Mês passado tivemos o Motorola Droid, o primeiro handset com Android 2.0. Para alguém vendo de fora, parece apenas mais um smartphone Google, mas o 2.0 é mais do que isso: é a prova de que o Android finalmente veio para dominar o mundo.

Peraí, o que é exatamente o Android?

Nas palavras do Google, é “a primeira plataforma verdadeiramente aberta e ampla para aparelhos móveis”. Não significa muito, então eis uma explicação: é um SO móvel open-source baseado em Linux, completo com um gerenciador personalizável de janelas, kernel Linux 2.6 modificado, navegador baseado no WebKit e câmera embutida, calendário, mensagens, discador, calculadora, media player e aplicativos de álbum. Se isto lhe soa meio escasso, é porque é mesmo: o Android por si só não acrescenta muita coisa; na verdade, um telefone com Android puro mal pareceria um smartphone. Ainda bem que estes telefones não existem.

O Android é o Linux, visto que seus componentes principais são open-source e gratuitos e o Google deve publicar o seu código-fonte com cada release. Mas o verdadeiro cerne da experiência do telefone Android são os aplicativos Google como Maps, GChat, Gmail, Android Market, Google Voice, Places e YouTube, que são closed-source, o que significa que o Google é dono deles integralmente. Todo telefone Google vem com estes aplicativos de uma forma ou outra; assim, para o usuário, a distinção não é tão importante assim. Dito isto, de vez em quando ele levanta a cabeça, como daquela vez em que o modder Cyanogen teve que remover os aplicativos do seu Android personalizado para evitar ser processado pelo Google:

O assunto levantado é a redistribuição dos aplicativos proprietários do Google como Maps, GTalk, Market e YouTube. Eles são propriedade intelectual Google e a minha intenção é respeitar isso. Eu não distribuirei mais estes aplicativos como parte do CyanogenMod.

Isto pode levar a problemas mais mainstream (e confusos), como o tocante (foi mal o trocadilho!) problema do multitoque: os SO Android suporta multitoque no sentido de reconhecer múltiplos pontos de entrada simultaneamente na tela. Mas os aplicativos Android do Google não! Ou seja, quando uma empresa como a HTC vem e decide por diligentemente acrescentar multitoque ao SO, eles só podem acrescentá-lo às partes open-source, como o navegador (ou os seus próprios aplicativos closed-source), não aos aplicativos proprietários do Google. É por isso que o Hero possui controle de zoom com beliscada no seu navegador e nos álbuns de fotos, mas não no Google Maps.

O problema fica ainda menos trivial conforme os aplicativos ficam mais centrais à experiência Android. Você se lembra de como o Google Maps Navigation era, digamos, o recurso propaganda para o Android 2.0? Bem, ele era, mas tecnicamente falando, ele não faz parte do Android. É apenas parte de um aplicativo feito pelo Google para o Android e que irá junto com a maioria dos handsets Android. Exceto nos países onde o Google não possui dados de mapeamento bem-organizados. É isso o que está acontecendo com o Droid europeu, que, por sinal, tem multitoque no seu navegador, como o Hero. É por isso que a distinção importa.

Ou seja, por que se preocupar tanto com a definição e proteção deste componente open-source quando certamente o Google poderia simplesmente organizar um sistema operacional móvel closed-source e distribuí-lo gratuitamente, não é? claro, isto impossibilitaria que os fabricantes de handsets exercessem sua capacidade de livremente modificar certos componentes chave do SO, mas a verdadeira motivação, por mais estranho que possa parecer, tem menos a ver com telefones e mais a ver com, bem, todo o resto.

 

Como chegamos aqui

Vamos voltar até 7 de novembro de 2007, quando a aliança Open Handset – uma enorme coalizão das empresas da indústria móvel – apertou as mãos e anunciou ao mundo seu novo filhote. O seu nome era Android e nos disseram muito pouco sobre ele. No entanto, o que nos disseram foi praticamente tudo com chavões frustrantes e vagos:

Os fabricantes de handsets e operadoras wireless terão liberdade para personalizar o Android de modo a trazer ao mercado novos produtos inovadores com mais rapidez e custo muito menor. Os desenvolvedores terão total acesso às capacidades do handset e ferramentas que permitirão que eles criem serviços mais atraentes e user-friendly, levando o modelo de desenvolvedor de Internet ao espaço móvel.

