Duas descobertas recentes, de um osso de pé com câncer de 1,7 milhão de anos e uma vértebra devastada de 2 milhões de anos com tumor, mostram que o câncer tem incomodado há muito mais tempo do que imaginávamos. Logo, não é uma doença moderna.

Câncer no osso do pé

Pesquisadores da Universidade de Witwastersand (Wit), em Johanesburgo (África do Sul), descobriram o osso de pé de 1,7 milhão de anos atrás na caverna Swartkrans, um local conhecido pelos tesouros arqueológicos, especialmente restos humanos. A espécie exata a qual pertencia o osso ainda é desconhecida, mas é provável que seja um hominídeo, ou um bípede muito próximo ao ser humano. Em um estudo publicado no South African Journal of Science, os pesquisadores dizem que esta é a evidência mais antiga de um câncer maligno em um proto-humano.

O câncer foi identificado como um osteosarcoma, um câncer agressivo que tipicamente atinge pessoas mais jovens. Se não for tratado, pode resultar em morte.

“Em função da preservação, nós não sabemos se este osso do pé com câncer pertencia a um adulto ou uma criança, e nem se o câncer causou a morte deste indivíduo”, disse Bernhard Zipfel, cientista e coautor do estudo, em um comunicado. Ele disse que o câncer teria afetado a capacidade do indivíduo de andar ou correr, tornando essas atividades muito dolorosas.


Tumor na vértebra

Em um artigo relacionado e publicado no mesmo periódico, um time de cientistas descreveu o tumor mais antigo já encontrado em um fóssil humano — um tumor benigno achado na vértebra de uma criança Astralopithecus sediba, uma espécie bípede já bem estudada. Os tumores no osso foram achados em Malapa, também na África do Sul, e tem mais de 2 milhões de anos de idade. Antes desta descoberta, o tumor mais antigo já encontrado em um hominídeo era de uma costela de um Neanderthal, e com 120 mil anos de idade.

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Tumor encontrado na vértebra de um Australopitechus sediba destacado em rosa. Imagem por P. S. Randolph-Quinney et al., 2016

“A presença de um tumor benigno em um Astralopithecus sediba é fascinante não só pelo motivo de ter sido achado na região das costas, um local extremamente raro para a doença se manifestar em humanos modernos, mas também pelo fato de ter sido encontrado em uma criança”, disse Patrick Randolph-Quinney, da Universidade Central de Lancashire, em um comunicado. “Esta é, de fato, a primeira evidência da doença em um indivíduo jovem em toda a história de registro de fósseis humanos.”

Estas descobertas desafiam o pressuposto de que o câncer e tumor são causados pelo estilo de vida moderno e pelo meio ambiente. “Nossos estudos mostram que a origem dessas doenças ocorreram com nossas antigas gerações, milhões de anos antes de sociedades modernas industriais existirem”, disse Edward Odes, um cientista da Wits que contribuiu para os dois artigos. A natureza do câncer e sua origem são claramente mais complexas do que imaginávamos.

[South African Journal of Science 1, 2]

Foto do topo mostra pedaço de osso de pé de 1,7 milhão de anos. Imagem por Edward J. Odes et al., 2016