Nesta semana, a Sony lançou diversos aparelhos de áudio caros que, de acordo com a empresa, têm suporte a “áudio de alta resolução”, que, como “ultra alta definição” no mundo do vídeo, parece elegante. Mas o que áudio de alta resolução significa? E este tal de HRA vai fazer suas músicas melhorarem?

Áudio de alta resolução é um novo termo de marketing da indústria…

Na terça-feira, a Consumer Electronic Association, em parceria com a Sony Electronics e as gravadoras Warner Music Group, Universal Music Group e Sony Music, anunciou um grande impulso para o HRA. Nos meses que precedem a CES, você pode esperar ouvir muito sobre os supostos benefícios do HRA – e sobre os equipamentos caros que você vai precisar ter para armazenar arquivos de alta resolução e também para tocá-los.

Todos vencem se essa ideia pegar: fabricantes de hardware vão vender novos hardwares especializados, e as gravadoras vão (tentar) vender todo o catálogo delas novamente para você. E se as músicas realmente ficarem melhores, talvez até você saia ganhando.

Vale ressaltar que “áudio de alta resolução” é um termo confuso e não muito preciso, já que implica uma comparação com resolução de tela a la vídeo em 1920×1080. A resolução do áudio corresponde ao número de bits por amostra, enquanto a taxa de amostragem corresponde à frequência de resposta. Arquivos de áudio comprimidos e de baixa qualidade podem ter a mesma taxa de amostragem em formatos HRA, então não se engane.

…como resposta aos fones de ouvido e MP3 de baixa qualidade…

A iniciativa do HRA quer fazer arquivos de alta qualidade tão acessíveis e universalmente suportados quanto é o MP3 há mais de uma década. As massas andando nas ruas ouvindo MP3 através de EarPods podem estar curtindo a música, mas na verdade estão ouvindo uma das qualidades de áudio mais baixas em muito tempo.

Neil Young é um dos grandes defensores de que qualidade de CD não é bom o suficiente. Ele até criou uma empresa chamada Pono para vender arquivos de música de alta resolução e um tocador de música. Nesta semana, ele anunciou que o lançamento acontecerá no começo de 2014. Young reforça o argumento pró-HRA de maneira bem sucinta:

Há uma boa chance de você ouvir algo sobre a revolução na qual estamos trabalhando. Algo que vai melhorar significativamente a forma como você ouve e sente suas músicas preferidas.

Surpreendente, você diz? Que talvez a promessa de “som perfeito para sempre” propagada pelos inventores do CD foi um fracasso? E essa “qualidade de CD” promovida por gente como iTunes e criadores de MP3 foi apenas uma ideia de formato falho que eles estavam tentando emular?

Tanto MP3 quanto os EarPods são perversões portáteis e convenientes de qualidade de áudio. MP3s são arquivos pequenos e EarPods baratos, então não nos importamos que sejam ruins. De fato, muita gente – talvez até você! – vai notar uma significativa melhora na reprodução de som ao usar um hardware melhor ou arquivos de melhor qualidade. E, de verdade, equipamento melhor não significa nada sem arquivos melhores. É aqui que a alta resolução entra.

…que significa áudio de resolução melhor do que qualidade de CD…

Se o diagnóstico do problema da música na geração iPod é bem direto, a solução não é um simples formato de arquivo ou uma única peça de hardware. Diferentemente do Ultra HD do vídeo, que denota uma específica resolução de imagem, formatos de áudio e resoluções adotadas por audiófilos variam, portanto, o HRA não tem uma definição ou especificação literal. Eis o que a CEA explicou quando perguntamos a eles:

A CEA não tem uma definição específica para áudio de alta resolução. Nós podemos ter um entendimento melhor de definição quando fabricantes e gravadoras fizerem anúncios relacionados ao tema nos próximos meses.

