Eu vi o futuro hoje. Na feira MWC, eu tive a chance de experimentar o novo headset de realidade virtual que HTC e Valve – que comanda a loja de jogos Steam – estão desenvolvendo, e ele é sensacional.

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Este headset acerta em cheio na sensação de presença: a sensação de que você não está apenas vendo um mundo diferente, mas que seu corpo foi transportado para lá. Coloque o Vive no rosto, e você está em outro lugar. Eu dei uns tapas em peixes num naufrágio, andei como um gigante em um campo de batalha, recebi ordens da GLaDOS, e tudo parecia incrivelmente real.

Assim como o Oculus Rift original e o Samsung Gear VR, a sensação de realmente estar em outro lugar está presente, mas é passageira. Eles não conseguem acompanhar o movimento do seu corpo: por isso, logo que você se inclina ligeiramente, a ilusão se desfaz.

O Oculus Rift DK2 faz isso melhor, com uma câmera que rastreia movimentos, e pelo menos permite que você se incline – mas não segue seus braços nem seu corpo. O Project Morpheus da Sony melhorou isso ainda mais usando controles PlayStation Move para ficar de olho nas suas mãos.

Mas o Vive é diferente de tudo que vimos antes.

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Olá, terráqueos.

Como funciona

HTC e Valve criam uma ilusão sensorial de três maneiras. Primeiro, temos uma tela de 1200×1080 pixels para cada olho, com taxa de atualização de 90 Hz. Isso deve ser o bastante para evitar o “efeito tela mosquiteira” (screen door effect), no qual você consegue ver tudo nitidamente, mas ainda percebe o espaço entre os pixels – a tela fica muito próxima dos seus olhos, afinal. Quanto mais pixels, menor o efeito desagradável.

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Em segundo lugar, há o rastreamento de posição: o HTC Vive usa dois sensores que você pendura na parede em um ângulo de 90 graus. Eles acompanham você praticamente onde você estiver, não importa o que fizer. Pode se agachar, pular, se inclinar, virar a cabeça, olhar para cima, para baixo, esquerda, direita, e o sistema vai repetir os mesmos movimentos com base na posição de sua cabeça. E sim, eles serão bem menores na versão final.

Mas isso só resolve parte do problema. O sistema de rastreamento ainda não pode ver seus braços ou mãos – aí entram os controles. Há dois deles, um para cada mão. Eles se parecem muito com os nunchuks do Nintendo Wii, mas em vez de um joystick em cima, cada um tem um touchpad, como nos primeiros Steam Controllers. Na parte traseira, há um botão para seu dedo indicador. Estes controles simples são as suas duas mãos “virtuais”.

É a combinação dessas duas coisas que faz toda a experiência se transformar em algo tão alucinante e envolvente. De longe, é a realidade virtual mais imersiva que eu já testei.

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Os controles têm rastreadores – assim como os pequenos quadrados que você vê no headset – que permitem ao Vive saber exatamente onde eles estão. Por isso, o Vive mostra a você onde estão suas mãos e braços.

É incrível mesmo. Você vê suas mãos na vida real, coloca o headset e continua vendo suas mãos, só que no mundo virtual. Elas agem como um ponto de ancoragem enquanto você viaja da realidade real para a virtual: ainda é o seu corpo, ainda são os seus braços – eles estão apenas em outro lugar. É um pequeno detalhe, mas faz toda a diferença.

Antes de usar o headset, é preciso instalar os sensores na parede e definir o tamanho da sala. Isso se torna o seu espaço virtual. Depois de fazer isso, e de tirar os objetos no caminho, é hora de entrar em outra realidade. E caso você se aproxime muito da parede, surge uma grade translúcida, uma espécie de cerca virtual indicando que você deve se afastar.

