No Brasil, graças a smartphones cada vez mais espertos, o número de pessoas que acessa a internet pelo celular cresce mês a mês. No Japão, desde 2006, há mais gente navegando em telinhas de celulares do que em PCs. A internet móvel veio pra ficar? O que as empresas estão fazendo para aparecer nela? O que a diferencia da web comum? No Giz Reunions dessa semana recebemos Marcelo Castelo, 32, um dos cinco sócios-diretores da F.biz, uma das maiores e mais destacadas agências de publicidade digitais do Brasil, para falar sobre isso. Marcelo é responsável pela unidade de negócios de Mobile e atende clientes como Unilever, Cadbury, Campari e NetShoes. Com um olho em seu inseparável iPhone e outro em uma apresentação caprichada, Marcelo nos falou um pouco sobre o da rede mundial de bolso. 

 

 

O futuro da plataforma mobile

– Para Marcelo, o pleno desenvolvimento da internet móvel no Brasil depende de três fatores fundamentais: 

Rede
* A popularização do 3G. "E os preços dos pacotes de dados das operadoras tendem a subir antes de cair – a demanda ainda é estupidamente maior do que a oferta", afirma Marcelo. 
* Um atalho bem brasileiro para esse gargalo é o fenômeno dos caçadores de WiFi – 56% da navegação em internet móvel no Brasil medida pela AdMob, a empresa de publicidade mobile do Google, em fevereiro, vinham de WiFi e não das operadoras. É o "gato" digital: o sujeito não assina o pacote 3G da operadora mas se conecta às redes WiFi que vai encontrando pelo caminho – mesmo que clandestinamente. 
* Há claramente um perfil de usuário para quem a internet móvel e os Smartphones representam a inclusão digital. "O cara não tem mais nenhum equipamento ou conexão relevante em sua vida, mas tem o celular dele, com tudo dentro, e a partir dali consome todo tipo de conteúdo", diz Marcelo.

Aparelhos
* Já temos 8,5 milhões de aparelhos com linhas 3G no Brasil – números de fevereiro de 2010 – quase o dobro de um ano atrás.
* Segundo estudo da RBC Capital Markets, as vendas de Smartphone no mundo vão superar as de PCs em 2011.
* Em 2013, segundo estudo do Yankee Group, os Smartphones representarão 38% do mercado mundial de celulares.
* Os Smartphones são mais rentáveis para as operadores – elas ganham 20% a mais com usuários desse tipo de aparelho.

Conteúdo
* Qualquer site que queira ter presença relevante na plataforma mobile precisa ser gerado em três versões: Touch, Smartphone e Wap – que no Brasil, apesar de descendente, ainda responde por 70% dos acessos.
* Hoje a experiência de consumir conteúdo nos sites mobile ainda é bem pior do que nos sites web.
* Segundo Marcelo, killer applications, como o Twitter, tem um papel fundamental em virar esse jogo. "A experiência do Twitter na tela pequena, ao contrário de outros sites, é melhor do que na tela grande. Com o Facebook, é a mesma coisa", afirma.
* Plataforma mobile com Flash ou sem Flash? A briga da Apple com a Adobe vai longe e boa. A turma de Steve Jobs aposta no HTML 5. O Flash, segundo a Apple, causaria 60% dos travamentos nos dispositivos da empresa e consumiria energia demais das baterias. Quem vencerá a rinha? Só Deus sabe – e não estou me referindo a Steve Jobs!
* O FourSquare é o novo Twitter? "Eu aposto em redes sociais baseadas na geolocalização", diz Marcelo. Outro brinquedinho novo que Marcelo nos trouxe: www.tat.se. Vai lá.

 
Publicidade na Internet

– Os grandes anunciantes brasileiros (destaque de Marcelo para a Fiat) já investem 20% da sua verba de marketing na internet. A média, considerando todo o mercado brasileiro, é de 5%. A tendência para o futuro próximo, entre 5 e 10 anos a contar de hoje, é que a internet seja no Brasil o segundo meio que mais recebe investimentos, logo depois da TV aberta – que hoje ainda consegue a proeza de atrair 70% das verbas de publicidade no país.

