O imposto para empresas nos EUA é de 35%. O Google, criado em parte com dinheiro dos contribuintes e hoje com ações a US$607 cada, paga 2,4% de imposto. Como isto é possível? Através de diversos truques contábeis usando contas no exterior, como o "sanduíche holandês" e o "double Irish".

A taxa extremamente baixa que o Google paga – menos que pessoas físicas, com certeza – remete a um acordo fechado entre a empresa e a Receita Federal americana. Eles deixaram o Google licenciar sua tecnologia de busca e propagandas online para uma subsidiária na Irlanda – a Google Ireland Holdings – que inicia um longo sifão internacional de grana que termina no paraíso fiscal de Bermuda.

Licenciar tecnologias do Google tem um custo, o que permite à empresa "de fachada" do Google evitar a lei tributária da Irlanda. O dinheiro gerado na Irlanda é transferido para a Holanda, que, pela legislação da União Europeia, evita que o governo ponha as mãos na grana do Google. De lá, a receita é paga para outra subsidiária em Bermuda, onde ele se torna basicamente invisível – pela lei irlandesa, o dinheiro enviado para essa ilha não requer a apresentação de quaisquer documentos financeiros.

Usar a Irlanda como um lugar intermediário para dinheiro é algo comum: a Microsoft faz isso, a Apple faz isso, a IBM, e o Facebook também quer fazer. Então por que isto é importante? Será que deveríamos parabenizar o Google por ser esperto – como esperaríamos que eles fossem – por economizar tanta grana?

Abraham J. Briloff, professor emérito de contabilidade na Baruch College, diz: o Google "divulga que não faz o mal, mas pratica o mal debaixo do nosso nariz. Quem foi que pagou pela base sobre a qual eles construíram estes bilhões de dólares de receita? Isso foi pago pelos cidadãos dos EUA."

Quando Briloff fala da "base" sobre a qual o Google foi erguido, ele está falando da pesquisa que levou ao algoritmo PageRank, usado pelo motor de busca. Ele foi criado quando Larry Page e Sergey Brin, fundadores do Google, estudavam na Universidade Stanford com financiamento da National Science Foundation – cujo dinheiro vem dos impostos. Ou seja, os impostos ajudaram os dois a alcançarem o sucesso, e agora eles não querem devolver isso à sociedade.

Mas será que isso é tão grave assim? Políticos americanos acreditam que os impostos sobre empresas são muito altos no país, e a função do Google é minimizar custos e impostos de forma legal – se eles pagassem os 35% de imposto, em vez de economizar US$3,1 bilhões nos últimos três anos, o valor da empresa seria cerca de 17% menor, de acordo com um analista consultado pela Bloomberg. Além disso, o dinheiro precisa pagar impostos quando sai do paraíso fiscal e volta aos EUA – tecnicamente, o Google só está atrasando o pagamento dos impostos, não evitando-os permanentemente.

Só que, na prática, o dinheiro raramente volta em grande quantidade, e as empresas assim evitam pagar os impostos. O governo americano já tentou implantar medidas para capturar esse imposto – por causa dessas táticas contábeis, cerca de US$60 bilhões não vão para os cofres públicos – mas o lobby de grandes empresas impediu o projeto de lei de seguir em frente.

No fim, talvez o Google não seja mau – talvez seja apenas capitalista. [Bloomberg]