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Demonstrações

HTC e Valve tinham algumas demonstrações prontas para o headset. Na primeira, eu fui enviado para o fundo do mar, em um navio naufragado, para pegar objetos. O navio, que eu podia explorar, estava repleto de peixes que eu podia tocar e tentar pegar com meus braços.

Então uma baleia enorme aparece, para e fica olhando para baixo com seu olho enorme. Estes são os momentos mais difíceis de explicar ao escrever sobre realidade virtual: nesse exato momento, eu me senti minúsculo. Essa sensação criada por um headset é muito mais importante do que a resolução da tela ou sua taxa de atualização.

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Na demonstração seguinte, eu era um gigante numa batalha entre exércitos de minúsculos soldados. Eu podia me ajoelhar e vê-los mais de perto, ou eu poderia saltar sobre as muralhas de um castelo para ver o que estava por trás. Eu queria esmagá-los como formigas, mas isso ainda não era possível. Graças aos sensores holodeck na parede, você pode mover sua cabeça e seu corpo da maneira que desejar, e o Vive pode ver o que você está fazendo e ajustar o ponto de vista.

Na minha demonstração favorita, eu fui transportado para uma cozinha. A qualidade gráfica não era perfeita, mas eu podia ver diversos ingredientes culinários ao meu redor: tomates, cogumelos, ovos, carne. Em seguida, apareceu um quadro-negro com uma receita e eu andei pela cozinha para pegar todos os ingredientes, abrir o micro-ondas, ligá-lo, desligá-lo, abrir algumas gavetas, geladeira, entre outros.

É algo completamente mundano, claro, mas tudo parecia tão natural. Eu estava realmente me movendo em uma cozinha virtual, dando passos reais, atirando ovos na parede (não me julgue) e fazendo uma sopa de tomate como um chef.

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A última demonstração foi ótima. Como a Valve está por trás do headset, de repente eu fui colocado em um laboratório da Aperture, do aclamado jogo Portal. A voz robótica da GLaDOS começou a falar, me ordenando a fechar e abrir algumas gavetas. Em uma dessas gavetas havia um bolo (não era uma mentira, afinal de contas). Depois disso, eu abri uma porta gigante com uma enorme alavanca vermelha. Então, apareceu o robô Atlas: ele estava trêmulo e quebrado. Fui ordenado a consertá-lo com uma interface 3D flutuante a laser. Foi demais.

E a versão final?

A versão final do HTC Vive, que será lançada no final do ano, terá duas grandes diferenças em relação ao protótipo que eu testei. Em primeiro lugar, os sensores pendurados na parede serão menores. Por enquanto, eles são duas caixas enormes – não é excelente para decoração. Em segundo lugar, os controles não terão fios; por enquanto, eles estão ligados ao PC que roda a simulação, assim como o headset.

E este talvez seja o principal ponto fraco do HTC Vive. É como estar na Matrix, porque a realidade virtual parece real, mas você está conectado a um PC com um cabo que sai da parte de trás de sua cabeça. Isso poderá limitar seus movimentos e, às vezes (mas não muitas, na minha experiência), criar um risco de tropeços. Não é um problema muito grande, mas é perceptível.

Mesmo com essa desvantagem, HTC e Valve criaram a melhor experiência de realidade virtual até agora, embora eu não iria tão longe a ponto de dizer que o HTC Vive vai vencer a guerra da VR.

Sim, a abordagem da HTC e Valve é a melhor que eu já vi para jogos, mas o Samsung Gear VR é ótimo para assistir a um filme – e sem fios! O Oculus Rift e o Project Morpheus – especialmente o novo protótipo, que eu ainda não tive a oportunidade de experimentar – será bom para jogos também, sem dúvida, e melhor para situações em que você não tem muito espaço para se mover. O uso do Vive de uma sala inteira é ao mesmo tempo um dos seus pontos mais fortes e seu maior problema.

A realidade virtual virá em muitos sabores, e está vindo agora. Este é o futuro incrível de ficção cientifica que eu sempre sonhei.