– No Japão, já se acessa mais a internet do celular do que do computador. No mundo, isso vai acontecer em 2013, segundo estudo do Gertner Group. 

– Levantamento realizado recentemente pela própria F.biz: 94% dos sites das 100 maiores empresas do Brasil não têm versão para a tela pequena.

 

Mobile

– A plataforma Wap está em declínio. Hoje fatura um quarto, ou menos, do que já faturou. Apesar da entrada das classes C, D e E no mercado, com celulares mais acanhados, a migração dos usuários para o Smartphone, de gente querendo navegar em sites inteiros, e não nas versões mobile/wap, é muito forte e irreversível.

– Dos 150 funcionários da F.biz (cujo faturamento tem crescido, segundo Marcelo, 40% ao ano), 25 trabalham só com mobile. Perguntamos sobre as apostas que Marcelo faz para o futuro da plataforma: "Eu aposto em sms. E muito em internet móvel", ele responde. 

– O número de page views dos grandes portais brasileiros em sua versão mobile ainda representa apenas 0,001% dos page views obtidos em sua versão web. Já o clicktrough em publicidade mobile é, em média, de 1%. Ou seja: dez vezes mais do que a média de CTR nos anúncios web, que gira em torno de 0,1%.

– O mercado mobile será dividido entre Apple, Google e Microsoft. Igualzinho ao que ocorre no mercado de internet e computadores.

– A Apple comprou a Quattro Wireless, empresa de publicidade mobile, para competir com a AdMob do Google. Dois dias depois da nossa conversa, o efeito disso ficou evidente no iAd presente no iPhone OS 4.0.

– Hoje há 170.000 aplicativos na Apple Store. Nos últimos 4 anos, foram feitos mais 4 bilhões de downloads para iPhone mundo afora.

 

Google

– "O Google está investindo tudo em mobile", afirma Marcelo. "Esse é o mote do CEO da empresa, Eric Schmidt. O Google acredita que o futuro está na internet móvel e não na web."

– As buscas no Google feitas a partir de celulares quintuplicaram em dois anos.

– No Japão, o Google já ganha mais dinheiro nos sites mobile do que nos sites de web.

 

O conceito de microtédio

– A tese de Marcelo é que o microtédio é um dos grandes incentivadores da internet móvel. É o seguinte: a internet móvel permite o acesso imediato a informações e a conteúdos online em curtos espaços de tempo – como os minutos que o sujeito passa engarrafado no trânsito ou esperando numa fila de supermercado ou entre dois compromissos. Eu pensei na hora: isso significa que as revistas serão banidas até mesmo da sala de espera… Afinal, é o que pensa Marcelo, "um aparelho com um bom browser, como o iPhone, proporciona ao longo desses minutos de ‘microtédio’ uma experiência muito melhor do que folhear uma revista antiga".

Nossa editora de brand content, Renata Mesquita, ponderou que fica conectada de quando acorda até dormir. E que resiste a ter um Smartphone simplesmente para não correr o risco de ficar conectada inclusive quando está na cama – e assim deixar de dormir. Rê disse também que a tese de Marcelo, do microtédio, só não seria válida no cabelereiro. Ao que Leo, editor-chefe do Jalopnik, prontamente confessou que já cortou o cabelo com o notebook no colo, plugado na rede 3G. Rê não se deu por vencida e afirmou que não se pode navegar só com uma mão enquanto a manicure mantém a outra sob custódia. Não resisti e lembrei que há muitos anos os homens aprenderam a navegar na internet utilizando apenas uma mão…

 

Agradecemos imensamente a F.biz e ao Marcelo por terem dividido um pouco do seu expertise conosco. O blog da F.biz sobre o mundo mobile é o www.mobilepedia.com.br e o perfil de Marcelo no Twitter é o @mcastelo.