O poder dos nossos sentidos é maior do que você imagina: pesquisadores sabem, há algum tempo, que podemos ver entre 2,3 milhões e 7,5 milhões de cores diferentes, e podemos distinguir entre 340.000 sons. Mas até então, acreditava-se que nosso olfato era bem menos desenvolvido. Um novo estudo tenta rebater isso.

Dizem há décadas que o nariz humano só consegue detectar cerca de 10.000 odores, o que muitos cientistas acreditam ser algo subestimado. Pesquisadores da Rockefeller University (EUA) fizeram testes e estimam um valor muito maior: seríamos capazes de detectar até um trilhão de aromas diferentes.

Seria impossível testar tantos aromas assim – seja 10.000 ou um trilhão – em um estudo científico. Na verdade, analisar o olfato já é um desafio: ao contrário da visão e audição, os cheiros são muito complexos, compostos por centenas de moléculas odoríferas. O aroma de uma rosa, por exemplo, tem 275 componentes; um cafezinho, por sua vez, tem até 500 tipos dessas moléculas. No entanto, a maioria é bem fraca e não é percebida.

Então os pesquisadores tiveram que adotar uma alternativa: eles criaram 200 coquetéis de aromas com variações sutis em sua composição, para ver se os voluntários conseguiam notar qual era o odor diferente.

O cientista Andreas Keller, que liderou o estudo, usou 128 tipos de moléculas odoríferas – como cheiro de laranja, hortelã e outros – para criar os coquetéis de aromas. A fórmula variava, mas sempre havia um odor dominante.

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Em cada teste, os 28 voluntários cheiravam três frascos: dois com a mesma mistura, e outro com um coquetel semelhante. Então os pesquisadores perguntavam: “qual é o frasco diferente?” e “qual é o cheiro diferente nesse frasco?”. Os voluntários analisaram 260 conjuntos de frascos.

Depois, os cientistas contaram quantos aromas diferentes puderam ser identificados. Eles também levaram em conta algo importante: quando os voluntários não distinguiam o odor diferente? Isso acontecia, em geral, quando a composição dos três frascos era muito (mais de 50%) semelhante.

Considerando tudo isso, bastou usar um pouco de matemática: se uma pessoa consegue identificar x odores das 200 misturas, quantos ela conseguiria distinguir de todas as possíveis misturas com as 128 moléculas? A resposta: em média, um trilhão. O estudo foi publicado na revista Science.

Note que os pesquisadores assumiram haver apenas 128 tipos de moléculas odoríferas; porém há muito mais. Ou seja, nosso olfato pode ser ainda mais poderoso. Leslie Vosshall, pesquisadora que participou do estudo, diz ao LiveScience:

É bastante provável que o nariz humano possa na verdade detectar até mais de 1 trilhão de cheiros, porque as moléculas odoríferas se combinam de muitas outras formas no mundo real do que os pesquisadores foram capazes de imitar em laboratório.

O número de odores que os humanos conseguem notar pode ser revisado no futuro. A estimativa mais comum, de dez mil cheiros, vem de um estudo de 1927: dois químicos criaram um sistema de classificação com quatro odores primários – fragrante, ácido, queimado e caprílico. Eles se combinavam em intensidades que iam de 1 a 9, o que gerava um total de 6.561 cheiros possíveis. Mais tarde, esse número foi arredondado para 10.000.

E agora, temos a estimativa de um trilhão. Vosshall diz que “nosso olfato é mais sensível do que acreditamos; nós só não prestamos atenção nisso, nem o usamos no dia a dia”. Por isso, ela recomenda: “não se limite a poucos aromas – sinta um trilhão deles”. [DiscoverLiveScienceWashington Post]

Fotos por Zach Veilleux/Rockefeller University