Ficamos um pouco desapontados com o fato de o GPhone não ser exatamente um telefone mas, como para a maior parte das pessoas, isto soou bastante empolgante para nós. Vago, mas empolgante.

E foi assim que esperamos, pacientemente. E esperamos. Daí, quase um ano depois, pusemos nossas mãos no primeiro hardware a usar de fato o Android. Ele era chamado T-Mobile G1 e ELE ERA BOM. Então, seis meses mais tarde, chegou outro telefone – o Magic, ou MyTouch, que era mais ou menos idêntico ao primeiro, tirando o teclado. Mas somente dois anos completos após a primeira aparição do Android – quando não apenas a HTC, mas também a Motorola, Samsung e a Sony começaram a mostrar produtos fresquinhos – que ele começou a dar a sensação de ser mais do que apenas um experimento. E mais importante do que ter hardware sempre novo, o SO Android havia mudado também. E muito.

O T-Mobile G1 veio junto com o Android 1.0, que não estava exatamente carente de recursos, mas ainda dava a sensação de ser meio pelado. Tivemos que esperar até fevereiro de 2009 para termos aplicativos pagos aparecendo no Android Market, e em abril vimos a primeira grande atualização, o Android 1.5 “Cupcake” (as atualizações vêm todas em ordem alfabética e com nomes temáticos de docinhos). A seguir veio o 1.6 “Donut”, com o qual vem a maior parte dos novos handsets de agora. Depois o 2.0 (“Eclair”), que traz também integração com networking social, uma melhorada na interface, suporte a novas resoluções dos aparelhos, um SDK desenvolvedor fresquinho e suporte para o opcional Google Maps Navigation. Esta versão atualmente só é encontrada no Motorola Droid, mas deve começar a aparecer em outros lugares dentro de alguns meses. E aqui estamos. E isto é só metade da história.

 

O Android não é apenas um SO de telefone

Sabe aquela declaração que eu mostrei logo acima? Aquilo veio da aliança Open Handset, um consórcio de gente relacionada a telefones – fabricantes de handsets, fabricantes de chips móveis e afins. Mas vamos olhar ainda mais atrás outra declaração, dos primórdios do projeto Android, ainda no início de 2008:

O Android não é uma peça única de hardware; é uma plataforma completa de software ponta-a-ponta que pode ser adaptada para trabalhar com qualquer número de configurações de hardware. Tudo está lá, desde o bootloader até os aplicativos. Mesmo que você não esteja planejando lançar um aparelho móvel tão em breve, o Android tem muito a oferecer. Está interessado em trabalhar com um software de reconhecimento de fala? Procura fazer pesquisa com máquinas virtuais? Precisa de uma solução já pronta com Linux? Tudo isto está disponível, agora, como parte do Projeto Open Source Android, junto com bibliotecas gráficas, codecs de mídia e algumas das melhores ferramentas de desenvolvimento com as quais já trabalhei.

Praticamente todo o papo sobre o Android ao longo dos últimos dois anos tem sido sobre Android o SO de telefone, não o Android distribuição leve de Linux. Enquanto o Google estava ocupado lançando fortes atualizações voltadas a telefones, o Android começava a adentrar sorrateiramente em outras áreas, como se fosse uma doença. Uma boa doença, daquelas que todo mundo gosta! Sim, uma daquelas. Foi aí que as coisas começaram a ficar estranhas.

Você se lembra daqueles quase-netbooks Android? Tudo parte do plano. E o Nook da Barnes & Noble movido a Android? Não deveria ser surpresa. Navegadores Android? Por que não? PMPs? A Creative tem um. Molduras de fotos e set-top boxes? Já a caminho.

