Agachada atrás de um delgado eucalipto em uma linda manhã de sábado, eu olho pela mira da minha arma. Encontro alguém correndo pela floresta. Miro na sua cabeça. E disparo. A voz robótica na minha cabeça me diz "BAIXA".

Minha vítima para e olha ao seu redor confusa, mas não faz nenhum esforço para se esconder. Então eu continuo disparando até minha arma gritar "Arrrrrrgh!", significando que eu dei o tiro mortal. As luzes LED na cabeça do meu oponente piscam vermelho e ele levanta a arma ao ar. Esta minha arvorezinha está sendo o local perfeito para emboscar atacantes. Acho que eu gosto de matar pessoas de mentirinha.

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Hoje é dia de BattleSFO, um torneio de capturar a bandeira com laser tag que leva o dia inteiro. O campo de conflito é um bosque de eucaliptos numa colina em San Bruno, Califórnia, 45 minutos a sul de São Francisco, no Parque Estadual Junipierro. Tem umas 30 pessoas divididas em pelotões de 5 a 7 cada. Cada jogador se veste com detalhes em diversas variedades de camuflagem, alguns com tinta preta de guerra sob seus olhos. Eles não são geek quanto eu achei que seriam. Mas, pensando bem, este não é exatamente o tipo de laser tag que todos brincaram quando crianças. O equipamento é maior e mais malvado, mesmo que os jogadores não o sejam.

Praticamente ninguém da multidão, em sua maioria homens, havia brincado de laser tag em um espaço aberto antes. Em sua maior parte eles são amistosos, apesar de um tanto tímidos quando pergunto sobre eles. Uma equipe é composta por quatro caras que estudaram juntos na faculdade — um engenheiro elétrico, um carpinteiro, um operador de bolsa. Outra equipe compõe uma banda de rock local (eles pareciam mais interessados em beber cerveja e correr pela floresta vestidos em trajes de combate do que de fato jogar para ganhar). E tem o grupo de três cavalheiros asiáticos de meia idade e um dos seus filhos que se reúnem com frequência para competir. Eles descobriram o jogo no site Meetup.com. Raymond Wan, que convenceu os outros a se juntarem a ele na floresta, explica que normalmente eles jogam paintball. "As armas e a comunicação por rádio fazem a grande diferença", diz ele. "Eu sou uma pessoa de estratégia. Isto é muito mais divertido".

Mas entre os novatos havia alguns veteranos da guerra de armas de raios.

O general destes minúsculos exércitos de macaquinhos hoje é Ziggy Tomcich. Mais pela manhã, Tomcich executou suas tarefas como organizador do evento, correndo pra lá e pra cá pela área da mesa de piquenique, também conhecida como comando central. Ele é do tipo de cara meio atrapalhado e boba, mas sua empolgação era palpável e eu não consegui conter o meu riso ao antecipar a hora de eu botar minhas mãos nestas armas de mentirinha e olhar pela minha mira um adversário descuidado. Enquanto eu assistia ao Tomcich desmaranhar os headsets, distribuir bandanas de diferentes cores e se certificar de que todos estavam se registrando corretamente, ficou claro para mim que, apesar de seu emprego normal ser engenheiro de som da Ópera de São Francisco, jogar laser tag é a sua verdadeira paixão da vida.

Tomcich joga isso desde que é adolescente. Correndo pela arena coberta em Baltimore aos 15 anos, Tomcich ficou viciado. Após se formar na faculdade, ele começou a trabalhar como designer, marqueteiro e consultor para diversas arenas por todo o país. E então, em 2006, Tomcich levou o laser tag ao próximo nível. Participando dos jogos Armageddon no Reino Unido e na Suécia, onde os jogadores competem em torneios de 3 a 4 dias, Tomcich jogou laser tag em campo aberto pela primeira vez. Quando ele voltou a São Francisco, Tomcich percebeu que a cidade carecia do tipo de jogo que ele realmente amava. Estar em uma área aberta e jogar laser tag era algo, achava ele, que todo mundo deveria fazer.

"Pra mim, laser tag é um esporte radical", diz ele. Para ele, parte da diversão e o motivo pelo qual ele abriu o site SFLastag.org é a ideia de que é simples de se jogar e cria um ambiente altamente social. "Diferentemente da maioria dos demais esportes, os jogadores de primeira viagem no laser tag em campo aberto conseguem se dar muito bem contra jogadores já acostumados com ele. É tudo uma questão de estratégia e tática".

