O Facebook anunciou no mês passado que iria banir nacionalistas e separatistas brancos da rede social, acabando com a bizarra distinção que a empresa fazia entre essas ideologias e a supremacia branca. A mudança de diretrizes, primeiro noticiado pelo Motherboard, pareceu um progresso. Porém, como tudo que envolve o Facebook, lá vem a decepção inevitável.

Um levantamento de dados muito básico conduzido pelo Gizmodo revelou que uma série de grupos de ódio de nacionalistas e separatistas brancos que são acompanhados pelo Southern Poverty Law Center (SPLC), uma organização sem fins lucrativos que atua na defesa de direitos civis, ainda mantêm páginas públicas na plataforma.

Procuramos no Facebook por aproximadamente 170 grupos da lista de observação do SPLC. Cerca de 35 das organizações ainda estavam ativas na plataforma, com base em seu nome, descrição e localização. Quando cruzamos manualmente informações como líderes de grupo e sites externos, identificamos um total de 16 grupos de ódio com páginas públicas no Facebook. Metade ainda estava publicando ativamente, e a maioria operou continuamente por cinco ou mais anos.

Nossa decisão de confiar na pesquisa do SPLC — especializado em rastrear grupos de ódio e antigoverno — foi baseada nas próprias decisões do Facebook como empresa. A chefe de desenvolvimento de políticas globais do Facebook, Monika Bickert, disse ao Comitê Judiciário da Câmara dos EUA em julho passado que o SPLC estava entre as mais de 100 organizações das quais recebeu contribuições. “Estamos trabalhando não apenas com o Facebook, mas com a rede mais ampla de empresas do Vale do Silício há mais de quatro anos”, disse Keegan Hankes, analista sênior de pesquisa do SPLC, ao Gizmodo em uma entrevista por telefone.

Alguns dos grupos identificados estão, como seria de esperar, cada vez menores. A “Igreja Divina Internacional da Web”, uma seita religiosa fundamentalista encabeçada por um “suposto ventríloquo neonazista“, tem apenas 212 seguidores; outro, com um único membro, declara em sua descrição de grupo “somente brancos, por favor”. Mais alarmantemente, a Arktos Media, cujo antigo editor-chefe descreveu a operação como “a imprensa mais significativa na ‘alt-right'”, acumulou 43.605 seguidores nos últimos oito anos, qualquer um dos quais pode tocar no botão “Comprar Agora” do Facebook para comprar as obras do fascista Aleksandr Dugin, ligado ao Kremlin.

No total, o SPLC rastreia pouco mais de mil grupos (o número é grande assim porque muitos são versões regionais da mesma organização guarda-chuva). Com as ferramentas do Facebook e a escala de dados que ele tende a usar para identificar conteúdo e usuários problemáticos, é difícil entender como esse contingente de grupos de ódio escapou da detecção da empresa, especialmente porque grupos como o SPLC fizeram o trabalho de identificá-los primeiro.

Uma pesquisa superficial como essa não revelou, é claro, nenhum dos grupos com nomes discretos ou escondidos ligados a grupos de ódio nacionalista branco — tática que Hankes disse ter visto empregada por esses grupos para fugir de detecção.

No entanto, o processo de confirmação da autenticidade desses grupos revelou várias dezenas de outros grupos com tendências semelhantes, seja por meio de posts cruzados entre páginas, seja por meio das próprias recomendações do Facebook (não acreditamos que essas recomendações tenham sido influenciadas pela utilização prévia da plataforma, uma vez que as confirmações foram realizadas com uma nova conta de usuário). Estas páginas incluíam nomes como ” O Sul Se Levantará Novamente”, “Fascismo Revolucionário”, “Zyklon A” (uma referência à substância química baseada em cianeto usada pela Alemanha Nazista para matar inúmeras pessoas durante o Holocausto), “Vigilância de Morte da Direita” e uma página de um livro chamado “O Mito da Culpa Branca” — que, apesar das recentes repressões a materiais desse tipo, ainda está disponível para compra na Amazon.

“É muito, muito frustrante ouvir repetidamente que este é um desafio tão difícil de resolver quando se fala de um número relativamente pequeno de grupos”, disse Hanke. “E nem sequer estamos falando do problema mais desafiador, que é tirar conteúdo tóxico da sua plataforma em todos os lugares. Nem sequer conseguimos que eles tirem da plataforma grupos de ódio, grupos de ódio organizados que listamos em nossa documentação.”

“O Facebook e muitas outras empresas semelhantes não têm sido nem um pouco proativas, têm sido apenas reativas. E normalmente só a imprensa as faz agir”, disse Hankes. “A imprensa ou uma tragédia.”

Na segunda-feira (8), o Buzzfeed informou que o Facebook optou por proibir uma série de figuras reacionárias canadenses que apoiam crenças nacionalistas brancas, como Faith Goldy, a frente nacionalista canadense e a Soldiers of Odin. Goldy — juntamente com outros nacionalistas brancos — foi banida do Airbnb na semana passada depois de a empresa ter sido alertada pelo Gizmodo para o fato de a plataforma abrigar essas figuras controversas durante a Conferência da Renascença Americana, que acontecerá em maio.

Depois de ser contatado pelo Gizmodo sobre os grupos de ódio ainda presentes na rede social, um porta-voz do Facebook declarou que a plataforma investigaria as páginas que enviamos e explicou que “começamos a aplicação da política na semana passada, e, agora, a aplicação é baseada nas denúncias de usuários, então é altamente possível que muito desse conteúdo/essas páginas não tenham sido sinalizadas para nós”. O porta-voz também apontou que o Facebook tem “uma proibição de longa data contra organizações e figuras de ódio e que o trabalho (nessa frente) é muito proativo”.