertando o carro assim que um motorista, digamos, atravessa um sinal vermelho ou muda de faixa sem sinalizar. Uma rede de câmeras projetada para identificar infratores, e ainda assim uma inteligência artificial para ajudar o veículo a se esconder? Estranho.

A polícia já faz uso da inteligência artificial para enviar veículos policiais a locais aonde se espera que mais crimes ocorram. Não seria difícil imaginar departamentos policiais enviando carros robôs para áreas com maiores violações de tráfego, mas existe um grande risco tendencioso aqui.

Depois dos protestos de Ferguson e Missouri em 2015, um relatório do Departamento de Justiça dos Estados Unidos descobriu que a polícia local patrulhava muito mais em bairros com mais moradores negros e parou motoristas negros significantemente mais que motoristas brancos. Caso veículos policiais autônomos dependam das violações de trânsito registradas em cada área, como eles vão saber quando não repetir estas tendências?

Imagem: Ford

O segundo diagrama na patente mostra uma situação hipotética onde o carro robô avista alguém acima do limite de velocidade. O carro usaria “comunicação sem fio” para contatar o motorista do veículo na velocidade acima do limite para que ele pare o veículo. Disso, o carro robô estabeleceria a identidade do motorista. A patente não deixa claro como exatamente isso iria funciona, apenas diz que respostas válidas do carro infrator podem incluir “uma imagem da habilitação de motorista de um motorista humano… verificar a autenticidade da habilitação”.

Talvez o aspecto mais desconcertante da patente da Ford seja que ela afirma que o carro robô seria usado em “tarefas policiais rotineiras”. É claro, não há nada rotineiro em ser perseguido por um carro de polícia autônomo que aprende a se esconder em arbustos. Atualmente, policiais já usam drones para monitorar motoristas, mas isso representa o máximo do policiamento inteligente: um robô autônomo de segurança que não pode argumentar, ser ferido ou parado.

[The Drive via Motor 1]

Imagem de topo: André Gustavo Stumpf/Flickr