Grandes desenvolvedores por trás de extensões que bloqueiam propaganda ou monitoramento de acesso à internet estão alarmados com as mudanças que o Google anunciou recentemente para o navegador Chrome. Como resultado, pelo menos uma das companhias está ameaçando tomar providências legais.

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As mudanças de design propostas substituiriam a API usada por extensões de privacidade como uBlock e Ghostery com uma outra em que “reduziria a efetividade de bloqueio de conteúdo e bloqueadores de propaganda”, reportou o site Register nesta terça-feira (22). A proposta deixaria filtros básicos funcionais do Adblock Plus, que, ressalta o site, o Google supostamente pagou uma grana para que suas propagandas passassem pelo filtro da companhia.

Desenvolvedores de extensões dizem, entre outras potencias consequências, que as mudanças acabariam com a competição entre bloqueadores de terceiro ao estabelecer novos limites em sua sofisticação, tornando mais difícil de proteger usuários do Chrome contra o rastreamento indesejado.

“Isso basicamente significaria que o Google está destruindo as proteções de privacidade de bloqueio de propagandas como conhecemos”, disse a Ghostery em um comunicado. “Eles fingem fazer isso por causa de privacidade e para melhoria do desempenho, mas, na realidade, os usuários ficariam apenas com formas limitadas de prevenir que terceiros interceptem seus padrões de navegação ou de se livrarem de conteúdos indesejáveis.”

Citando que a mudança seria um exemplo do “mau uso” da dominação de mercado do Google, a Ghostery informou que “consideraria apresentar uma queixa antitruste”, caso a empresa siga em frente com a ideia.

Abaixo a forma como o Ghostery descreveu a proposta:

Hoje, extensões de navegadores podem usar a API webRequest do Chrome/Chromium para bloquear requisições, que é o pré-requisito para bloquear propagandas e, mais importante, rastrear scripts usados para monitorar o comportamento dos usuários e construir o perfilamento deles. Na proposta do novo modelo, a API webRequest será substituída por uma nova API declarativeNetRequest. Essencialmente, isso significa que uma extensão pode enviar para o Chrome/Chromium uma lista de padrões de bloqueio e o Chrome/Chromium fará o bloqueio baseado nestes padrões. Não será mais possível modificar ou matar requisições potencialmente perigosas ou que invadem a privacidade dos usuários. A proposta imporia grandes limitações aos desenvolvedores de extensões e tornaria mais difícil para os usuários se protegerem.

Inicialmente dizendo à mídia que a proposta está “sujeita a mudanças”, o Google sinalizou nesta quarta-feira (23) que estava se preparando para pôr rédeas nos planos. “Queremos nos assegurar que todos os usos fundamentais ainda são possíveis com estas mudanças e estamos trabalhando com desenvolvedores de extensões para ter certeza que elas continuem funcionando”, disse um porta-voz do Google ao Gizmodo.

O Register também comentou que houve preocupação por parte de Raymond Hill, desenvolvedor chefe da uBlock Origin — uma extensão de bloqueio de conteúdos com mais de 10 milhões de usuários ativos no Chrome, que disse que o software de privacidade deles “deixaria de existir” se o Google implementasse a proposta descrita no documento público.

Hill também disse que as mudanças também prejudicariam a uMatrix, uma extensão com controles granulares que permite que usuários bloqueiem conexões e conteúdos por tipo de dado. Ele e outros desenvolvedores têm discutido ativamente o assunto no Chromium bug tracker, embora um engenheiro de software do Google tenha bloqueado a sequência da conversa na terça-feira após deletar vários comentários relacionados. “Eu sou um desenvolvedor de bloqueador de propagandas (AdGuard) e, da nossa perspectiva, a mudança proposta será mais incapacitante que a feita pela Apple quando eles introduziram sua API de bloqueio de conteúdo declarativo”, diz um dos comentários que não foram deletados.

A resposta inicial dos desenvolvedores do Google por trás das mudanças, de acordo com a própria documentação deles, é fornecer “melhor privacidade para os usuários” ao prevenir extensões de ler “requisições de rede feitas em nome do usuário.”