Enquanto todo mundo tenta se recuperar da crise e as fabricantes de eletrônicos estudam cada próximo passo, é difícil conseguir informações precisas sobre quando as novidades das feiras de tecnologia chegarão ao consumidor. Mas juntando alguns fatos e conversas aqui e ali durante a viagem ao Japão, dá pra apostar que as bonitonas TVs 3D Full-HD estarão no mercado dos EUA e Japão no meio do ano que vem e, se a economia tiver se recuperado o suficiente, no Brasil, no segundo semestre, menos caras do que se poderia imaginar. Produzidas em Manaus pela Panasonic. Acompanhe o raciocínio.

Várias fabricantes mostraram suas TVs 3D Full-HD na CEATEC. Na minha opinião e de alguns outros que conversei, as melhores foram as de plasma da Panasonic e a bem inovadora Cell Regza, da Toshiba. Passei bem mais tempo na frente dessas duas que das outras TVs, então leve minha opinião "com um grão de sal", como dizem os americanos. Independente de ter a qualidade superior ou não (estamos falando de protótipos), a Panasonic é quem deve investir mais pesadamente em popularizar a tecnologia 3D Full-HD. Ela tem três motivos para isso.

O primeiro é, bem, ser a primeira. "Assim como a Sony virou sinônimo de Blu-Ray, queremos que a Panasonic seja a marca que as pessoas pensem quando falarem de 3D", afirmou Masayuki Kozuka, gerente geral de estratégias para dispositivos de armazenamento (o homem do Blu-Ray na Panasonic). Largar na frente pode ser mais caro, mas tem o benefício de ter a marca mais reconhecida na hora das pessoas comprarem algum produto.

O segundo é recuperar o poder no mercado das TVs de plasma, que por mais que seja defendida por videófilos, resenhas estelares no HD Guru ou por um dezenas de fanáticos no HT Forum, perdem ano a ano participação nas vendas para as LCDs. Como espera-se que as TVs Full-HD 3D tenham no mínimo 50”, o plasma tem vantagem. E o fato de o painel de plasma ter uma taxa de atualização melhor que as TVs de LCD (240 Hz é o mínimo para um 3D em altíssima resolução decente) dá uma vantagem bem interessante ao plasma. A Panasonic, apesar de vender LCDs, é a maior defensora das TVs de plasma, e pode tentar reinventar a tecnologia como "a melhor para o 3D".

O terceiro motivo é o filme Avatar, de James Cameron. Um filme, Pedro? É. A Panasonic fez um pacto de sangue com a Fox para promover a película. O diretor James Cameron usa câmeras Panasonic, fala maravilhas do equipamento e das novas possibilidades do formato enquanto a empresa japonesa coloca o belíssimo trailer do filme em tudo quanto é demonstração de tecnologia. Eu vi uma dessas, tirei essa foto aí embaixo, que parece só feia e fora de foco pra você. Mas é impressionante com o óculos. Avatar sairá no cinema no dia 18 de dezembro e, imagina-se, 6 meses depois em formatos domésticos. O acordo Fox e Pana envolve "divulgar o Blu-Ray 3D" do filme. Divulgar sem ter aparelho que leia? Por isso aposto que no fim de junho ou início de julho os tocadores e TVs de Blu-Ray 3D Full-HD estarão à venda lá fora, com um azulíssimo Avatar de brinde.

E no Brasil?

Perguntei a Hitoshi Otsuki, membro do conselho dos diretores da Panasonic e responsável pela operações fora do Japão quais eram os planos pra cá. Ele foi surpreendentemente direto: se, nos EUA e Japão, as TVs 3D responderem por 15% do total de vendas, elas serão fabricadas no Brasil e vendidas aqui também, no "segundo semestre". O upgrade necessário à fábrica é mínimo, e com a demanda identificada, a produção local se justificaria – o que diminui o preço ao consumidor final em mais de 50% em relação ao modelo importado. Mas Otsuki-san, os brasileiros mal passaram para o Full-HD! Faz sentido pular uma etapa? "Pode acontecer. Vamos observar".

Mas em relação ao preço? Obviamente todos evitam ser específicos para não espantar futuros compradores. Mas o gerente de marketing e planejamento da Panasonic para a América Latina, Masato Okumura, disse que as TVs em 3D se posicionariam no mercado brasileiro mais ou menos como as TVs com iluminação por LED da Samsung chegaram este ano. Mais caras, mas compráveis por se tratarem de uma nova tecnologia aos olhos do público – hoje o modelo de 40” de LCD-LED da Samsung já pode ser encontrado por cerca de R$ 5.000. É lícito chutar o preço de entrada para a 3D Full-HD mais ou menos nessa faixa, talvez um pouco mais acima já que o tamanho mínimo seja 50”. Mas não tenha dúvidas que as concorrentes diretas das Panasonic serão exatamente as LCD com iluminação por LED da Samsung, a princípio.

Agora falta esperar vir o conteúdo. Além de Avatar, outros filmes de bastante sucesso em potencial já sairão 3D de fábrica, como "Christmas Carol", uma fábula com Jim Carrey, Toy Story 3 e Shrek 4º. Up, a animação que periga concorrer ao Oscar, também tem uma versão tridimensional esperando sair em Blu-ray. Não é muita coisa, mas é um começo. Lembra dos laserdiscs dos anos 90? Sempre há gente disposta a comprar uma nova tecnologia, mesmo que falte conteúdo. Os tais early adopters.

Meu palpite é que as TVs Full-HD 3D realmente chegarão por aqui no fim do ano que vem, ainda meio como nicho. Mas virarão objetos de desejo, mostradas com destaque nas lojas especializadas. Se a Toshiba tivesse uma presença mais forte no Brasil, faria uma briga bonita com as Panasonic com sua Cell Regza. Mas como ela não vem, a Panasonic poderá ter uma supremacia relativa, como a Samsung desfruta hoje (ao menos aos olhos dos consumidores e varejistas) com suas LCDs com LED ocupando praticamente sozinhas a posição de TVs premium.

Mas não tenha dúvidas: o 3D Full-HD vai fazer sucesso sim no Brasil, em menos tempo que se poderia imaginar. Isso porque para o público leigo, a diferença de imagem de DVD para HD não é tão perceptível – basta ver o número de pessoas que usam TVs em alta-definição com cabo composto. A mudança de 720p para 1080p é menos notável ainda. Mas quando criaturas fantásticas pulam pra cima de você em altíssima definição, até sua vó que não enxerga muito bem vai ver a diferença. E você se verá de repente economizando para comprar uma belezinha dessas.

 

* O Gizmodo Brasil viajou ao Japão a convite da Panasonic. Voltou hoje e vai postar um monte sobre o futuro nas próximas duas semanas. Acompanhe outros assuntos nipônicos clicando em Giz no Japão ou no meu Twitter.