O tempo voa quando você está se divertindo. Mas você está no trabalho, e trabalho é chato. Então como a manhã já está acabando?

Quando nós falamos de “perder tempo,” não estamos nos referindo àquela noite fantástica, ou aquela semana de férias maravilhosa, ou o filme de três horas que não pareceu ter mais que uma. Não, quando nós ficamos aflitos por não ter tempo suficiente, ou ficamos sem saber pra onde exatamente todas aquelas horas foram, nós estamos falando sobre coisas comuns. O dia de trabalho. Um domingo preguiçoso que não aconteceu nada marcante. Dias que o tempo não tinha nenhuma razão aparente para voar, mas foi embora mesmo assim.

Por que isso acontece? Para onde todo aquele tempo foi? O segredo está no relógio do seu cérebro – um relógio evasivo, inexato e facilmente ignorável.

Primeiro de tudo, sim

Ao entender qualquer questão complexa, especialmente uma psicológica, a intuição não é o suficiente para nos levar muito longe. Muitas vezes você pode fazer uma teoria de como a mente funciona, e um homem de jaleco irá ajustar seus óculos, franzir a testa e soltar um cuidadosamente entonado “Na verdade…”

Mas não dessa vez. O que a maioria de vocês acredita saber sobre a percepção do tempo é verdade.

“Filósofos escreveram a respeito [da percepção do tempo] por um longo período, e a psicologia tem tido interesse nisso desde que surgiu como uma disciplina separada – desde o final de 1800,” explica o Dr. Frederick M. Brown, professor associado de psicologia e diretor do laboratório de performance de ritmos humanos da Universidade de Penn State, nos EUA.

Brown diz que a sabedoria popular sobre como o tempo “voa” está basicamente correta. “Nós sabemos que o tempo pode se arrastar dramaticamente, e que quando as pessoas ficam mais velhas, o tempo parece passar muito mais rápido.” A regra: “quando as pessoas estão interessadas em algo, elas quase escapam da dimensão do tempo.”

Isto confere com experiências cotidianas assim como décadas de experimentos e pesquisas. Apesar disso, a regra não explica o que acontece no meio termo entre entediado e encantado, quando não estamos nos divertindo, mas também não estamos conscientemente odiando a vida. Este tempo parece voar também.

O segredo, Segundo Brown, é uma coisa chamada habituação. Que se refere à adaptação gradual a um estímulo ou ao ambiente, “com uma resposta decrescente,” e explica porque certas sensações – o sabor amargo de uma lima, a dor de uma pele irritada, o susto de um som alto – parecem diminuir com o tempo. Mas isso também ajuda a explicar, diz Brown, como você às vezes “escapa da dimensão do tempo” – basicamente por perder noção dele.

“Se tem um barulho constante – um que seja notável, mas não terrivelmente nocivo – depois de um tempo nós passamos a ignorar.” O barulho do seu computador, o zumbido do motor, e até algumas músicas podem sumir ao fundo. A tarefa de ouvir estes barulhos diferentes muda conforme o que você estiver intenção em fazer, em termos de atenção.

O próprio ato de pensar sobre o tempo – Quanto falta para o almoço? Há quanto tempo eu estou aqui? Estou tão entediado! – tem a tendência de fazer parecer como se o tempo estivesse demorando mais para passar. É como esperar a água de uma panela ferver enquanto olha para ela. Isto é algo certamente chato de assistir. Nos Estados Unidos este exemplo, aliás, foi codificado coloquialmente como uma coisa chata (“A watched pot never boils” – Algo como: Assistir a água ferver, faz com que ela não ferva nunca), o que faz com que isso se torne mais chato ainda. Neste cenário, a importância do ato se classificaria assim: 1. Você está pensando sobre quanto tempo isso parece estar levando. 2. Você está pensando na água fervendo. 3. Você está fervendo água.

Ou, como Anthony Chaston da Universidade de Alberta coloca:

Imagine que você tenha um pequeno contador em sua cabeça, um relógio interno, que muitas pessoas acreditam que o cérebro de certo modo tem. Para acompanhar a passagem do tempo, você meio que tem que acompanhar, ou somar, e contar e juntar esses pequenos cliques. Certo? Você tem que acompanhar quantos estão passando. Mas se sua atenção está direcionada para uma tarefa diferente, como uma tarefa de busca visual, então você às vezes vai perder alguns dos cliques que passarem.

E acima disso, como Brown explica, o inverso é verdadeiro. “Quando as coisas se tornam irritantes, como a água pingando da torneira, você pode na verdade ficar mais sensível, aquilo se torna o foco de sua atenção, então é quase como se você estivesse esperando a próxima gota e você não perde a noção de que o tempo está passando.” Substitua a “torneira pingando” pela “maldita tarefa que você tem que fazer,” e dá para ter uma ideia.

Mas por quê?

Agora que nós entendemos (superficialmente) os padrões que fazem o tempo voar, nós ficamos com uma pergunta muito mais básica: Por que diabos o nosso cérebro funciona dessa maneira?

É fácil estudar a percepção do tempo das pessoas, e muitas pessoas fizeram isso. E eles descobriram todo tipo de coisas estranhas:

• O Tempo passa mais devagar para pessoas que estão conscientemente acompanhando-o do que para aquelas que não estão. (O estudo informou metade dos participantes que eles seriam perguntados sobre a duração do experimento, mas a outra metade não.)

• A temperatura corporal pode afetar a percepção do tempo. (Ele passa mais devagar quando você está frio.)

• A taxa de pulso não afeta a percepção do tempo.

• Drogas podem fazer todo tipo de coisas fantásticas/aterrorizantes com a nossa percepção do tempo. (Vide: Nossos anos de faculdade)

• Certas condições de saúde podem fazer o mesmo. (Um ataque epilético, por exemplo, pode parecer que durou muito tempo, mesmo que tenha acabado em uma questão de segundos.)

Eis o problema: Não existe uma resposta clara do porquê estas coisas afetam a percepção do tempo. Nós podemos falar bastante sobre concentração e foco, mas não podemos apontar o que, em nossos cérebros, controla esse tipo de coisa. Ainda. Em um artigo publicado na revista Philosophical Transactions of the Royal Society of Biological Sciences, Marc Wittman explora dezenas de possíveis causas, mas chega a esta conclusão:

Apesar do fato de o tempo ser um fator essencial para entender o comportamento complexo, os processos subjacentes à experiência do tempo e o tempo da ação não são completamente compreendidos.

Em outras palavras, nós não sabemos realmente por que isso acontece.

Mas nós temos uma boa noção do porquê. Então da próxima vez que você ficar imaginando como pode já ser 5 da tarde, tenha certeza de uma coisa: seja o que for que você estivesse fazendo, e independente do tempo que pareceu levar, ao menos você estava dedicando toda a sua atenção a ela.

Ilustração original feita pelo artista convidado do Gizmodo Robert Grossman. Você pode ver mais do seu trabalho em seu website. Ah, e um agradecimento especial ao usuário zoutedrop do flickr pela sua fantástica foto de relógio, licenciada em Creative Commons.