Antropólogos italianos documentaram um caso em que um homem da Idade Média não só conseguiu sobreviver à amputação de sua mão direita, como também utilizou uma arma branca como prótese.

Mais de 160 tumbas foram escavadas na necrópole de lombardos em Povegliano Veronese, Vêneto, no norte da Itália. Esse esqueleto foi retirado em 1996 e é completamente único: datado entre os séculos 6 e 8 e batizado de T US 380, o fóssil se trata de um homem que sobreviveu à amputação de sua mão direita.

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Porém, como mostra a nova pesquisa publicada pelo periódico Journal of Anthropological Sciences, ele substituiu o membro com uma faca, que foi incorporada usando um tecido, fivela e tiras de couro. Além disso, a análise dentária mostra que ele amarrou a peça com os dentes.

A análise atualizada do esqueleto, liderada pela antropóloga Ileana Micarelli, da Universidade de Roma, sugere que a mão direita do homem foi perdida com um único golpe. Muitos lombardos estavam envolvidos em guerras, então é possível que ele a tenha perdido em combate. É possível também que a mão tenha sido removida cirurgicamente como parte de uma intervenção médica ou tenha sido cortada por punição judicial, comportamento conhecido entre os lombardos da era medieval.

Independente do que tenha acontecido, é claro a partir das evidências paleontológicas que o T US 380 sobreviveu à amputação e que a lesão sarou bem. Inclusive, ele conseguiu viver um bom tempo depois disso. Micarelli e sua equipe afirmam que esse é um exemplo notável de um humano que sobreviveu à perda de um membro antes da introdução de técnicas de esterilização e antibióticos.

O caso sugere a presença de apoio comunitário e um ambiente em que cuidados intensivos poderiam acontecer. Também mostra que os médicos lombardos, ou quem realizou o procedimento, conhecia algumas técnicas para prevenir a perda de sangue.

Uma análise mais aprofundada dos ossos do homem aponta o uso de uma prótese. Um tecido cicatricial ósseo foi formado ao redor das extremidades do membro, que provavelmente foi resultado de uma força biomecânica frequente. Algumas evidências arqueológicas revelam uma faca, um tecido sobre o coto e uma fivela em forma de “D” com material orgânico decomposto ao redor, provavelmente couro.

Outros esqueletos masculinos encontrados no local foram enterrados com os braços ao lado do corpo, mas o T US 380 teve seu braço direito colocado em seu torso e uma faca com a coronha alinhada ao pulso amputado.

Mas existem outras evidências. Os dentes do fóssil exibiram sinais de intemperismo “considerável”, o que, segundo os pesquisadores, “aponta para o uso dentário ao prender a prótese ao membro”. Por fim, a tomografia computadorizada revelou perda óssea cortical, o que geralmente ocorre com a presença de uma prótese.

“Esse homem lombardo revela uma jornada de sobrevivência notável após uma amputação durante a era pré-antibiótica”, escrevem os pesquisadores no estudo. “Ele não apenas se ajustou muito bem à sua condição, como passou a utilizar um dispositivo derivado da cultura, junto com o apoio considerável da comunidade. Provavelmente, ele tinha uma prótese que era usada para proteger o membro”.

Não existem evidências suficientes que mostrem que T US 380 usou a faca, mas ela pode ter servido para diversos propósitos, como um acessório estético, auto-defesa ou ferramenta útil para tarefas diárias, como comer ou manipular outros objetos.

“A sobrevivência desse homem lombardo atesta o cuidado comunitário, a compaixão familiar e um alto valor dado à vida humana”, concluem os pesquisadores. “Uma variedade de interpretações e implicações a partir da evidência esquelética de lesões como essa pode nos informar sobre as motivações de outras pessoas ao cuidar de pessoas com deficiência.”

[Journal of Anthropological Sciences via ScienceAlert]

Imagem do topo: O esqueleto, com a faca e fivela em destaque. Créditos: Ileana Micarelli et al., 2018