As anteriormente mencionadas grandes gravadoras e a Sony Electronics concordaram que HRA significa “resolução maior” do que áudio 44.1 kHz/16-bit PCM de dois canais. A taxa de amostragem de áudio pode ser de 48 kHz/16-bit ou 192 kHz/24-bit. Os novos hardwares HRA da Sony prometem suporte a qualquer coisa.

Formatos de compressão com perdas, como MP3, não traduzem diretamente para esta linguagem de resolução (mais sobre isso abaixo), mas como ponto de comparação, vamos considerar as taxas respectivas de bits – dados transferidos por unidade de tempo – de MP3 de alta qualidade (320 kbps) e qualidade de CD (1.411,2 kbps)

…que algumas pessoas dizem ser melhor do que os CDs…

Uma legião de audiófilos insiste que até a qualidade de CD é comprometida. Em vez de extrair áudio sem compressão e sem perdas de CDs, esses entusiastas querem voltar à fonte do material e extraem os dados assim que possível. Muito parecido com pessoas que anseiam pelo som de discos de vinil, essas pessoas insistem que existem diferenças perceptíveis entre lossless 192 kHz/24-bit e 44.1 kHz/16-bit de fontes digitais. As pessoas usam palavras como soundstage, textura e calor para descrever a diferença. É bem subjetivo, mas há muitas pessoas que afirma isso, então a diferença deve existir, né?

…enquanto outros discordam…

Objetivamente, a qualidade de CD é o melhor que se pode conseguir. Pessoas que acham que áudio de alta resolução é bobagem dizem que é impossível algo soar melhor do que a qualidade de CD. A taxa de amostragem de 44,1 kHz do CD com 16-bit de profundidade não é um número aleatório elaborado pela Philips Corporation para arruinar nossos ouvidos.

Sem aprofundar muito na teoria de amostragem por trás de como eles chegaram a esses números, é o suficiente dizer que para o ouvido humano o áudio 44.1/16 é a reprodução matematicamente perfeita de som.

O especialista em codec de áudio Monty Montgomery explicou isso ano passado quando surgiu a informação dos planos de Neil Young para promover o áudio 192 kHz/24-bit. Ele concluiu:

Por que se opor ao 24/192? Porque é uma solução para um problema que não existe, um modelo de negócios baseado em ignorância intencional e enganação das pessoas.

…e pode trazer muitos problemas…

De acordo com a indústria, estamos prontos para o HRA porque espaço de armazenamento é tão barato e a banda tão ampla que não precisamos mais apostar em formatos de arquivos comprimidos. Não tão rápido: esses arquivos ainda são enormes e pesados. (eis algumas referências aos tamanhos de arquivos). Para dar uma ideia, um arquivo 96 kHz/24-bit ocupa 34.56 MB por cada minuto de áudio, comparado a apenas 1.44 MB de um MP3 192 kbps. Então pegue toda a sua biblioteca de música e multiplique por 24. É dessa quantidade de espaço em disco que você vai precisar. Em comparação, o áudio com qualidade de CD precisa de 10.84 MB por minuto – cerca de 7,5 vezes mais que um MP3 de boa qualidade.

E mesmo que você compre o novo tocador de música de 500GB da Sony por US$ 1.000, e mesmo que isso seja o suficiente para todos os seus arquivos, carregar suas músicas com você não vai ser tão simples. Sete horas de áudio de alta resolução a 96 kHz lotam um smartphone de 16 GB. E em relação às conveniências modernas como streaming de música – esqueça.

…mas ao menos dá opções.

Não vamos ser tão radicais quanto Montgomery, e, na verdade, há uma boa chance do áudio de alta resolução ser algo bom para seus ouvidos. O HRA é um exagero que ninguém pode pagar – mesmo se ele realmente for melhor – mas talvez sua existência torne as pessoas conscientes das opções dentro do seu alcance. Bom hardware e material fonte com qualidade de CD são acessíveis, exatamente como eram vinte anos atrás.