Antes da primeira batalha, "Cypher", também conhecido como Todd Robinson, que é sócio do SpecOps Live Play, uma empresa na Califórnia que fornece o arsenal, deu a todos uma breve descrição dos seus equipamentos. A SpecOps importa suas armas de uma empresa australiana chamada Battlefield Sports, em essência uma fabricante de armas que lida com brinquedos. A empresa fabrica de maneira personalizada 10 modelos diferentes de armas de jogo, desde fuzis sniper a submetralhadoras — todas equipadas com miras laser de verdade, alto-falantes para comunicação direta e sensores para registrar em tempo real os números do jogo. As armas podem imitar até 69 modelos diferentes, desde recuo, disparos por minuto, tempo de recarregamento e até o clarão emitido pela boca da arma (em essência, LEDs). A SpecOps trouxe fuzis de assalto M4, submetralhadoras, carabinas e fuzis sniper.

Durante o discurso de Robinson, Tomcich fez coro: "Não aponte a sua arma contra pessoas que não sejam jogadoras de laser tag. Estas armas não se parecem exatamente como sendo da Hasbro ou da Estrela". Para este jogo, toda arma possui 99 pentes de 50 balas. Aqueles com armas menores recarregam em aproximadamente 5 segundos, as maiores entre 7 e 10 segundos, então Robinson recomendou que se procurasse alguma cobertura enquanto recarrega. "As ‘balas’ quicam no chão", diz ele. Para esta partida, eles desabilitaram o fogo amigo. Mas quando eles acertavam os alvos laser atados a cabeças que pertenciam a inimigos, as armas vocalizavam a ação como se fossem armas com comentaristas esportivos embutidos sintetizando o status atual das vítimas como "baixa", "matou" ou "já morto".

Conforme ele prosseguia na explicação, a feição de Robinson estava mais séria que de qualquer outro no bosque de eucalipto. Ouvi-lo dar a descrição de cada arma e como elas funcionavam me deixou muito claro que, enquanto alguns estão aqui para brincar com um jogo, para outros o laser tag é um estilo de vida. Em outras palavras, é bom eu cuidar muito bem das armas dele.

Honestamente, as armas são um tanto intimidantes. Pra começar, elas são enormes e eu, errr….eu sou pequenininha. De fato, as armas são tão pesadas que eu optei pela menor que pude encontrar. Eu também era um das duas únicas garotas no campo. O pai de Cypher, que também é sócio da SpecOps, me disse que as mulheres na verdade tendem a se sair melhores neste tipo de laser tag que os homens. As mulheres, disse ele, ficam lá atrás e pensam taticamente sobre o jogo. Os caras às vezes têm a tendência de sair correndo feito Rambo e atirar em qualquer coisa que veem. A minha tática então já estava definida: eu esperaria que os meus inimigos viessem a mim.

O jogo começa e eu assumo a minha posição. Quando eu atiro nas pessoas que caem na minha armadilha, elas ficam paradas, olham ao seu redor e saem atirando loucamente sem fazer nenhum esforço para encontrar um abrigo. Aqueles contra quem atiro mais de 20 vezes são mortos, enviados de volta à área de ‘respawn’ (também conhecida como Comando Central, também conhecida como mesas de piquenique) onde Robinson dava reset neles, reativava seus equipamentos e os enviava de volta à luta.

A batalha esquenta. Apesar da minha aversão geral a tudo na vida que envolva correr e fazer exercícios, a sensação real deste dia inteiro trouxe à tona a competidora que existe dentro de mim que normalmente só emerge quando estou aloprando as pessoas e falando merda enquanto jogo videogame. Não está muito claro no momento quem está vencendo; o comando central acompanha o movimento da bandeira por meio do seu novo sistema de rastreamento por GPS e com o PC que também lida com toda a comunicação dentro do campo.

Mas ninguém ouve nada lá no QG. O General Tomcich não está mais em frente ao computador. Em vez disto, Tomcich está no lado oposto ao meu no bosque defendendo a nossa bandeira Púrpura de ser capturada. "Estamos com resistência pesada aqui, galera", ouvimos pelo rádio. "Dá uma canseira neles", grita um dos jogadores. Minutos mais tarde nossos colegas da equipe Púrpura chegam correndo pelas árvores segurando uma bandeira. Nossos oponentes não estão muito atrás. Mas já é tarde demais. Esta rodada é nossa.

 

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Erin Biba é uma correspondente em São Francisco da revista WIRED que escreve sobre ciência, cultura popular e cerveja feita a partir de levedura primordial. Eis o Twitter dela para segui-la.