A maioria destes dispositivos não se parecerão como hardware Android para nós porque as nossas associações mais fortes com o SO são todas visuais e voltadas a telefones, como a tela inicial, a gaveta de aplicativos e o discador. No entanto, isto faz tanta parte da visão Android quanto os telefones – só não será tão óbvio.

O seu DVR Android não terá uma gaveta de aplicativos, mas compartilhará o kernel e um sistema de widgets inesperadamente bom. O seu PMP Android pode rodar uma interface personalizada, mas terá acesso a milhares de aplicativos, como se fosse um iPod Touch open-source. A sua moldura de foto Android pode se parecer como qualquer outra moldura de foto, mas quando cai a sua conexão wireless, ele terá uma tela decente e completa de configurações para ajudá-lo a retomar a conexão. Além de atualizações online. E talvez ainda custe alguns dinheiros a menos do que se esperaria, afinal, como devemos lembrar, o Android é gratuito. Este é o nosso futuro Android e ele parece ser animal.

 

O que acontece agora

O primeiro passo na dominação Android é necessariamente pelos telefones. O Android 2.0 significa que os handsets não são mais apenas interessantes; eles são verdadeiramente compráveis. Como disse o Matt recentemente:

Com o tempo, o Android pode muito bem vir a ser o telefone Internet, sem sombra de dúvida, em termos de capacidades puras….o potencial do Android 2.0 finalmente passa a sensação de ser tão enorme quanto a do iPhone e eu fico até arrepiado só de pensar nisso.

Os problemas que os telefones ainda têm – entre eles, péssima reprodução de mídia e a falta de um cliente de desktop nativo para gerenciar mídia – não são por conta do Android e sim do Google, que na verdade é apenas um grande patrocinador do Android. Ou o Google os resolve logo, ou o sonho das comunidades open-source e de desenvolvedores de aplicativos crescendo para preencher as lacunas virarão realidade. O que é certo é que o Google – ou alguém precisa cuidar deles se as futuras legiões de telefones Google quiserem ter sucesso com todo o seu potencial.

Falando em potencial, ele é enorme. Além de tudo o que rola com o Android, o timing é perfeito. O Windows Mobile está mancando com não uma, mas duas pernas quebradas, e os seus parceiros de hardware já se ligaram: a Motorola, recentemente um pária por si só, não quer mais saber da Microsoft; a HTC continua dando suporte mas silenciosamente tem largado as fileiras WinMo; a Sony Ericsson, que não vê nenhum verdadeiro hit dos seus telefones Microsoft há anos, está flertando com o Android. E, pelo que os consumidores podem ver, qualquer coisa que o Windows Mobile consegue fazer, o Android faz melhor.

E não para com a Microsoft. A Symbian, cujo chefe chamou o Android de “apenas mais uma plataforma Linux”, está perdendo terreno e perder parte da fatia da Sony Ericsson não ajuda. O Palm Pre, por mais polido e bonito que seja, não consegue acompanhar a explosão do inventário de aplicativos Android, multiplicando parceiros de hardware e incrível capacidade de atrair talentos. O BlackBerry da RIM em geral não é visto como concorrente do Android, mas o Android 2.0, junto com o WebOS da Palm e o iPhone OS da Apple, são as principais razoes para o BlackBerry OS parecer pesado e velho. Isto importa. A partir daí, o futuro fica claro: o Android e o iPhone serão as próximas superpotências de smartphones de consumidor.

E mesmo que leve 10 anos para o Google ajeitar os problemas do Android e fomentar a sua adoção, você pode esperar que o Android – ou seu pseudônimo não-oficial “Telefone Google” – torne-se um nome comum. Ademais, o Android começará a adentrar as nossas vidas e nossos lugares onde menos esperamos. Ele alimentará nossas set-top boxes, leitores de e-book, PMPs e sabe-se lá o que mais. Ele não será apenas o próximo grande SO de smartphone; ele será a silenciosa e invisível camada de software que fica entre todos os nossos gadgets portáteis e os nossos dedos.

Foto cortesia da NASA.